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Texto inspirado em música rende visita do rapper Gabriel O Pensador a escola em Joinville

Professora Marlete Teresa Rodrigues Cardoso ganhou prêmio nacional em concurso cultural

Adrieli Evarini
Joinville
26/10/2016 às 19H33

A inspiração saiu de “Linhas Tortas” do músico Gabriel, O Pensador e se transformou em linhas e mais linhas escritas pela professora joinvilense Marlete Teresa Rodrigues Cardoso. Na composição do famoso rapper, a palavra é exaltada. “Alguns às vezes me tiram o sono, mas não me tiram o sonho. Por isso eu amo e declamo, por isso eu canto e componho”. Esses são os versos que inspiraram o texto vencedor do concurso cultural “Todos juntos transformando a educação”, promovido pela Edições SM.

Inspiração para o texto da professora Marlete Teresa Rodrigues Cardoso saiu da composiçao “Linhas Tortas” do músico Gabriel O Pensador - Carlos Junior/ND
Inspiração para o texto da professora Marlete Teresa Rodrigues Cardoso saiu da composição “Linhas Tortas” do músico Gabriel O Pensador - Carlos Junior/ND


“O sonho que não me tiram é o de que toda criança tenha acesso à palavra escrita, tenha mais do que direito a montanhas de livros, tenha gosto pela leitura e pelo mundo fascinante que ela representa. O sonho que tenho acordada e dormindo é o de que a educação exista para fazer crianças felizes, adultos íntegros, idosos realizados”, escreveu a professora da Escola Municipal João Costa.

Já admiradora do trabalho do rapper, a professora e escritora – ela tem duas publicações, o Coração Guarani e o Elas Contam, em parceria com outras quatro mulheres – Marlete se diz ansiosa pelo momento em que Gabriel irá passar pelo portão da escola municipal de Joinville. Vencedora do concurso nacional, além de um notebook e livros que ela recebeu, a escola também foi contemplada. Exemplares da editora e uma palestra do músico foram os prêmios recebidos pela unidade escolar e, em menos de um mês, o rapper famoso por suas críticas sociais pesadas em forma de canção deve estar diante dos cerca de 800 alunos.

“Estou muito ansiosa porque é uma coisa que vai mexer muito com a escola, aliás, já está mexendo com a escola toda, é uma recompensa. É uma forma de eu deixar uma coisa boa para a escola”, destaca a professora que se aposenta em 2017.

Com 54 anos, Marlete já está há 23 anos atuando diretamente com alunos. Hoje como orientadora, o papel que ela desenvolve, segundo conta, é de o de uma mentora de leitura. “Eu quero ensinar a gostar de ler”, conta. Mas antes dessas duas décadas de história, ela teve que superar alguns obstáculos para finalmente realizar o sonho de ensinar a leitura. A professora explica que parou de estudar na quarta série e só retornou aos 18 anos, depois de muita insistência. “Meu pai era daquela época em que só os filhos homens estudavam, então, parei na quarta série”, diz. A negociação para voltar aos bancos escolares foi inusitada e, o pai de Marlete saiu perdendo. “Eu arrumei um namorado e ele não gostou nada dele, então negociamos: eu deixava o namoro para trás, mas voltava a estudar. Voltei, fiz supletivo e depois, ainda me casei com o rapaz”, brinca.

Para ela, o papel de mediador de leitura é fundamental na educação das crianças e adolescentes. “Quando não se lê muito, se tem pouco repertório de escrita e essa orientação é fundamental para saber o que e como ler”, ressalta.

 Tirando os alunos da zona de conforto

O papel de crítico social e político de Gabriel, O Pensador é, para a professora, fundamental para incentivar os alunos a “pensar fora da caixa”. Se preparando para receber o rapper no próximo dia 9 de novembro, a escola está trabalhando as letras das músicas com os alunos e, segundo Marlete, fazendo com que os alunos conheçam o músico. “Ele é de outra geração e muitos alunos não conhecem ele. A gente está levando o trabalho dele, dizendo e mostrando que ele continua atual, que ele é um artista preocupado socialmente”, enfatiza. “Eu espero que essa postura dele ensine os alunos a serem críticos, a estudarem, a sair da zona de conforto”, completa.

 Texto vencedor:
O sonho que não me tiram é o de que toda criança tenha acesso à palavra escrita, tenha mais do que direito a montanhas de livros, tenha gosto pela leitura e pelo mundo fascinante que ela representa. O sonho que tenho acordada e dormindo é o de que a educação exista para fazer crianças felizes, adultos íntegros, idosos realizados. Tinha dez anos a menina e a pouca idade não combinava com o tanto de pensamentos que inundavam seu travesseiro. Antes de dormir rezava fervorosa implorando que seu pai a deixasse continuar os estudos, ou ao menos que um livro ilustrado e com lindas histórias estivesse ao alcance de sua mão quando abrisse os olhos e assim ficava por longo tempo deliciando-se com o belo quadro de sua imaginação. Quando despertava, crente que seu pedido havia sido atendido e veria sua fantasia materializada, seus olhos encontravam a já tão manuseada Bíblia, pois outros materiais literários eram proibidos na casa com janelas de madeira. Noites infindas sonhou e acordou igual. Cresceu devagar, vendo-se professora e acreditando que uma máquina de escrever a transformaria em escritora, lendo tudo o que lhe caía nas mãos ou passava perto dos olhos curiosos. Revistas escondidas, restos de caderno da vizinha que usava tênis e podia estudar; jornais cheirando a peixe, ou manchados com o sangue dos ossos de boi, tempos difíceis. Tinha quinze anos a adolescente, havia estudado apenas as séries iniciais e lembra com riqueza de detalhes sua primeira vez: foi conduzida com certa cerimônia por um cavalheiro que a fez adentrar em um prédio no centro da cidade para apresenta-la à Biblioteca Pública. Ávida pela palavra escrita deu-se conta de que estava em local sagrado e a partir de então lia com a sofreguidão do náufrago, que bebe água do mar e a sede o enlouquece. Frente a uma biblioteca inteira, pensou que tudo já havia sido escrito, e durante muito tempo flertou com a escrita nas madrugadas. Fui a menina pobre, proibida de estudar na infância que nunca desistiu e sonhando fez o sonho virar realidade e hoje é professora e escritora. O que me faz compor é a crença de que ainda há inúmeras meninas e meninos ávidos pelo saber da humanidade, mas que pouco ou nenhum acesso têm a materiais literários. Isso deflagra na criança faminta de livros que há em mim, uma urgência de espalhar e motivar a leitura. Acredito que onde houver um pequeno leitor, tem que haver livros à disposição. Para isso servem os escritores, para humilde e entusiasticamente se darem a conta-gotas aos leitores e neles fazer caminho e moradia, e como um toco de vela amarelada continuar iluminando e até o fim.

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