Um ex-bilionário na praça 15 de Novembro

Na babel de tipos e sotaques que caracteriza a praça 15 de Novembro, o lado direito de quem vem do aterro, na parte próxima à agência central dos Correios, ganhou movimentação extra na tarde desta sexta-feira. Pessoas atravessavam a rua, ou vinham do calçadão e das vias do lado oposto, para olhar, fotografar e mandar para frente, por meio das redes sociais, a imagem inusitada do empresário Eike Batista, cujo busto foi colocado no lugar onde desde 1929 reinava, sóbrio e absoluto, o pintor Victor Meirelles, catarinense que foi uma das maiores expressões da arte brasileira do século 19.

 

Eduardo Valente/ND

Responsáveis da obra dizem que ela está ali para “preencher o vazio físico”

 

Nem todos, porém, perceberam o absurdo da situação. “Ali tinha a estátua de um padre, e mais adiante a de um fundador de Florianópolis”, chuta o aposentado Vivaldino (ele não quis dar o nome completo), que é de Chapecó mas mora há 20 anos em Biguaçu e vem ao centro da Capital pelo menos duas vezes por mês. “Roubaram o bronze para derreter”, sentencia ele, sem fazer ideia de quem foi Meirelles e de quem é Batista. Vivaldino acompanhou pela televisão a polêmica do sumiço dos bustos do pintor, do poeta Cruz e Sousa, do jornalista Jerônimo Coelho e do historiador José Boiteux, em agosto do ano passado.

Depois de tanto tempo, e sem que ninguém providenciasse a recolocação dos bustos originais, o grupo Erro de teatro – conhecido pelas intervenções urbanas e pela postura crítica desde que foi criado, em 2002 – criou BustoX, parte da exposição “Erro Ex Posto”, que brinca com o “x”, letra remete ao nome das empresas de Eike Batista. Em texto afixado numa palmeira imperial próxima ao pedestal, o coletivo de artistas explica que a iniciativa teve o objetivo de “preencher o vazio físico e simbólico causado por este ato [o sumiço] e lacuna contra a memória e a cultura da história de nossa Capital do Estado”.

Do humor à crítica aberta

As reações dos transeuntes que passam ao lado do canteiro onde está o busto vão do riso à reprovação total. O instrutor de informática Bruno I. Filho considera que a intervenção é “um desrespeito ao patrimônio público” e, portanto, deveria ser removida dali imediatamente. “Se o empresário tivesse deixado um legado para a cidade e as futuras gerações, seria diferente”, destaca ele. Aposentado como ex-funcionário dos Correios, Edson Luiz Esteves prefere criticar outros problemas da praça e de seu entorno, como a ação de vândalos e o descaso com o patrimônio público, e coloca a questão dos bustos roubados como mais um problema da cidade. “É válido ter esculturas na praça, mas o povo vem e quebra tudo”, afirma.

Passando por ali, um funcionário público que também não quer ter seu nome publicado disse que a obra é “uma sátira de fino trato, de ímpar humor britânico”. “Vemos como os recursos do Bndes (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) podem ser aplicados por pessoas com responsabilidade social”, ironizou. Também há os que, sem nada ter lido sobre a brincadeira do grupo Erro, admitem que os traços são parecidos com os do empresário Eike Batista e nem se detêm, seguindo em frente. E não falta quem veja nessa manifestação de arte “um grão de areia na grande insatisfação geral no país”.

Em fase de acabamento

O projeto “Erro Ex Posto” foi um dos vencedores do Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura 2013, da Fundação Catarinense de Cultura, levando R$ 6 mil. A proponente, a atriz Luana Raiter, informa que “a exposição tem como objetivo repensar os 12 anos de grupo, a fim de reinventar essa história em um processo de desapego e exposição”. Na questão da praça, a intenção do grupo Erro, mais do que expor o ex-bilionário mineiro, é protestar contra o roubo dos bustos e a demora da prefeitura da Capital em recolocar as obras nos pedestais. A polícia nunca conseguiu localizar os responsáveis pelo crime.

A tendência é que o busto de Eike Batista fique na praça 15 de Novembro até que os novos sejam concluídos e ocupem os seus lugares. Na prefeitura, também considera-se que a intervenção do Erro tem caráter artístico e, como tal, não deve ser retirada dali. A informação oficial é de que os novos bustos, feitos por um artista de São José, já se encontram em São Paulo para finalização.

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