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Segunda-Feira, 24 de Setembro de 2018
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“Se eu errei, errei sem saber”, declara José Ferreira sobre as denúncias da Parada Obrigatória

Depois de 128 dias preso, o vereador fala pela primeira vez sobre a investigação

Bruna Bertoletti
Vale
Foto/Matheus Nunes/RICTV Record
Em entrevista, José Ferreira declarou ser inocente

José Alvercino Ferreira retornou à Câmara de Vereadores de Itajaí na noite desta quinta-feira (26). Pela primeira vez, depois de ter ficado 128 dias peso no Complexo Penitenciário do Vale do Itajaí, o vereador falou sobre as denúncias da Operação Parada Obrigatória e declarou ser inocente. Ele ainda contou sobre a rotina no tempo em que ficou detido e dos planos para eleição do próximo ano. 

Como foram esses 128 dias detido no Complexo Penitenciário do Vale do Itajaí?

Os primeiros 34 dias eu não dividi cela com ninguém eu fiquei sozinho sem televisão, sem rádio, fiquei isolado. Depois disso eu sai do presídio e fui transferido para a penitenciária e ai então, eu dividia cela com mais oito pessoas. Depois eu fui dividir uma outra cela com mais quinze pessoas. São os “regalias”, pessoas que trabalham lá.

Eu tive  uma ordem judicial para que eu ficasse em uma cela sozinho, mas como eu não aguentei ficar sozinho, eu já tava ficando louco, meus advogados pediram para que eu dividisse a cela com pessoas que trabalhassem no presídio. Então, eu ficava junto com essas pessoas que saiam para trabalhar, e eu fazia o tabalho de dentro da cela, ou seja, eu limpava cela, eu arrumava as comidas, separava. Eu ficava fazendo esse serviço para passar o tempo dentro da cela.

Eu fui tratado lá dentro como todos os outro presos, não teve regalia porque sou vereador. A única coisa é que a princípio eu fiquei sozinho, por ter trabalhado na Secretária de Segurança e cheguei a ser secretário da Coordenadoria de Trânsito.

E quanto a mudança física, o que aconteceu neste período?

Eu não estava acostumado com aquilo. Fiquei triste, em depressão, tomava remédio e emagreci 44 quilos lá dentro. Raspei o cabelo, isso é um Regimento Interno. Inclusive foi aberta uma sindicância em razão de ter vazado umas fotos minhas lá dentro, alguém vazou, não poderia ter vazado aquelas fotos. Você vê que outros presos da operação seguinte (A Dupla Face) não tiveram fotos vazadas, só a minha.

Então, eu emagreci em função da dificuldade, de não estar acostumado. Uma pessoa que nunca esteve presa e habituado a agilidade, a trabalhar, ao dia a dia. Também teve o sofrimento que passou toda a minha família. Mas depois que eu passei do presídio para a penitenciária eu consegui ficar um pouco mais tranquilo, porque fiquei com mais pessoas, eu conseguia conversar. Ai a minha depressão deu uma melhorada, a autoestima também. Para se ter uma ideia, enquanto eles estavam cortando meu cabelo, estavam me filmando e depois saiu na internet. Então, aquilo era importante, mostrar para a população, o que estavam fazendo com o Zé.

Com relação ao inquérito, você realmente facilitou a retirada de multas de alguns carros que foram apreendidos no trânsito de Itajaí?

Não tem como facilitar a retirada de multas. Como a população sabia que eu trabalhava no trânsito, eu era procurado por essas pessoas para ajudar a fazer a defesa. Porque não tem como eu retirar a multa. A partir do momento que a multa está no computador, só quem pode retirar é o DETRAN, atraves de um processo que vai para a Jari (Junta Administrativa de Recursos de Infrações), que julga e depois defere ou indefere.

O sumiço das mais de 700  motos que ficavam no pátio realmente aconteceu?

Na verdade não são 700 motocicletas, são sucatas de motocicletas, das quais não são todas de Itajaí. Esse guincho e dono do guincho (Julio Cesar Fernandes, Dono do B-Auto) também tem a concessão do guincho de Brusque, e sem meu consentimento e o consentimento de qualquer um do órgão público, sem o consentimento de alguém ele vendeu aproximadamente 700 sucatas de motocicletas. Sendo, segundo informações apuradas por solicitação dos nossos advogados, 200 motocicletas vieram de Brusque, cem vieram Lages e 200 de Itajaí. Isso é o que se conta.

Segundo informações dos depoentes eu não sabia de nada. E segundo informações também dos depoentes, foi oferecido dinheiro a duas pessoas para que elas dissessem que eu havia vendido as motocicletas para que o outro (Julio Cesar Fernandes) fosse inocentado. Ai viram que eu não tinha nada a ver com isso e revogaram minha prisão. Na verdade, o que revogou minha prisão foi o depoimento das pessoas que compraram, das pessoas que venderam  e das pessoas que intermediaram a negociação dizendo que não foi o José Alvercino que fez isso, e sim, o dono do pátio.

Você não ajudou nem a conseguir o transporte até São Paulo?

Não, porque os próprios motoristas também foram ouvidos disseram que não fui eu, que não falaram comigo, que não me conhecem, alguns me conheciam pela televisão outros pessoalmente, mas todos que foram ouvidos eles não tinham contato comigo. A própria empresa que transportou, disse que não foi José Alvercino que contratou e que em momento algum José Alvercino estava junto na venda da motocicleta.

Está bem claro, nenhum dos órgãos públicos sabiam da venda dessas motos. Há 16 anos não havia leilões de carros e de motocicletas apreendidas, então elas (as motos) se tornam sucatas. Elas haviam passado por três pátios, por três concessões. Então algumas dessas motos já não tinham mais nem documentação, tanto que havia dificuldade para localizar a documentação.

O proprietário do guincho achou que se ele vendesse não ia aparecer. Só que segredo em dois não existe. Aliás, foi segredo em oito. Isso ia ser descoberto, mais tempo ou menos tempo. Só que aconteceu sem o concentimento do poder público, principalmente do prefeito Jandir Bellini, da Secretária de Segurança e da Coordenadoria de Trânsito, e muito menos de José Alvercino Ferreira, eu não estava mais na Coordenadoria de Trânsito. Como é que eu ia vender as motocicletas não estando na coordenadoria?

E a questão dos 17% que a prefeitura deixou de receber pelo suposto acordo entre o poder público e o pátio de veículos apreendidos?

Isso já não é da minha época, porque até então, na minha época ele (Júlio Cesar Fernandes) tirava as notas integrais. Como já fazem dois anos que eu não estou na Coordenadoria de Trânsito, ele informou isso. Eu acredito mais no doutor Nelson Abrão, que era o secretário da época, e no Willian Gervasi que não houve esse acordo. Porque quando você faz esse acordo, com qualquer órgão público você tem que botar no papel, e ambas as partes tem que assinar, tanto a prefeitura quanto quem está fazendo o acordo. E se não está no papel, se não está assinado pela prefeitura e pelo órgão concessionário, é porque não aconteceu isso. E como ele (dono do pátio) tentou comprar as testemunhas para que eles me incriminassem, ele deve tá usando o mesmo mecanismo para incriminar essas duas pessoas, o Nelson Abraão e Willian Gervasi, que até onde eu sei, são pessoas sérias.

E com relação ao pagamento de propina para a liberação de alvará para um dos eventos de Food Truck de Itajaí?

Aconteceu a ligação, não foi de quem estava fazendo o evento foi de uma empresa distribuidora de bebidas. Ele falou que estava colocando a bebida e estava cobrando 15%, e perguntou se havia a possibilidade do alvará ser mais barato. Eu disse que não existe como fazer, mas que era para ele se dirigir até o órgão responsável, que é a Secretária Municipal de Urbanismo, e que deu todo o suporte.

E eu recebi um dos organizadores na minha sala, que também é testemunha, e ele sabe que em momento algum eu falei em dinheiro. Tudo que eu fiz, na advocacia administrativa, se eu errei, errei sem saber. Posso ter errado. A justiça que vai dizer. Uma coisa é certa. Se é que cometi algum erro, cometi involuntariamente. Agora pode ter certeza que a maior preocupação foi quanto as motocicletas, ou seja, as 700 sucatas de motocicletas. Quando as pessoas disseram que não me conheciam (no depoimento), que não fui eu, aquilo me deu um alívio tão grande. A preocupação era em saber que estava sendo acusado, de algo que não tinha nada a ver.

E a retirada de peças de alguns veículos que estavam apreendidos no pátio, para serem colocados em alguns carros que estavam sendo vendidos na garagem do seu filho, isso realmente aconteceu?

Na verdade, eu não tenho participação na Utilicar Veículos. Houve a conversa entre meu filho e o dono do patio, oferecendo algumas peças sim para ele. A conversa foi referente a duas ou três peças de alguns veículos que não eram encontrados no mercado, e eles acabaram negociando e vendendo.

Com relação ao futuro político, você acredita que nas próximas eleições vai voltar como vereador?

Eu não sei o que vou fazer ainda. Eu vou aguardar os fatos, os acontecimentos dos fatos. Eu tenho esse processo na justiça, eu confio na justiça. Eu acredito que serei inocentado na justiça. O primeiro problemas já está sendo resolvido, que é os das motocicletas. Os outros a gente vai comprovar que eu não cometi erro, e se cometi, foi involuntário. E ai depois eu vou ver a questão para o ano que vem, esse ano eu não posso dizer o que vou fazer ano que vem. Se ano que vem eu me senti a vontade, mas eu não estou muito a vontade sobre a reeleição. Mas, não posso dizer que dessa água não beberei.

E depois de quatro meses preso, qual a sensação de voltar a sentar em uma cadeira no legislativo?

Na verdade eu fui uma pessoa sempre muito polêmica. Eu sempre disse o que tinha para dizer. Então, as pessoas que gostam de mim continuam gostando, me abraçando, conversando, me agradecendo, e aquelas que não gostam acabam me odiando. Não tem aquela coisa eu sou mais ou menos com o “Zé”, tem quem goste e a que não goste.

Infelizmente, com isso, aqueles inimigos políticos se aproveitaram da situação, e alguns até se beneficiaram de alguma coisa que eu fiz. Eles acabam vindo falar, fazer manifestação, mas estou bem tranquilo. Vou respeitar, estamos em um país democrático, você tem que aprender a ouvir as críticas. Hoje, a política está em baixa. A população está muito incrédula com os políticos.

*Entrevista de Ana Maykot, RICTV Record.

CONTRAPONTO:

Por telefone, o advogado de defesa de Júlio César Fernandes, João Jorge Fernandes Júnior disse que quem negociou e vendeu as motos foi José Alvercino Ferreira. De acordo com o advogado, o vereador tinha autoridade na época, como coordenador da Codetran, para solicitar a liberação do lote com mais de 700 motos.

O advogado disse ainda que Júlio César Fernandes atuava como um "porteiro" do pátio, não apreendia e nem liberava veículos, apenas cumpria ordens e que, José Alvercino Ferreira vendeu as mais 700 motos para  arrecadar fundos para a campanha dele. O advogado disse ainda que todas estas declarações já foram feitas para a polícia e constam no processo.

Sobre o pátio de veículos apreendidos, em depoimento à CPI da Codetran, Fernandes declarou que houve uma reunião entre ele, José Alvercino e Willian Gervasi em que foi passado que para que houvesse a compensação do custo extra com a implantação de um segundo pátio, em benefício à população, a prefeitura ficaria dois anos sem o recolhimento dos 17%, previsto em contrato. 

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