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Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
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Arte difundida em Joinville, pintura em porcelana é a delicadeza na ponta dos pincéis

A partir dos anos 70, técnica foi introduzida por professoras/artistas na Casa da Cultura e teve seu apogeu até os anos 90

Maria Cristina Dias
Joinville

Um desenho de base, dezenas de pigmentos coloridos, um olhar apurado, mãos firmes e muita sensibilidade são os ingredientes usados há décadas em Joinville para transformar louça branca em peças únicas. Desenvolvida há séculos, a pintura em porcelana foi difundida em Joinville a partir dos anos 70 com as aulas na Casa da Cultura e caiu no gosto das senhoras da cidade, que apuraram o traço, buscaram novas técnicas e se destacaram na criação destas delicadas obras de arte.

 

Carlos Junior/ND
Um mundo muito particular: Rita Käsemodel com as peças em azuis de seu acervo, usando técnica conhecida como delft holandês, muito difundida

 

Quando começou exatamente é difícil precisar. Mas foi a partir das aulas de duas mestres, Edith Wetzel e Nany Keller, na recém-criada Casa da Cultura, no início dos 70, que o gosto por essa arte foi se disseminando e ganhando novas adeptas. Antes disso, porém, as louças pintadas já eram apreciadas. A professora de pintura Rita Käsemodel foi aluna da artista plástica Edith Wetzel e durante 26 anos lecionou na Casa da Cultura – grande parte deles ao lado da antiga mestre, hoje já falecida. Nas muitas conversas com a professora, ela aos poucos foi conhecendo um pouco de suas histórias, que se confundem com a história da pintura em porcelana em Joinville.

Edith Wetzel era escultora e havia sido aluna de Fritz Alt. Também era enfermeira e durante anos morou e trabalhou em São Paulo, onde provavelmente já desenvolvia a pintura. Ao voltar para Joinville, costumava participar da Exposição de Flores e Artes, a EFA, a origem da Festa das Flores, com seus trabalhos de pintura em porcelana. No final dos anos 60, ela e Nany Keller foram convidadas a dar aulas na Casa da Cultura e rumaram para São Paulo, para se aprimorar. Na volta, começaram a lecionar. O início, porém, foi difícil, pois embora as duas dominassem o conteúdo e as técnicas, não tinham experiência em dar aquele tipo de aulas. “Começaram a dar aulas juntas, na mesma sala, com uma turma de 12 a 15 pessoas. Depois, dividiram os grupos com cinco, no máximo sete alunas”, explica Rita.

Na época, a Casa da Cultura funcionava junto à sede Prefeitura, em um casarão antigo que hoje já não existe, no local por onde passa a avenida Juscelino Kubitscheck. No início dos anos 70, Rita era adolescente e estudava no Colégio dos Santos Anjos, ali, bem perto. No caminho da escola, parava no antigo galpão e se encantava com os grupos de senhoras que transformavam louça branca em obras de arte. “Como eu era aluna dos Santos Anjos, eu espiava – e me encantava”, recorda. Não demorou para que ingressasse nas aulas. Era 1972 e ela tinha 17 anos.

Ela conta que a maior parte de suas colegas eram senhoras, donas de casa, que aprendiam a pintura por hobby. A antiga tradição dos lanches das senhoras era muito presente naqueles tempos, e as alunas faziam das aulas um outro momento de reunião com as amigas. “Iam para as aulas, encontravam as colegas e a cada dia uma levava um doce. Paravam para fazer o lanche, como uma atividade social”, explica Rita Käsemodel.

A pintura era um hobby – e caro. Embora a Casa da Cultura oferecesse bolsas de estudo, a mensalidade era o que menos pesava no orçamento. Os pigmentos eram importados, assim como os melhores pincéis. E era comum usar ouro para fazer os dourados das peças. “O que menos contava era a mensalidade”, explica Rita, destacando que a maior parte das alunas não vendia as peças. “Elas queriam fazer para presentear. Quando chegava perto do Natal, faziam com motivos natalinos. Faziam por prazer, muitas vezes para sair de casa, ter um grupo”.

Em 1977, a então diretora da Casa da Cultura, Albertina Tuma, convidou Rita para lecionar pintura em porcelana no local ao lado da mestre Edith Wetzel e de artistas como Margot Pahl, e mais tarde, dona Florzinha, Cristina Gutmann, Raquel Stock, entre outras. A atividade expandiu e teve seu apogeu a partir da segunda metade dos anos 70 e nos anos 80. Em 1980, foi realizado o 1º Salão de Arte em Porcelana, em Joinville. A cidade se destacou no Estado e foi sede da Associação Catarinense de Arte em Porcelana, que realizou exposições e reuniu as artistas durante mais de 20 anos na região. “A sede era em Joinville e a diretoria era toda daqui. Hoje, não existe mais”, explica Rita, que lecionou na escola por 26 anos e, depois de se aposentar continuou a dar aulas no Atelier Ester Batista, também profissional de renome na pintura em porcelana.

 

Alunos se formam professores e multiplicam o conhecimento

A professora de pintura em porcelana Jurema Reis conta que teve contato com a técnica pela primeira vez no início dos anos 70. Na época, ela tinha uma bomboniére na rua do Príncipe, em frente à rua das Palmeiras, e a proprietária do prédio a convidou para tomar um café e mostrou as peças que estava produzindo na Casa da Cultura. Em pouco tempo, ela também estava tendo aulas do local que, mais que uma escola, se tornou nos anos 70 e 80 um polo disseminador dessa arte em Joinville, formando professores que multiplicaram o conhecimento ao longo das décadas seguintes.

Jurema estudou por quatro ou cinco anos na Casa da Cultura, aprendendo as técnicas da pintura em porcelana. Depois prosseguiu por mais 15 anos com outras mestres da pintura, como Norma Schutzler e Lourdes Hardt. Por volta de 1975, ela foi trabalhar no Centro 15, no bairro Glória, dando aulas variadas. Atuava no clube de mães ensinando técnicas de artesanato e até recreação infantil. Não demorou para que levasse a arte da pintura em porcelana para o bairro, em aulas no Centro 15. A repercussão foi positiva, a pintura estava em seu apogeu na cidade e no final dos anos 70 mais de cem senhoras se dedicavam a aprender a arte no bairro Glória.

 

Fabrício Porto/ND
Melhor aluna virou professora: Noêmia Ganzenmüller mostra a lâmina na qual são preparadas e separadas as diferentes tonalidades de tintas

 

De suas salas de aula, saíram outras artistas e professoras, como Noêmia Dressel Ganzenmüller, que começou com Jurema Reis no Centro 15 e depois alçou seus próprios voos, lecionando e fazendo suas próprias criações. Em 1981, ela criou o seu atelier, onde chegou a ter 113 alunas – e levou a professora e amiga para lecionar junto. “A Noêmia foi minha melhor aluna”, fala Jurema, enquanto Noêmia destaca a importância de Joinville no cenário estadual e brasileiro da pintura em porcelana. “Joinville era uma referência, nunca se pintou em porcelana como aqui”, ressalta.

 

Técnicas variadas e exercício de paciência

Nos primeiros tempos, a principal técnica de pintura em porcelana utilizada em Joinville era a “pintura de óleo mole”. O nome vem do fato de que a tinta não seca sem ir ao forno, para a queima. Embora a professora Rita Käsemodel lembre que no início era utilizado óleo de Copaíba para dissolver os pigmentos – e este óleo, na prática, secava, sim.

Depois vieram outras, como o “lustre-metálico” e o fusing, destacados por Noêmia Ganzenmüller e Jurema Reis, e o delft holandês (os azuis, muito difundidos) ou a faiança, conforme lembra Rita Käsemodel.

Noêmia e Jurema explicam que o trabalho é minucioso, já que as tintas não se misturam na peça – ao contrário, são colocadas uma a uma sobre o desenho riscado. Depois de pintadas as peças vão para um forno especial, para secar a tinta a pelo menos 750ºC. A relação das artistas com o forno é especial, pois ele é fundamental para a que a obra saia perfeita. “Você não tem ideia do namoro que a gente tem com o forno. Não somos nada sem ele”, brinca Noêmia, lembrando que nos primeiros tempos o Centro 15 não tinha um forno próprio, então as peças as alunas eram colocadas em uma Kombi e levadas ao final da rua Dr. João Colin, ao sr. Falk, que tinha um forno e fazia o serviço. “Depois a Jurema comprou um forno grande, que dava para mais de cem peças”, recorda Noêmia, que tempos depois adquiriu o forno da professora para o seu próprio atelier. “Foi usado um guindaste para trazê-lo. Depois fizemos a construção em volta dele, com tijolos deitados”, explica.

O período de grande atividade da pintura em porcelana em Joinville foram as décadas de 70, 80 e até 90. Mas ainda hoje a arte continua atraindo alunas para os ateliers da cidade, embora em menor quantidade. “Hoje tem exposições, mas é diferente. São menores e mais reduzidas”

A paixão das professora/artistas, porém, permanece a mesma. “A minha vontade é ficar sentada e só pintar”, afirma Jurema Reis, enquanto Rita Käsemodel revela que é capaz de se desligar do mundo com os seus pincéis. “Quando se está trabalhando, se desliga do restante. Não se pensa em nada, só no trabalho”.

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