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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Curador da exposição de Gaudí, Raimon Ramis, fala sobre a mostra que acontece em Florianópolis

“Gaudí, Barcelona 1900” chega no final de agosto com 71 obras do arquiteto catalão

Marciano Diogo
Florianópolis
Divulgação
Maquete das naves da Basílica da Sagrada Família, obra maior de Gaudí que impressiona


No fim de agosto Santa Catarina retorna à rota das grandes exposições internacionais com a mostra “Gaudí, Barcelona 1900”, que trará 71 obras do arquiteto catalão, entre maquetes, objetos e mobiliário, além de 42 trabalhos de artistas e artesãos contemporâneos a ele. As mais de 100 obras que serão expostas em Florianópolis virão do Museu Nacional da Arte da Catalunha, do Museu do Tempo Expiatório da Sagrada Família e da Fundação Catalunya-La Pedrera. O evento conta com patrocínio da Arteris, com apoio do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte (SOL) e da Fundação Catarinense de Cultura, e Instituto Tomie Otahke.

Na mostra, os curadores Raimon Ramis e Pepe Serra Villalba destacam os processos construtivos de Antoni Gaudí (1852-1926), além de seu processo criativo. Em entrevista ao Plural, o historiador em arte Raimon Ramis, 55, especialista em estudos sobre Gaudí, fala sobre a exposição que abre em 27 de agosto no Masc (Museu de Arte de Santa Catarina).

ND - Gaudí é reconhecido mundialmente pelo pioneirismo e ousadia na arquitetura e no design de móveis e objetos. Como funcionava sua produção no campo de projeção de mobiliário? Ele somente projetava os móveis ou auxiliava diretamente na produção com mão de obra também?

A tradição diz que quando um operador (trabalhador da obra) perguntou a Gaudí como teria que fazer os bancos para a Sagrada Família, e ele o fez pegar uma placa de madeira e cobri-la com gesso abundante, e antes de ela secar ele pediu para o trabalhador sentar no gesso. As nádegas do trabalhador ficaram marcadas no gesso e Gaudí disse: "É assim que tem que ser o banco." Gaudí funciona de forma muito empírica e pensa muito sobre o uso de espaços e objetos. Seus objetos são de uma ergonomia muito sensível, ele já usava princípios ergonômicos no mobiliário que realizava – algo que hoje é muito reivindicado. Ele desenhava os objetos e trabalhava no que chamamos de protótipos, e a partir de então ia os modificando. Um exemplo de sua forma de trabalhar e projetar está na Casa Mila (La Pedrera), em Barcelona. A fachada é totalmente escultórica, e para projetar o edifício Gaudí mandou fazer uma maquete e a partir dela ia trabalhou a forma da fachada do prédio, estudando os volumes e forma das janelas.

ND - Na arquitetura Gaudí trabalhou com o princípio racionalista. Que características de suas projeções arquitetônicas o tornam o artista único?

Gaudí estava se aproximando de um racionalismo, não negou a abstração racional de Corbusier, sua carreira estava encaminhando para este movimento, mas sua morte interrompeu este processo. Há vários aspectos, uma característica é a sua capacidade estrutural. As geometrias regradas eram reconhecidas, mas como dizia o próprio Gaudí, elas não eram valorizadas porque na arquitetura que tinha “prestígio”, a clássica, se usava modelos octógonos herdados da Grécia clássica ou do Renascimento, ou referências medievais, especialmente o gótico. Nestes estilos as superfícies ordenadas não tinham espaço. Na arquitetura popular, as cabanas de pastores usavam forças que se sustentavam, e, Gaudí percebendo isso, raciocina e desenvolve um sistema arquitetônico baseado em geometrias ordenadas. Um sistema que se sustenta por si só. Ao fazer isso, diz que as formas naturais são capazes de absorver todas as forças que suportam.  

Outra característica presente é que em seus edifícios os elementos não são apenas funcionais, Gaudí os enchia de simbologia, nada é gratuito, tudo tem uma função estrutural e simbólica, daí a contenção de seu trabalho: percebe-se que muito permanece ainda desconhecido. Seus edifícios têm uma impressionante força semiótica e são estruturalmente inovadores para época. Cada projeto é uma melhoria a partir do anterior, ou seja, Gaudí impõe uma perfeição constante que o obriga a superar construção após construção.

Divulgação
Maquete da sacristia de Gaudí


ND – A exposição Gaudí, Barcelona 1900 traz para Florianópolis 71 obras do artista catalão e mais 42 trabalhos de outros artistas contemporâneos a ele. Por que trazer obras de outros artistas para a mostra?

Como qualquer artista, Gaudí é o filho do seu tempo. Um artista não é um cogumelo que nasce espontaneamente, mas nasce porque há uma série de circunstâncias culturais, sociais, econômicas e até políticas que tornam essa formação possível. Há uma relação entre arte e sociedade muito mais estreita do que parece. No caso de Gaudí, ele se forma em uma época de grande esplendor artístico em Barcelona, ​​e este cenário permite que o arquiteto tenha espaço e possa experimentar e evoluir no seu trabalho. Há um diálogo implícito entre o que Gaudí faz e o que fazem os outros artistas contemporâneos a ele.

Gaudí é muito crítico de seus colegas de profissão e com os artistas em geral, e estes são com ele, com considerações particulares e debates. E, ao contrário de seus contemporâneos, suas obras resumem por completo a evolução da arte de seu tempo. Na sua arte há a luz dos impressionistas, há a referência à natureza, o simbolismo, o neohistoricismo, incluindo aspectos do barroco e até mesmo aspectos de projetos para novas formas que se aproximam do racionalismo.

Por outro lado Gaudí não trabalhava sozinho, se junta com colaboradores, especialmente no que diz respeito aos interiores dos espaços e aos elementos esculturais. Neste caso, a relação entre o arquiteto e artesão é diferente, é de enriquecimento mútuo. Era um artista de ideias “fixas”, teimoso, mas ainda assim se cercou de artesãos que interpretavam suas ideias e projetos. Por isso, é importante saber qual era o "clímax" cultural que tornou possível e em que se desenvolveu Gaudí, e também conhecer este diálogo entre gênio e artesãos.

De todos os artistas presentes na exposição, o que era mais próximo de Gaudí era Josep Maria Jujol i Gibert, arquiteto que mais teve influência de Gaudí na concepção de seu trabalho após a sua morte. 

ND – Quanto à montagem da exposição, terá obras de grande extensão. Como essas obras estarão dispostas no MASC (Museu de Arte de Santa Catarina)?

Serão trazidos modelos geométricos que Gaudí idealizou para Sagrada Família em escala real. Devemos pensar que a Sagrada Família tem altura máxima de 170 metros, o que nos dá a ideia da escala. A Sagrada Família sintetiza algo que Gaudí insistia constantemente em seus trabalhos, que é que as pessoas devem se sentir nos espaços como se sentem na natureza. A Sagrada Família é uma floresta de pedra. Sua altura obedece a intenção de Gaudí de conectar o homem com a divindade.

ND – Pessoalmente, quais obras de Gaudí presentes na exposição que você destaca pela potência artística, aquelas que o público não pode deixar de apreciar?

É difícil transpassar em uma exposição o que transmite realmente estar em um edifício, a escala, o espaço, a iluminação é diferente. Estamos focados principalmente em explicar a arquitetura de Gaudí em seu domínio geométrico, ou seja, o uso da geometria formal e elemento estrutural, decorativo e simbólico. A audácia de Gaudí é justamente essa, fazer que elementos geométricos da matemática se convertam em espaços que nos remetem a natureza e tragam uma carga grande de simbolismo. É isso que o faz universal e único. 

Quanto a seus prédios, pessoalmente o que mais me atrai são as pequenas escalas improvisadas para a Sagrada Família, em que há uma maquete na exposição. Um pequeno edifício feito com tijolos conóides e ladrilhos planos e finos, que é de uma simplicidade requintada extrema. Ainda mais estimulante, é um edifício – que a maquete também está presente na exposição – que foi feito em um momento em que começou uma revolução pedagógica na Catalunha; no prédio, em vez das crianças terem as aulas dentro de geografia dentro das salas, tinham as aulas em um pátio de areia localizado no centro da construção. Ali, os estudantes estudaram e “construíram” seus próprios mares e animais. Essa era o espírito da época, a criatividade estava em todas as partes.

ND – Como vai funcionar a monitoria de “Gaudí, Barcelona 1900”?

Haverá visitas guiadas e obviamente haverá treinamento dos arte-educadores, mas me agrada mais o conceito de mediadores. Há dois aspectos pertinentes e relevantes nessa mediação com o público, um é a informação descrita e contextual, que atualmente está acessível a partir de diversos canais, e o outro, o mais importante, é sugerir e estimular o espectador a pensar, a relacionar-se com os objetos expostos e a discutir. Não há nada mais estimulante que pessoas discutindo suas perspectivas sobre uma obra de arte. Esse é o papel do mediador: fazer o público pensar e moderar o diálogo entre ele.

É importante que o público venha nessa exposição com a mente aberta. Que não tenha medo de dizer e comentar o que achou da mostra, afinal, a arte em geral se dá a partir do diálogo entre o criador (artista e curador) e o público.  Eu sempre digo que uma exposição é como um filme, a diferença é que o que se move no primeiro é o espectador, enquanto o diretor é o artista.

É a sua cultura visual e seus conhecimentos que o farão ver as obras de uma maneira ou de outra. Obviamente, que quanto mais informações você tiver, mais vai aproveitar a visita. Mas o mais importante para mim é que o espectador saia da exposição com mais perguntas do que quando entrou. A exposição te dá respostas que devem abrir novas perguntas. Induz a questionar coisas antes tomadas como já concedido. E é a partir deste questionamento que geramos conhecimento e capacidade crítica.

A arte e a cultura são catalisadores de pensamento, nos fazem duvidar, pensar e raciocinar. Com ela, somos encorajados a sermos criativos e críticos em todos os campos. Faz-nos resilientes a nossas crises e as crises em nosso em torno. Eu sugiro que os visitantes da exposição visitem a mostra sem amarras, que se relacionem com o que vêem em seu entorno, com o tangível e o intangível. Certamente eles descobrirão muitas afinidades.

Serviço

O quê: Exposição Gaudí, Barcelona 1900
Quando:
De 27/8 a 30/10, de terça-feira a domingo, das 10h às 21h
Onde: Masc (Museu de Arte de Santa Catarina), Centro Integrado de Cultura, 5600, Agronômica, Florianópolis, tel. 48 36642630
Quanto:
De quarta-feira a domingo R$ 10, 5 (meia). Entrada gratuita às terças-feiras

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