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Ceramista de Florianópolis leva sua arte para três eventos no Leste Europeu

Rosana Bortolin já se prepara para novas incursões na Europa para o segundo semestre

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
16/06/2017 às 16H18

A cerâmica é uma atividade quase tão antiga quanto a humanidade, e talvez por isso seja tão diversificada, plural, rica em formas, temas e materiais. E também pode ser que esteja aí a explicação para os diferentes tratamentos que os povos e nações dêem a ela, em cada canto do mundo. Quando se inscreveu para participar de eventos sobre cerâmica no leste europeu, Rosana Bortolin não imaginava que por lá essa arte milenar, que também pode ter seu lado utilitário no uso cotidiano, era tão cultuada. Neste momento, a artista está na cidade ucraniana de Opishne, onde acontece um grande simpósio de arte cerâmica, dentro de um evento maior, a 9ª Semana Nacional de Cerâmica Rally-2017. E novas incursões vêm aí, no segundo semestre do ano, na mesma região da Europa.

Em Opishne a ceramista vai construir um casulo gigante - Flávio Tin/ND
Em Opishne a ceramista vai construir um casulo gigante - Flávio Tin/ND



Em Opishne, durante um mês, a ceramista vai construir um casulo gigante, em escala humana, fiel à temática dos ninhos que acompanha seu trabalho artístico. “A proposta dos organizadores era promover ruma reflexão sobre a filosofia de vida a partir da poética individual dos artistas”, ela explica. E sua poética é a dos ninhos, dos receptáculos onde a vida se desenvolve com conforto e aconchego. Tanto que a casa onde mora, no bairro de Cacupé, é uma profusão de ninhos e casulos de argila, assim como é pródiga em pássaros, cães, pequenos animais e insetos que a inspiram a criar sempre mais com base em ambientes de acolhimento. Na Ucrânia, no entanto, ela vai usar 600 quilos de barro para legar um grande abrigo de dois metros por um metro e meio.

Independente do tamanho de cada obra – que, no seu caso, podem ir de peças minúsculas a estruturas de centenas de quilos –, os ninhos e tocas são vistos como lugares análogos ao espaço domiciliar. Isso também tem a ver com a questão da maternidade, do corpo feminino, da presença da mulher na sociedade. “É dentro de casa que tudo acontece”, justifica Rosana, dizendo que a segurança, o conforto físico e do espírito, a intimidade, tudo se dá em casulos, metaforicamente, qualquer que seja a sua forma e proporção.

No caso da Opishne, que é a capital da cerâmica no país, há um diferencial importante: dos 12 selecionados, ela é a única representante da América Latina. Na Ucrânia, Rosana também vai criar um mural dentro da mesma poética e participar de debates, aulas magnas, feiras e seminários científicos sobre cerâmica, em subtemas como body art, uso de novos materiais e esculturas vivas.

A semente e a chance da troca

Professora da graduação e chefe do Departamento de Artes Visuais da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), Rosana Bortolin se inscreve em todos os salões, concursos e seminários de cerâmica que encontra na internet. É por isso que suas obras já estão em Portugal, na Espanha, em Cuba, na Colômbia, na Letônia, na Croácia, na Eslovênia, na Turquia e na França. Assim, ela espalha sementes em distintos locais, deixando sua marca – como nos demais casos, também em Opishne as obras que fará ficarão expostas, para deleite do público, a partir da conclusão dos trabalhos.

“Adoro viajar, por isso uno o útil ao agradável”, afirma ela ao explicar porque não perde a oportunidade de levar suas ferramentas e a sua criatividade ao exterior. Nos eventos, tão relevante quanto criar uma ou mais peças é trocar experiências, participar de um caldo cultural único e mostrar as peculiaridades da cerâmica brasileira. “Na comunidade de ceramistas, muitos se conhecem, por isso há tantos eventos e esse intercâmbio, essa interdependência, essa facilidade de comunicação”, ressalta. “Me fascina o diferente, conhecer lugares, contatar mais pessoas da área, ampliar conhecimentos e trazer isso para os alunos da Udesc”.

Na Ucrânia, o State National Museum of Pottery (Museu Nacional de Cerâmica), em Opishne, na região de Poltava, é uma espécie de parque escultórico com caminhos e trilhas onde as pessoas conhecem a cerâmica local, originária e tradicional, ao lado de peças de artistas de fora que, como Rosana, fazem parte de eventos anuais. Concursos de fotografias e uma bienal de cerâmica também estão incluídos na programação do simpósio. A obra em alta escala que ela vai deixar no país é um trabalho cilíndrico feito em partes e montado no final. Antes de viajar, Rosana se disse pronta para o desafio, embora temesse pelo enorme esforço físico a que será submetida, dado o tamanho e o peso das peças.

Analogia com o corpo e a natureza

A Ucrânia tem muita tradição na cerâmica, com mais força do que em outras partes da Europa, mas não é o único destino de Rosana Bortolin neste ano de viagens e realizações. Em agosto, ela levará seu arsenal criativo para a Letônia, desta vez em parceria com a professora Viviane Diehl, do Instituto Federal de Feliz, no Rio Grande do Sul. Será a vez dos ninhos em forma de concha usando o processo de queima cerâmica dos índios guarani, produzidos a partir de um projeto de extensão da Udesc que envolveu a instituição onde Viviane trabalha. A técnica da escultura de fogo é ancestral e a queima era parte essencial do processo. “Também ali haverá ninhos e sua intimidade”, adianta a artista. Por fim, entre agosto e setembro, ela estará na Rússia, com um trabalho individual outra vez inspirado na temática dos ninhos.

Nascida em Passo Fundo (RS), Rosana é de uma família ligada à terra, à agricultura, mas no começo tinha dificuldades para trabalhar com o barro. “Foi uma professora da primeira infância, na escolinha de artes, que me abriu a cabeça para esse mundo”, conta. Aos 18 anos, quando se voltou para o estudo da arte, a faculdade era dirigida pela mesma professora. Aí, a partir da esmaltação e de suas químicas, ela começou a pegar gosto pela técnica e não parou mais. “Percebi a analogia da cerâmica com o corpo e a natureza, a cerâmica como coisa viva”.

Na sua formação houve a influência e o aprendizado com artistas, professores ou orientadores do porte de Francisco Brennand, Celeida Tostes, Katsuko Nakano, da cubana Ana Mendieta e do espanhol Ángel Garraza.

Hoje, a cerâmica agrega novas tecnologias, materiais mais resistentes, equipamentos de corte diferentes, tesouras e facas que ao perdem o ponto. No entanto, continuam sendo mais importantes o talento e a sensibilidade. “Desenvolvi meus ninhos a partir da observação das vespas ao redor de casa”, ressalta Rosana. “É uma técnica muito peculiar, fora da tradição do estudo da cerâmica”.

 

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