A preparação da futura colônia Dona Francisca

Há 163 anos, em março de 1851, a chegada dos imigrantes trazidos pela barca Colon marcava a fundação oficial da então Colônia Dona Francisca, que daria origem ao que é hoje o município de Joinville. Mas cerca de um ano antes disso, em maio de 1850, um grupo de nove pessoas liderado pelo representante do Príncipe de Joinville, Léonce Aubé, desembarcou nas terras úmidas, às margens do rio Cachoeira. Vinham com o objetivo de preparar a área para receber os primeiros colonos trazidos pela Companhia Colonizadora de Hamburgo – uma missão nada fácil, que incluía abrir caminho em meio à mata, erguer abrigos e iniciar as primeiras plantações. Entre estes pioneiros estava Louis Duvoisin, de 30 anos. Cozinheiro de Aubé, ele foi um dos poucos integrantes deste grupo inicial que fincou raízes nas terras da Colônia Dona Francisca. E até hoje, quase 164 depois, muitos de seus descendentes ainda vivem em Joinville.

 

Fotos Rogério Souza Jr/ND

Alzira Duvoisin, hoje com 96 anos, ao lado do filho Leôncio e a nora, Iracema

 

De origem franco-suíça, Louis Duvoisin teria saído de Cantão Vaud, na Suíça, e imigrado para o Brasil em 1842. Há relatos de que ele participou do projeto do Falanstério do Saí, neste mesmo ano, uma experiência socialista implementada por Benoit Jules Mure, na região de São Francisco do Sul, em que um grupo de colonos associados se propuseram a uma vida com “habitação coletiva e produção e consumo comum”, conforme explica Carlos Ficker, em sua “História de Joinville – Crônica da Colônia Dona Francisca.” O falanstério, porém, não foi adiante e começou a declinar no mesmo ano em que foi estabelecido.

Descendentes de Duvoisin relatam que ele teria chegado às terras da princesa Dona Francisca em 1846, o ano em que as terras dotais começaram a ser demarcadas. Nessa época, Léonce Aubé já era vice-cônsul da França em Santa Catarina e começa a deixar seu nome marcado na história de Joinville. Mas, com certeza, em maio de 1850, a embarcação “Dous Irmãos” chegava a São Francisco do Sul trazendo Aubé e seu cozinheiro solteiro, Duvoisin; Hermann Guenther, o engenheiro responsável por estes primeiros trabalhos para receber os colonos que desembarcariam no local no ano seguinte, com sua companheira Julie Engell; e mais duas famílias de lavradores. Sempre é bom lembrar que apesar da mata cerrada, a região estava longe de ser desabitada e, famílias como as do Coronel Camacho e do Coronel Vieira, com seus escravos, além de um francês conhecido como Frontin (que veio do Falanstério do Saí), já moravam há muito tempo no local e auxiliaram o grupo nestes momentos iniciais.

No ano seguinte, em março de 1851, chegaram ao local o que convencionamos chamar de os primeiros imigrantes e a Colônia Dona Francisca foi tomando forma gradativamente. Louis Duvoisin casou-se com Anna Tanner, que chegou na barca Colon, aos 17 anos.

Em 1864, a família já estava estabelecida na região de Pedreira, hoje Pirabeiraba, onde muitos de seus integrantes ainda vivem. No “Índice de proprietários na Colônia Dona Francisca”, documento anexo ao 13º Relatório da Sociedade Colonizadora de Hamburgo, de 1864, traduzido por Helena Richlin, consta que Louis Duvoisin era proprietário do lote 1002, uma área de cerca de 70 mil braças quadradas em Pedreira (uma área de 154 mil metros quadrados, de acordo com sistema métrico brasileiro de 1866).

 

Reproduções arquivo da família/divulgação/ND

Louis Duvoisin e a esposa Elisa

Louis Duvoisin e a esposa Elisa

A família de Leon Duvoisin, com os filhos, noras, e netos. Da esquerda para direita, sentados: Lebon Luiz Duvoisin (com o filho no colo) e a esposa ao lado; a avó Paula Eberhardt Duvoisin;Leon Duvoisin; Leonardo Duvoisin; Levino Ernesto (pai de Leôncio). Leôncio está de pé ao fundo, de terno claro

Levino e Alzira Duvoisin

 

 

Estabelecimento na Estrada Dona Francisca
O pioneiro Louis Duvoisin era cozinheiro e servente de Aubé e depois abriu um misto de pousada e restaurante na Estrada da Serra, um lugar estratégico, por onde passava os viajantes que traziam a erva-mate que do Planalto Norte para o litoral catarinense.Boa parte da família, extensa, se estabeleceu em Pirabeiraba. Descendente de Louis Duvoisin, Leôncio Alfredo Duvoisin está desde 1965 a frente do açougue aberto por seu pai, Levino Ernesto, em 1938, e que leva o seu nome, no Rio Bonito.

Ele conta que o avô Leon Duvoisin  (o nome em homenagem a Aubé) era conhecido como Leôncio, foi sub-delegado em Pirabeiraba, nomeado por Nereu Ramos, e tinha uma açougue tradicional na região, localizado onde hoje fica Grupo Escolar Olavo Bilac. O estabelecimento passou para seu tio Leonardo e depois foi incorporado à Colinorte – Cooperativa de Laticínios.

 

O antigo açougue e, na frente, Levino, Alzira, Leôncio e um cunhado de Leôncio

 

Já seu pai, Levino, trabalhava “na cidade”, primeiro no Secos e Molhados de Paulo Boehm e depois no de Fernando Hubner. Em 1938, junto com a esposa Alzira Scholz Duvoisin, decidiu abrir seu próprio açougue em uma casa enxaimel na antiga Estrada Três Barras, hoje rua 15 de Outubro. “Decidiu começar do zero”, ressalta o filho, Leôncio.

Aos 96 anos, Alzira pouco fala atualmente, mas deixou registrada sua história em depoimento ao Arquivo Histórico de Joinville. Com poucos recursos, o casal contou com a ajuda do pai de Alzira, Alfredo Scholz, para começar o negócio. “Abrimos um açouguezinho e até meu pai ajudou a construir um matadourozinho (…)”. Alfredo emprestou dinheiro para que eles comprassem os dois primeiros porcos, já que não era costume fazer financiamentos naquela época. “Fizemos a banha, vendemos a carne e com o resto fizemos linguiça. E daí, quando entrou o dinheiro, nós levamos de volta para o meu pai”, revela. A princípio o local não tinha sequer luz elétrica. A saída era usar uma roda d´água para gerar a energia necessária para as máquinas. “Fizemos a roda d’água, que tocava a máquina de moer, porque era muito pesado para virar na mão (…)”.

 

 

A propriedade atual da família, no Rio Bonito

 

 

O gado vinha do Planalto Norte, de Campo Alegre. “Meu marido puxava boi, o pai dele ajudava a tropear (…). Eles iam lá, pousavam e depois, no outro dia, saíam com o gado. E vinham em Pirabeiraba, lá no meu sogro, onde meu cunhado tinha açougue”.

Nos anos 60, o filho Leôncio e a nora Iracema assumiram o negócio da família, que a esta altura já era um próspero açougue. Iracema e Leôncio contam que casaram em 1961 – ela tinha 19 e era professora, ele, aos 21, era torneiro-mecânico.Levino chegou a alugar o estabelecimento por uns três anos para um ex-empregado. Mas não deu certo. Alzira então chamou o casal e resolveu a situação: “Ela falou: ‘Ou vocês assumem ou a gente fecha’”, conta Iracema.

Com Leôncio e Iracema o açougue e abatedouro cresceu e nos anos 60 integrou a União Joinvilense dos Açougueiros, uma parceria semelhante a uma cooperativa, liderada pelo frigorífico da família Zimath, no centro de Joinville. “Primeiro éramos um ponto de vendas da União Joinvilense dos Açougueiros. O nosso era o número 49”, revela Leôncio, que hoje tem 73 anos e ainda está à frente do estabelecimento.

 

Fragmentos de uma época
Trecho do depoimento de Alzira Duvoisin ao Arquivo Histórico de Joinville

“O meu sogro era Leon Duvoisin e o meu filho era para ter o nome do avô. Mas aqueles tempos já eram de guerra – ele nasceu em 40. Então meu marido botou Leôncio porque todo mundo já chamava ele de Leôncio.”


“Era tudo com serrote, à mão. Nós tínhamos um cepo grande, de madeira… era tudo de madeira, inox não existia naqueles tempos. Não tinha embalagem plástica, nada disso, aí se enleava a carne na folha do caetê. Muitos traziam já uma bacia, mas quem não trazia, enleava na folha do caeté.”

 

“Não tinha frigorífico, não podia guardar a carne. Então era assim: o que matava hoje, vendia amanhã cedo. Se acabava naquele dia, de tarde matava outro, porque estava tudo no pasto. O pessoal também não comprava de meio quilo, já compravam um pedaço grande de carne. Compravam grande e aí eles conservavam ou faziam carne seca. O que sobrava, nós fazíamos carne seca.”


“De porco, nós fazíamos linguiça. Banha, muita banha, nós fazíamos muita banha e vendíamos por muitos anos para o Fernando Tilp, lá em Joinville, e linguiça. Nós tínhamos uma caixa de madeira (…) aquela ia quase todo dia com o ônibus pro Fernando Tilp. Esse era nosso freguês sagrado. Não tinha azeite, não existi, e a banha tinha muito consumo.”

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