Publicidade
Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 26º C
  • 18º C

Com 30 anos de carreira, ator Robson Benta faz um passeio pelo cenário teatral de Joinville

Ator, diretor e professor comemora sua contribuição ao teatro da cidade que adotou há 30 anos e cultiva sua arte, mas ainda quer conquistar muito mais

Suelen Soares da Silva
Joinville

Robson Benta tem 50 anos. E neste ano completa 30 anos de carreira como ator. Hoje, divide este ofício também com as funções de diretor e professor de teatro. Benta é um dos associados do Impar (Instituto de Pesquisa da Arte pelo Movimento) em Joinville. E se emociona quando fala da vasta experiência como ator. São cerca de 20 espetáculos teatrais e mais de dez produções cinematográficas.

 

Fabrício Porto/ND
"Eu só quero fazer arte", diz o ator que está completando neste mês 30 anos de carreira e 30 de Joinville

 

Nascido em Criciúma, no Sul catarinense, Benta foi ainda menino para Cachoeira do Sul (RS). E foi lá que sentiu despertar a sua “veia artística”, na 5ª série do ensino fundamental. A produção “Rapto das Cebolinhas”, de Maria Clara Machado, foi a sua peça de estreia. Ele deu vida ao personagem Camaleão Alface.

A partir dali, muito desinibido e com uma voz que chamava a atenção, era chamado na escola para todos os eventos que exigiam sua “dramaticidade”. “Fui mestre de cerimônia, fazia homenagens. Eu era sempre o primeiro a estar no palco”, relembra.

Às vésperas de completar 20 anos, Benta pegou a estrada. O destino inicial era Garopaba, cidade do Litoral Sul catarinense, mas por conta de contratempos ocorridos no caminho, acabou ficando em Criciúma, na casa da avó. Para o ator, Cachoeira do Sul, além de ser uma cidade de interior, há três décadas era também carregada de preconceitos. “O racismo da cidade começou a me aborrecer e como eu era maior de idade, resolvi ir embora”, explica, ao se referir ao município de forte colonização alemã e italiana.

Mas o destino e a vontade de fazer arte acabaram trazendo Robson Benta para Joinville – outra cidade também com colonização fortemente alemã e italiana. E em julho de 1984, já consciente de que sua felicidade estava diretamente relacionada ao fazer teatro, veio morar com o irmão. Nessa época, a Casa da Cultura e o Sesi, que eram as entidades ligadas ao teatro, estavam em férias. “Hoje, pensando, com 50 anos, olho pra trás e penso que eu já sabia que queria ser feliz”, afirma, lembrando que em Joinville o preconceito foi maior por ser ator do que por ser negro.

Mas no dia 17 de julho, foi avisado que o grupo de teatro da Casa da Cultura retornava de férias naquele dia. Então, sentou no corredor e ficou à espera do então diretor da escola, o professor e também ator Borges de Garuva. “Quando Borges me aceitou no grupo, eu pensava: cheguei, cheguei onde eu queria”, recorda.

 

Divulgação/ND
Elenco de Norigama em 1985, que fez história no teatro de Joinville e em SC

 

Por três anos, Benta ficou na Casa da Cultura, encenando peças sob a direção de Borges com a companhia de teatro “Não amasse esse pão - de – ló”. A cia interpretou sucessos como “Norigama”, em 85. Uma pantomima - peça onde os atores encenam somente através de gestos. Para ele, esta peça marcou a história do teatro na cidade, pois os atores, além da encenação gestual, contracenavam nus.

Mas as coisas não foram fáceis como parece. Benta passou por muitas dificuldades, que fortaleceram ainda mais a vontade de seguir. “Não tinha apoio na cidade. Nós éramos rejeitados, não tinha dinheiro pra nada. Mas ao mesmo tempo, era tranquilo, porque eu fazia teatro todos os dias”, conta, emocionado.

 

A descoberta como professor

O jovem de criatividade inquietante descobriu-se professor. O diretor Borges de Garuva, com o tempo, já confiava as turmas de teatro ao ator, que se sentia a vontade para passar aquilo que havia aprimorado.

Em 1986, Benta prestou concurso para a Prefeitura de Joinville e começou a dar aulas de teatro para jovens e educadores. Em um acerto com o setor pedagógico do Colégio Bom Jesus, em 1989 também começou a lecionar lá, onde ficou por dez anos. Como professor, acredita ter contribuído para a formação de grupos de teatro na cidade.

Anos depois, ele passou em outro concurso, diretamente ligado à Casa da Cultura, onde passou oficialmente a dar aulas de teatro. “Hoje, eu sou mais professor do que ator e diretor. Acredito que seja por que tive excelentes professores. Por isso, trato com muito carinho a formação”, destaca.

 

O cinema, uma consequência

O cinema foi uma consequência na trajetória do ator, que em 1994 rendeu-se à sétima arte. A convite da cineasta catarinense Marília Emília Azevedo foi o protagonista do filme “Alva paixão”, interpretando o poeta catarinense Cruz e Sousa. E dividiu o set de gravações com a atriz reconhecida nacionalmente, Zezé Motta. Além da Zezé, também contracenou com os atores Maria Ceiça e Breno Melo, o “orfeu negro”, morto em 2008.

 

Luiz Hille/Divulgação/ND
No monólogo "Emparedado", de Luiz Hille, que traz à tona as agruras vividas e sentidas pelo poeta Cruz e Sousa

 

Fazer cinema virou a preferência do artista. Ele diz que a estrutura é mais organizada e as equipes sempre bem resolvidas. “Eu faria só cinema. Eu adoro!”, confessa. Recentemente, o ator atuou nas produções joinvilenses “A noiva de Tarantino”m de Ebner Gonçalves, e “Infância de Monique”, de Fabio Porto. E já se prepara para filmar um longa de Alceu Bett. “Mas este é segredo, ainda não posso contar”, brinca.

 

Longa espera por mudança

Embora na vida pessoal de Robson Benta tudo vá muito bem. Há nove anos ele tem um relacionamento com a jornalista Iraci Seefeldt, que resultou em um casamento e no filho Pedro, de três anos, admite que carrega consigo algumas desilusões. Lamenta que a cidade ainda não tenha um teatro e acha que a cultura continua no mesmo grau há 30 anos. ”Eu tenho esse grande lamento. Apesar da tentativa de fazer de Joinville um polo de cultura, as coisas não mudaram.”

Relembra que durante um tempo levou os alunos de teatro para visitar as obras do que seria o teatro municipal de Joinville. “O aterro estava pronto, as colunas. Mas deu uma confusão e o teatro nunca foi erguido.” Agora, pretende desencadear um movimento de questionamento dos problemas, pois acredita que a sociedade está muito passiva, esperando que algo aconteça.

E como funcionário público, sabe como as estruturas funcionam. “Eu sou um artista antes de ser funcionário público, não tenho problema nenhum em provocar esta discussão no meu trabalho”, enfatiza. De acordo com o ator, essa discussão deve ser feita já, para que a cultura tenha o espaço que merece.

 

A arte e o se manter por ela

O reconhecimento da cultura como uma necessidade da população é o que move este apaixonado. “A gente faz arte e, ao mesmo tempo, tem que fazer algo para se manter, como se não fosse legítimo viver de arte.” E acrescenta: “eu não tenho culpa se meu trabalho me faz feliz, se eu não me incomodo de trabalhar no fim de semana, de virar a noite. Eu faço isso sorrindo”.

Robson Benta faz parte de um empreendimento pela arte. No Impar (Instituto de Pesquisa de Arte pelo Movimento), ela, a mulher, Iraci, e os parceiros Maria Fortuna, Amarildo Cassiano e Claudia Maiole desenvolvem pesquisas e atividades que fomentem a cultura e arte, através do teatro e da dança.

A Cia. Joinvilense de Teatro faz parte do Impar e tem direção geral e artística do ator. Ele desenvolve o projeto “Arte Para Todos”, em que há dois anos trabalha a arte como uma maneira de incluir pessoas com síndrome de Down e com deficiências físicas e intelectuais frequentadoras do Naipe (Núcleo de Assistência Integral ao Paciente Especial). “Para mim, esse trabalho é um amadurecimento. Uma prova de que todas as pessoas são capazes”, conclui.

 

 

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade