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Um anos depois, moradores relembram o incêndio químico que marcou São Francisco do Sul

Em setembro de 2013, a cidade foi evacuada devido à fumaça que saía do galpão de fertilizantes da empresa Global Logística

João Batista (JB)
Joinville
Fotos: Rogério Souza Junior/Arquivo/ND e Luciano Moraes/ND
Um ano depois, José do Nascimento, morador de Paulas, relembra o susto com a fumaça e reflete sobre a atitude de não ter deixado de imediato



Foram 56 horas de susto, desespero e apreensão. Entre a noite do dia 24 e a manhã do dia 27 de  setembro de 2013, São Francisco do Sul viveu um episódio que será difícil se dissipar na sua história. O  incêndio químico ocorrido há um ano no depósito de fertilizantes da empresa Global Logística afetou  diretamente cerca de 10 mil pessoas em sete bairros mais atingidos pela fumaça. Embora não tenha sido marcada como uma tragédia, a ocorrência é lembrada pela grande repercussão, por ter sido um fato inédito no país e por ter mobilizado órgãos municipais, estaduais e federais de segurança e emergência.

Os moradores no entorno do armazém, no bairro Paulas, recordam-se bem dos momentos  de pânico que  passaram logo ao perceber a fumaça densa cobrindo as casas da região depois  que a reação química     começou, por volta das 22h daquela terça. As primeiras famílias abandonaram as residências no início da  madrugada de quarta, ainda sem saber exatamente o que estava acontecendo. Ao amanhecer, com a área evacuada, as dimensões do desastre puderam ser percebidas de longe. Uma alta e longa nuvem de medo pairava sobre a histórica São Chico.

:: Veja galeria de fotos, feitas na época do incêndio

Evacuação, aulas suspensas, rotina de trabalho interrompida, a espera pelo fim da reação química, do  bloqueio das ruas e da liberação das casas. Passados aqueles dias de tensão, durante os quais 269  pessoas tiveram que ser hospitalizadas, hoje os moradores lembram com tranquilidade da ocorrência,  embora ainda persista uma discreta preocupação de que o fato possa se repetir, seja no mesmo local ou m outro armazém no município.

No galpão afetado pelo incêndio químico, onde parte das 10 mil  toneladas de fertilizantes à base de nitrato de amônio sofreu reação, apenas as paredes continuam de pé, exibindo traços e marcas  o acidente. No entorno, há moradores ainda apreensivos e aqueles que seguem a vida no ritmo normal,  referindo nem recordar  das lembranças ruins. Os diferentes relatos e os desdobramentos atuais sobre o  episódio serão destacados a partir deste fim de semana no ND, numa série de três reportagens.


Morador que não deixou casa reflete sobre o ato

Na tarde do dia 25, as ruas de acesso ao depósito estavam bloqueadas pelas equipes de segurança. A  maior parte das famílias dos bairros Paulas e Rocio Pequeno já havia deixado o local. Moradores como o  aposentado José Manoel do Nascimento, 89 anos, no entanto, resistiram a deixar suas casas no primeiro  dia. Para o ex-maquinista a ALL (América Latina Logística),  que só acompanhava a movimentação da fumaça da rua atrás do galpão, a avaliação era de que não havia razão para tanto pânico. A reportagem  voltou a falar com o morador, hoje mais ciente dos riscos que todos ficaram expostos no ano passado.

“A  gente fica preocupado. Tomara que isso não venha a acontecer nunca mais”, ponderou. Devido ao fim  do contrato de aluguel, Nascimento e a família estão se mudando de endereço, mas vão continuar morando na mesma região. Paulo Ferreira da Luz, 46, sogro de Nascimento, trabalha na Fecoagro  Fertilizantes e não vê razões para ter medo. “Se a casa fosse minha, não ia sair daqui. É preciso  entender que não foi ‘aquela’ tragédia. Ficou um cheiro forte na casa, mas nada estragou. Depois, deu  até limão num pé que não dava nada”, brincou. 

O acidente sob uma perspectiva positiva

A aposentada Augusta Maria de Amorim, 81 anos, moradora do bairro Paulas, o primeiro a ser evacuado,  prefere relembrar a situação de uma perspectiva positiva. Ela conta que não teve prejuízos com móveis  ou eletrodomésticos e, apesar do transtorno em ter que sair de casa para fugir da fumaça, resolveu não processar a empresa judicialmente.

Luciano Moraes/ND
Augusta Maria de Amorim, moradora do bairro Paulas, hoje observar até reflexos positivos do episódio



“Na época, falaram muito mais do que era realmente”, avaliou. Augusta disse que o único dano a lamentar foi pela plantas e flores do jardim, que sofreram os efeitos  a  fumaça tóxica. Os  gatos de estimação dela saíram ilesos. “Fiquei mais triste por minhas arvorezinhas,  mas depois que (a fumaça) queimou, ficou melhor do que era. As flores caíram, mas começaram a brotar mais fortes ainda logo depois”, revelou.

Sem qualquer pretensão de deixar o bairro devido ao acidente, Augusta procurar não alimentar muitos  pensamentos sobre a ocorrência. “Eu não tenho preocupação de nada. Quero apenas dormir tranquila,  orque se a gente começa a colocar coisas na cabeça, a  gente acaba ficando doente”, refletiu.

Surpresa no retorno para casa


Os moradores da comunidade do Portinho, no bairro Paulas, foram os primeiros a abandonar suas  residências, instaladas em frente  ao depósito da empresa, no  outro lado da BR-280. Pescador   aposentado, Vinicius Pinheiro, 67 anos, foi avisado do problema  no início da madrugada. A  casa estava fechada e ele não havia percebido nada até ser alertado. “Eu coloquei o braço para fora e sapecou tudo”, detalhou. Pinheiro e a esposa tiveram que buscar abrigo na casa da filha, em Araquari, e depois ainda  seguiram para Navegantes. Após seis dias fora, eles voltaram para casa.

Luciano Moraes/ND
Vinicius Pinheiro, morador da comunidade do Portinho, espera que algo assim nunca se repita



No retorno, o que ele recorda  bem é do cheiro forte que ficou impregnado na casa e das ferramentas da oficina de marcenaria que  ficaram enferrujadas. “Foi algo inesperado. Até uma colher na gaveta enferrujou. Se fosse um gás que  matasse, estaríamos todos mortos”, considerou. Ainda hoje Vinicius precisa limpar constantemente as  ferramentas, que voltam a mostrar a estranha ferrugem.

Apesar do  impacto inicial, o morador atesta que o medo ficou para trás. “Pode acontecer de novo, mas a gente não está com medo. O principal prejuízo foi os dias sem poder trabalhar”, destacou.


Sem mudança na rotina da região

Ex-funcionário do porto, Felipe Sérgio Reis, 63, resolveu, logo após se aposentar, morar na rua Carijós,  via paralela ao galpão afetado pela reação química, exatamente pela tranquilidade da região. Conforme  relata, desde que a empresa se instalou no local, o sossego foi embora.

Luciano Moraes/ND
Felipe Sério dos Reins, morador de rua paralela ao galpão, conta que a fumaça "matou" o pé de jabuticaba, que não deu mais frutos



Ele esperava que o acidente de 2013 resultasse em alguma mudança para os moradores, mas o barulho  pela movimentação de contêineres, inclusive à noite, continua sendo incômodo.

“Não dá para descansar.  Aqui ninguém dorme à noite. Fizemos até abaixo-assinado, mas não resolveu nada.” A indignação do morador aumentou ainda mais após o incêndio químico. Ele alega que o trânsito com máquinas pesadas pela rua provocou rachaduras na casa. O maior lamento, no entanto, é outro: “A fumaça matou meu pé  de jabuticaba”, comentou, fazendo questão de mostrar a árvore seca “que não deu mais nada desde o  no passado”.

Para Reis, o acidente desvalorizou os imóveis da região. Ele ainda teme que outras  ocorrências desastrosas possam acontecer. Segundo adverte, um vento forte teria capacidade para derrubar os contêineres que ficam empilhados no pátio da empresa. As casas vizinhas, no outro lado da  rua, poderiam ser atingidas. “Hoje eu não sei o que é deitar a cabeça no travesseiro e dormir uma noite  descansado”, frisou. 

Confira as próximas reportagens da série sobre o incêndio químico a partir de segunda no Notícias do Dia:

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