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Sexta-Feira, 14 de Dezembro de 2018
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Grupo de teatro cria um jeito novo de ensinar literatura nas escolas de Joinville

Ator Norberto Xavier Deschamps, interpreta o poeta português na peça "Esse Tal de Camões"

Suelen Soares da Silva
Joinville

 O homem de 46 anos, olhos azuis e de sorriso fácil e conta­giante vibra ao falar dos caminhos e “mares” que percorreu, até che­gar ao seu personagem preferido, o emblemático Camões. Há qua­tro anos, o ator Norberto Xavier Deschamps encarna com pompa e humor o poeta português Luiz Vaz de Camões e, juntamente com o Grupo de Teatro Navegan­tes da Utopia, composto por ele e pelo ator Hélio Muniz, percor­re escolas e comunidades com o espetáculo “Esse Tal de Camões”, aproximando os estudantes de diferentes níveis da vida e obra do verdadeiro Camões.

 

Luciano Moraes/ND
Literatura. Norberto Deschamps se apresentou em nove escolas de Joinville

 

Deschamps começou a fazer teatro em 1993, quando entrou despretensiosamente em um cur­so na Casa da Cultura. Nesta mes­ma época, montou o Navegantes da Utopia e produziu várias peças até 1999, quando o grupo se dis­persou. 15 anos depois, o grupo ressurgiu com nova proposta: montar peças didáticas que reve­lassem histórias e aspectos dife­rentes dos já conhecidos pelo pú­blico da vida e da obra de grandes autores da literatura mundial.

Mas não pensem que esta esco­lha se deu por acaso. Deschamps, antes de ser abraçado pela car­reira de ator, era funcionário de uma indústria de usinagem, fa­zendo jus à primeira formação, em mecânica técnica. Mas o que realmente o influenciou nesta escolha pelo teatro didático, foi a sua segunda formação.

O ator é formado em letras pela Univille e esteve dentro de uma sala de aula por dois anos. Mesmo não querendo estar todos os dias entre os muros e paredes da escola, admite que a veia edu­cadora falou mais alto. “Eu não queria estar todos os dias lecio­nando, mas também não gostaria de me afastar totalmente. Acredi­to que achei meu caminho.”

Há quatro anos, vive exclusi­vamente da sua arte. Além de Ca­mões, o ator trabalhou em vários espetáculos de gêneros variados: da comédia à farsa, de infantis à didáticas, numa longa lista que inclui “O segredo bem guardado”; “Os comilões”; “A corda”; “A Flo­rista e o Visitante”; “Um Tributo a Karl Valentin”; “Canto do Povo de um Lugar”; “Mistério de Be­lém”; “Vida Longa”; “Meu Nome é Herbert”; “Seis personagens à procura de um autor”; “Uma car­ta para Neruda”; “A Beata Maria do Egito”; “Quem roubou minha infância que estava aqui?”; “Bicho Medo, Quem é essa tal Dengue?”.

Como professor de teatro, desde 2000 realiza oficinas de noções básicas de palco e inter­pretação em escolas e comunida­des. E dirigiu “Dança da Solidão” e “O Espetáculo Ué!”, dois espe­táculos frutos destas oficinas.

E esse tal de Camões?

De calças que lembram uma bombacha, camisa pomposa, espada e o livro “Os Lusíadas” nas mãos, Deschamps adota um sotaque português – de Portugal – e vai compondo seu personagem. A peça é um monólogo, com duração de 50 minutos. Ele calcula ter alcançado um público de 7.000 espectadores em 85 apresentações.

 

Luciano Moraes/ND
Personagem. Em plena praça da Bandeira o ator veste o figurino e se transforma no poeta português

 

Luiz Vaz de Camões nasceu no século 16, em Portugal, e é considerado o maior poeta da língua portuguesa. Além disso, é conhecido por suas aventuras amorosas e lendas, que interpretadas por Deschamps se tornam uma verdadeira aventura. Com recursos cenográficos simples, mas decisivos, ele vai seduzindo a plateia, como o próprio Camões.

A peça aborda conteúdos das disciplinas de literatura e história e que, mesmo 434 anos após a morte do poeta, ainda são atuais, pelo valor literário. “São recortes da vida dele. Viajamos para a África, para o Oriente. Ele vai para a guerra, se mete em brigas, e eu vou brincando com isso.”

Deschamps conta que quando começou a ler sobre a vida do escritor encontrou passagens interessantes, que não são ensinadas em aula. Ao escrever “Os Lusíadas”, poema épico que tem como assunto a viagem de Vasco da Gama às Índias, Camões se tornou mito. Mas Deschamps frisa que a peça foi pensada não para afirmá-lo com um deus. “Não é esta a intenção, mas sim torná-lo mais humano e aproximar sua história a todos aqueles que assistem a este monólogo.”

Um monólogo diferente

 Por ser um espetáculo dinâmico, “Esse Tal de Camões” permite improvisações e interações com a plateia. Deschamps explica que ele foi concebido para ser apresentado em lugares alternativos. Por isso, desde 2010, já foi apresentado em diversas associações de bairros, comunidades e Cras (Centro de Referência de Assistência Social).

Pelo Simdec (Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura), o ator está encerrando uma série de 15 apresentações, que percorreu nove escolas públicas de ensino regular de Joinville. O público-alvo foram os alunos do ensino médio.

Divulgação/ND
Divertido e ensinando. Deschamps como Camões , leva o público, a maioria estudantes de ensino médio, às gargalhadas

 

“Eu acredito no teatro como uma forma de envolver as pessoas. É um meio diferente de estimular os estudantes à leitura de obras clássicas, como as de Camões”, conta, entusiasmado.

Segundo ele, “Esse tal...” é uma peça que explora todos os gêneros da dramaturgia. “Ela é uma peça interativa, que começa engraçada e tem a parte triste no final, com alguns lamentos sobre a vida dele... o resto das histórias eu deixo para a imaginação criativa dos estudantes”, e termina citando Camões “(...) cantando espalharei por toda a parte, se a tanto me ajudar o engenho e a arte”.

“Esse Tal de Camões” é um projeto de circulação que tem o patrocínio do Simdec, por meio da Fundação Cultural de Joinville.

Workshop

Finalizando as obrigações de contrapartida do projeto, neste domingo (31), será realizado um workshop gratuito, com o professor de teatro da Casa da Cultura, Amarildo de Almeida, das 14 às 18h, na Casa Iririú. “Explorando o espaço não convencional na criação dramatúrgica e cênica” é uma pareceria entre o Grupo de Teatro Navegantes da Utopia, Casa Iririú e Grupo Canto do Povo.

Mas “Esse tal de Camões” ainda continuará em cartaz por mais algum tempo. Norberto Deschamps se prepara para uma série de apresentações em setembro, em escolas particulares, e também no galpão da Ajote.

 

 

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