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Memórias sensoriais de historiador cego viram livro e ajudam a desvendar passado

No livro Crônicas Escolhidas, José Chiachiri Filho, morto em 2015, teve relatos reunidos pela família

Folha de São Paulo
Ribeirão Preto (SP)
17/12/2016 às 16H32

MARCELO TOLEDO

RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Ele enxergou metade do tempo que viveu. A outra metade, apenas sentiu. Mas não ter visto não o impediu de relatar a cidade, cujo passado ajudou a desvendar, em seus textos. As memórias sensoriais do historiador francano José Chiachiri Filho (1945-2015), deficiente visual desde o início dos anos 80, foram transformadas em livro por sua família, intitulado “Crônicas Escolhidas. Nos textos, descrevia locais como se neles estivesse, em geral com o objetivo de fazer com que as raízes francanas não se perdessem.

Livro Crônicas Escolhidas conta com relatos sensoriais de Chiachiri - Rafael Mulinari/Comércio da Franca/Divulgação/ND
Livro conta com relatos sensoriais de Chiachiri - Rafael Mulinari/Comércio da Franca/Divulgação/ND


O historiador afirmava que uma pessoa sem memória “não consegue saber nem onde estᔠe que uma “cidade que não conhece seu passado não consegue se desenvolver”. Chiachiri sofreu descolamento de retina aos 35 anos, quando era vice-prefeito da cidade. A cegueira fez com que precisasse se adaptar, mas não perdeu o bom humor e fez aflorar ainda mais a sua memória. Tanto que era conhecido na cidade como uma espécie de “arquivo vivo”. Lia com a ajuda de softwares e sintetizadores de voz e produzia textos semanais para o jornal “Comércio da Franca”.

A ideia de publicar seus textos no livro “Crônicas Escolhidas” foi da professora de linguística Maria Angela de Freitas Chiachiri, viúva do historiador. Foram impressos mil exemplares, com 85 crônicas que tratam das memórias de amigos e família, na primeira parte, da identidade francana, na segunda, e da história da cidade, na última. “Ele fala sobre as figuras folclóricas da cidade e seus personagens, além de contar a história da cidade de um jeito leve”, disse o advogado José Chiachiri Neto, filho do escritor. Parte da renda será encaminhada à associação dos cegos da cidade.

Chiachiri é autor dos livros “Do Sertão do Rio Pardo à Vila Franca do Imperador” (1986) e “Entrantes no Sertão do Rio Pardo” (1991) e investigou documentos em centros de pesquisa em São Paulo e Minas Gerais para desvendar a história da cidade no início do século 19. Fundou o Arquivo Histórico de Franca, que dirigiu por oito anos, até a década passada. Morreu em 2015, aos 70 anos.

‘Visões do Invisível’ - trecho do livro

“A cegueira, prezado leitor, não é uma tragédia total. Como já disse em outras oportunidades, ela tem também as suas vantagens. Eu, por exemplo, construo o meu mundo e a minha cidade do jeito que quiser. Não perdi minhas referências. Os símbolos da minha terra permanecem vivos e intactos em minha memória. A fúria iconoclasta, a cobiça dos especuladores imobiliários, a insensibilidade daqueles que em nome do progresso e em defesa da mediocridade destroem os nossos monumentos artísticos e arquitetônicos para darem lugar a estacionamentos de automóveis ou templos consagrados ao dinheiro, não me afetam.” (extraída do livro)

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