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Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
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Um ano após agressão, Kauê Mena leva vida normal e quer voltar a treinar MMA

Processo contra agressores pode culminar em júri popular e família ainda tem dívida com hospital

Anderson Bernardes
Vale

Há um ano o atleta Kauê Mena lutava contra a morte. Depois de se envolver em uma briga em um posto de gasolina, o lutador de MMA foi encaminhado ao hospital Ruth Cardoso onde, de acordo com a família, permaneceu por 13 horas sem receber atendimento e foi transferido ao Hospital do Coração, em Balneário Camboriú. Deu entrada na UTI em coma e com chances mínimas de sobreviver.

:: Entrevista com Kauê Mena: "Minha vida agora está muito boa"

Arquivo Pessoal
Kauê se recupera com o apoio dos familiares

Acostumado a entrar no octógono sozinho para enfrentar os adversários, Kauê começou uma luta que só poderia ser vencida com a ajuda de outra lutadora: Gisele Mena, a mãe dele. E a vitória para Gisele passava longe dos cinturões da modalidade que o filho escolheu para praticar e que, de certa forma, também selou seu destino. Vencer consistia apenas em manter o filho vivo, fosse do jeito que fosse, e em manter a esperança de que haveria um final feliz.

Qualquer pessoa que tenha visto as imagens de Kauê recebendo uma paulada na cabeça e depois sendo chutado diversas vezes, estirado no chão, dificilmente manteve alguma esperança de que ele pudesse sobreviver e, se sobrevivesse, que pudesse ter uma vida similar ao que convencionamos chamar de normal. E foi por isso que Gisele nunca viu aquelas imagens, para não perder a esperança.

Um ano depois, pode-se dizer que mãe e filho venceram. Depois de ficar afastada durante oito meses do trabalho de professora em uma escola da rede municipal de ensino em Santa Vitória do Palmar, no extremo sul do Rio Grande do Sul, para se dedicar exclusivamente à recuperação do filho, Gisele voltou a lecionar.

Arquivo Pessoal
Alegria no reencontro com um dos médicos 

Kauê fica em casa, com irmão mais novo, Kauã, e com a tia Arlene. Apesar de ainda não poder sair sozinho, ele não depende de ninguém para nada. Passeia acompanhado dos amigos e, na última consulta com o neurologista, foi liberado para frequentar festas. Os ferimentos na cabeça, causados pela agressão, não comprometeram nenhum dos sentidos. A visão, que a princípio corria o risco maior de ter sido afetada, está perfeita. “Nem colírio, nem óculos ele precisa usar”, garante a mãe.

Os traumas causados pela agressão deixaram algumas sequelas. Kauê tem alguma dificuldade na fala e também tem lapsos de memória curta, esquece pessoas ou conversas que teve recentemente. As lembranças antigas estão todas intactas. Ele se lembra da infância e também do tempo em que esteve em Santa Catarina.

Foi no litoral catarinense que Kauê viveu os piores momentos de sua vida. Na madrugada do dia 6 de julho de 2013, ele e o também lutador de MMA Maiquel Falcão – que chegou a lutar nos principais eventos da modalidade, como UFC e Bellator – entraram na loja de conveniências de um posto de gasolina na vizinha Camboriú e, depois que Falcão agrediu uma mulher que estava na fila do caixa, uma briga generalizada terminou com as agressões que deixaram Kauê gravemente ferido.

Kauê e Falcão foram expulsos da academia em que treinavam, comandada pelo renomado treinador Marcelo Brigadeiro. Falcão, desde então, não manteve mais contato com o colega de academia. Kauê, que foi transferido de Balneário Camboriú para o hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, e posteriormente para a Santa Casa, em Pelotas, não mais retornou a Santa Catarina.

A volta do atleta deve ocorrer em virtude do processo que corre na Vara Criminal de Camboriú. Quatro pessoas foram acusadas pelo Ministério Público e respondem por lesão corporal e tentativa de homicídio. O processo está na fase de instrução e julgamento e tem uma nova audiência marcada para agosto, que pode definir a data de um júri popular para alguns dos réus. Kauê Mena e Maiquel Falcão, considerados vítimas no processo, devem ser intimados a prestar depoimento durante esta audiência.

Gisele Mena não se informou sobre o andamento do processo em nenhum momento, durante este período em que se dedicou à recuperação do filho. Todo o tratamento e as diversas cirurgias e procedimentos médicos adotados para garantir a sobrevivência de Kauê ainda deixaram uma dívida que supera R$ 65 mil, de acordo com os cálculos da família. Essa dívida é decorrente dos dias em que Kauê permaneceu internado na UTI Hospital do Coração. “A família é consciente de que o Kauê foi atendido e precisa pagar, mas não tem condições. Existia vaga na UTI do Hospital Marieta, pelo SUS, enquanto ele ficou no Hospital do Coração. Ele poderia ter sido transferido antes”, afirma a mãe.

No período que o atleta recebeu tratamento na Santa Casa, em Pelotas, a família alugou um imóvel nas imediações do hospital para que Gisele ficasse perto do filho. Na época, os custos com enfermeiras e fisioterapia chegavam a R$ 9 mil por mês. Familiares e amigos, que auxiliaram a mãe de Kauê durante todo esse período, organizaram rifas e bingos para levantar dinheiro e manter os dois juntos em Pelotas. O pai de Kauê, José Carlos, durante todo esse tempo, manteve-se no trabalho como despachante aduaneiro, na cidade de Chuí, para dar suporte financeiro à luta da esposa e do filho mais velho.

Durante a recuperação, Kauê visitou os amigos da academia de MMA onde começou os treinamentos e a carreira no esporte, em Pelotas. Nas conversas que tem com a mãe, ele afirma que quer voltar a treinar. Depois de tudo o que passou nestes últimos 12 meses, Gisele não tem nenhuma restrição a qualquer desejo do filho e já disse que apoia a volta dele aos treinamentos.

O fato de Kauê estar vivo e poder desejar qualquer coisa, para Gisele, é a própria vitória.

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