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Sábado, 17 de Novembro de 2018
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"Os cavalos do Natal", um conto verídico e que emociona família Schwarz há quase um século

O sacrifício de um pai para garantir os presentes de Natal dos filhos e da mulher é tratado como uma relíquia por seus descendentes

Redação ND
Joinville

 

Esta história quase centenária e real é uma das maiores preciosidades natalinas, passadas há pelo menos quatro gerações na família do assinante Lauro Schwarz. Tão fascinante para quem a conhece, que um dia ele resolveu escrevê-la. A versão original tem quase o dobro do tamanho desta, mas o filho de Lauro, o jornalista Rodrigo Schwarz, e sua nora, a também jornalista Raquel Schiavini, se encarregaram de sintetizá-lo para tornar a publicação possível. Um presente de Natal não só para a família Schwarz, mas também para todos os leitores do ND.

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Lauro com a netinha Júlia: a nova geração que chega para carregar a história natalina

 

 

Lauro Schwarz

O dia havia sido extenuante. Era uma segunda, 23 de dezembro de 1916. Carlos era um empreendedor sempre alternando bons e maus momentos econômicos. Ora seus negócios iam de vento em popa e aí era tempo de tentar outra empreitada. Em outras, se dava mal, como foi o caso desta.

Tentara durante todo o dia ganhar algum dinheiro. Amanhã seria véspera de Natal, uma data que sempre fora tão especial. Filho dos imigrantes Karl e Pauline, a mente de Carlos trabalhava intensas lembranças de natais passados. Os pedidos para o bom velhinho eram sempre repetidos na esperança de serem ouvidos. E na casa de seus pais, eram sempre ouvidos.

A noite chegava e Maria, sua mulher, servia uma sopa de legumes. Waldemar, Oscar e Hilda não tinham outro assunto. Os meninos, pensando na sela de montaria, e Hilda, na boneca. Maria não conseguia esconder sua preocupação. Sabia da situação financeira deles e do quanto Carlos estava triste. Conformada, sua preocupação estava em como dizer às crianças por que o Papai Noel passaria longe da casa deles neste Natal. Já havia pensado em pedir um empréstimo aos irmãos, mas afastou a ideia. O marido era orgulhoso demais.

Carlos mal jantou, pensando que não poderia causar esta decepção aos filhos. Sua mente articulava mil hipóteses de fazer algum dinheiro. Seus adorados filhos haveriam de ter seus pedidos atendidos. E Maria, que tanto havia gostado daquele corte de vestido que vira lá no comércio do Roepcke.

A noite foi longa e o sono insistia em passar ao largo. Confiava na intuição. Madrugada ainda, saiu da cama sorrateiramente. Nem Maria percebeu. Deixou apenas um bilhete sobre seu travesseiro “Meu amor! Fui atrás do Papai Noel, esperem por mim.”

Foi até o piquete, ao lado da casa, encilhou Baio e colocou o cabresto em Tostado. Dois cavalos maravilhosos, pelos quais já havia rejeitado inúmeras e tentadoras ofertas. Saiu silenciosamente.

Carlos vagou sem rumo. Quando amanheceu, dirigiu-se a casa Salvador Cubas de Lima, seu abastado amigo, que sempre desejou Baio e Tostado. Tomaram o café da manhã e, durante o chimarrão, apostou todas as suas fichas.

- Obrigado pelo café, meu amigo, mas estou indo até São Bento.

-O que vai fazer em São Bento?

- O Estevão Buschle, meu cunhado, tem um amigo que ficou louco pelos meus cavalos e me fez uma proposta que não posso recusar.

Salvador deu um murro na mesa.

- Mas você sabia que eu sempre gostei destes animais. Você prometeu me procurar primeiro.

- Lembro disto, meu amigo, e por que você acha que estou passando aqui antes?

- Eu te dou os mesmos 30 contos agora mesmo. Aproveita o Natal homem, sei do quanto você gosta desta data.

O sentimento da perda dos cavalos era pesado, mas, aos poucos, foi dando lugar a um assovio tímido, até que surpreendeu-se cantando uma canção natalina em alemão. O espírito de Natal apossara-se dele e foi com esta alegria que ele entrou no Roepcke, comprando a boneca da Hilda, mais sapatos para todas as crianças. E o corte de vestido da Maria e um lindo par de sapatos a ela também. Ainda teria que ir até Bateas apanhar as selas para os meninos.

Em casa, a apreensão de Maria só aumentava. O Natal já seria sem graça, mas sem ele seria terrível. Serviu aos filhos o jantar de véspera composto de pão fresquinho com um preparado a base de pescado enlatado, ovos cozidos e cebola picada, amassados no vinagre. Maria falou que o pai iria chegar mais tarde, tentando tranquilizá-los, porém, sem convencer a si mesma. Encaminhou os filhos para as camas.

Waldemar estava inquieto. Sonhava cavalgando com a sela nova. Mas, acima de tudo, queria a presença do pai. Chamou Oscar para ficarem à espreita na janela. Hilda, cansada, logo dormiu. Entre cochilos e acordadas, foi surpreendido com o grito do irmão.

- Papai! - Era Waldemar assistindo seu pai chegando.

- Papai Noel está aqui conversando com o pai de vocês. Vamos ficar quietinhos, quem sabe logo ouviremos o primeiro sinal - disse Maria.

Quando aquele som tão conhecido ecou pela casa, era o primeiro sinal avisando que o bom velhinho estava arrumando os presentes.

- Ele trouxe a sela mamãe? - indagou Oscar.

- Não sei, vamos esperar.

O segundo sinal não demorou. E, quando o terceiro tocou, Waldemar e Oscar se esbarraram na porta. O pai chamando para a oração de Natal, conseguiu a atenção parcial deles, mas não dos olhos que passeavam pelo ambiente. Uma explosão de alegria antecedeu um cântico de Natal. Maria, maravilhada com o corte de vestido, achegou-se a Carlos, com um olhar terno. Ela tinha orgulho daquele homem. Ele conseguiu salvar o Natal da família. Carlos sentou-se. Cansado, mas feliz. Só ele sabia o dia que tivera. Mas tudo compensou. Estava feliz, todos estavam felizes.

 

 

*Esta história é verídica e me foi contada pelo meu pai Waldemar, com lágrimas nos olhos, respondendo a minha pergunta, sobre as razões que o faziam gostar tanto do Natal. Dela conservo até hoje, a mesma sineta que Papai Noel usou naquela noite, no cerimonial dos três toques, que culminou com um brinde com gengibirra - bebida fermentada sem álcool, à base de gengibre - que era servida no Natal e no Ano Novo pela família

 

 

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