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Quinta-Feira, 25 de Maio de 2017
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Tesouros arqueológicos estão ameaçados em Joinville

Sambaquis sofrem com a interferência humana e a ação da natureza. Sem recursos financeiros para pesquisa, sítios podem desaparecer sem nem mesmo terem sido estudados

Thaís Moreira de Mira
Joinville
Fotos: Fabrício Moraes/ND
Exemplo. Empresário Avelar Swaroswky incentiva a preservação dos sítios arqueológicos

 

Os 42 sambaquis cadastrados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em Joinville correm risco de desaparecer sem o apoio financeiro necessário para estudo e preservação destes sítios arqueológicos. Pelo menos 10 ficam em área urbana e são frequentemente ameaçados pelo crescimento imobiliário ou exploração econômica de seu território. Além disso, estão sujeitos a atos de vandalismo. No entorno do sambaqui da rua Guaíra, no bairro Aventureiro, por exemplo, moradores já relataram em outras ocasiões terem encontrado garrafas de bebidas alcoólicas vazias e até camisinhas.
Em casos raros, o MASJ (Museu de Arqueológico do Sambaqui de Joinville) encontra pessoas como os sócios Avelar Swarowsky e Célio Gomes, que adotaram um sambaqui e auxiliam na preservação.
Porém, a interferência humana não é a única ameaça aos sambaquis. Os cerca de 32 sítios localizados em ilhas ou na área rural desaparecem pela erosão flúvio-marinha, que causa o desmoronamento de camadas arqueológicas. Isso tem ocorrido em sambaquis como o Morro do Amaral 1, na zona Sul da cidade. O sítio, inclusive, corre risco de desaparecer sem ao menos ter sido estudado.
Outro sambaqui ameaçado pela erosão flúvio-marinha é o Cubatão 1, na margem do rio Cubatão. Devido ao movimento das marés, quase um metro do sítio é removido por ano. A marola produzida pelas embarcações também ajuda a acelerar o desaparecimento do sítio. As arqueólogas do MASJ, Dione da Rocha Bandeira e Beatriz Ramos da Costa, afirmam que bastaria colocar um gabião para escorar a parede do sítio, evitando seu desmoronamento. No entanto, a ideia esbarra na falta de recurso financeiro.

 

Dedicação. Arqueólogas Beatriz Ramos da Costa e Dione da Rocha Bandeira, do MASJ

 

Após quatro anos tramitando no Ministério da Cultura, as arqueólogas do MASJ conseguiram aprovar o projeto de pesquisa que prevê a captação de R$ 120 mil. Empresas da cidade podem financiar o projeto e abater o dinheiro no imposto de renda.

Pesquisas esbarram na falta de recursos financeiros

 

Divulgação/ND
Ameaçado. Sambaqui Cubatão 1 perde quase um metro de área por ano por causa da erosão

 

O sambaqui Cubatão 1 foi pesquisado entre 2006 e 2009. Durante a pesquisa arqueológica, foram encontrados no local artefatos confeccionados com materiais vegetais, fibras e madeiras, bastante raros no Brasil, além de cerca de 23 sepultamentos. Uma das descobertas mais impressionantes foram as 83 estacas de madeira usadas para sustentar a base do sítio arqueológico. Conforme a arqueóloga Beatriz Ramos da Costa, esta foi a engenharia usada pelos sambaquianos para ocupar aquele espaço.
O objetivo era tornar o Cubatão 1 o sambaqui mais estudado de Joinville, porém novamente as arqueólogas esbarram na falta de recursos. Aliás, na cidade, aproximadamente 20 dos sítios arqueológicos nem sequer passaram por sondagens. “Em relação às pesquisas no mundo pode-se dizer que o Brasil está bem aquém de resolver a questão”, diz Beatriz.  
Dione da Rocha Bandeira explica que as escavações requerem deslocamentos diários, datações e, na maioria dos casos, anos de trabalho. “Falta recurso, prioridade para pesquisa e também equipe, somos apenas duas arqueólogas, é pouco. O museu está aqui há 40 anos e o número de pesquisas poderia ser maior. Muitas foram feitas há muito tempo, não sendo possível responder certas questões contemporâneas”, lamenta Dione.
Entre as perguntas que, de acordo com ambas as arqueólogas, ainda precisam ser respondidas, estão o processo construtivo dos sambaquis e a alimentação dos sambaquianos, se houve algum tipo de mudança ao longo do tempo, por exemplo. “Afinal de contas, quem estava em que sítio e em que momento? Quais sambaquis foram contemporâneos, entender as relações entre eles. Os sambaquianos não ficavam o tempo todo em cima do sítio”, aponta Beatriz.
Enquanto correm atrás de financiamento para conseguir pesquisar os sambaquis em Joinville e responder às interrogações sobre a vida dos primeiros habitantes do município, as arqueólogas trabalham com as coleções do acervo do MASJ. Todas as segundas, a cada 15 dias, ocorre a Noite no Museu. Alunos do curso de especialização em arqueologia da Univille (Universidade da Região de Joinville), e de outros cursos, se reúnem no MASJ para trocar experiências e apresentar projetos.

 

Adote um sambaqui

A legislação brasileira determina que grandes obras necessitam de estudo de impacto ambiental e medidas de salvamento arqueólogico. Em pequenas obras, o empreendedor precisa avisar o Iphan quando encontrar vestígios arqueológicos, mas isso normalmente não ocorre. Felizmente, existem empresários comprometidos com a preservação do patrimônio histórico. É o caso de Avelar Swarowsky e do sócio Célio Gomes, ambos da empresa Trevo Empreendimentos Imobiliários, de Joinville, proprietária do terreno onde estão três sambaquis. Eles compraram o espaço em 1985, conforme lembra Swarowsky, e seis anos depois firmaram parceria com o MASJ e o Iphan para ajudar a conservar os sítios arqueológicos. A iniciativa faz parte do projeto Adote um Sambaqui. “Nunca mexemos nos sambaquis. Fizemos a parceria com o MASJ, a Fundação Cultural de Joinville e o Iphan, quando eles quiserem podem entrar para fazer pesquisas à vontade. O trabalho deles é muito bom, impressionante”, afirma. Ele reforça que no local existem mais de 4.000 anos de história.

Saiba mais

Penas previstas no Código Penal

Art. 165. Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa tombada pela autoridade competente em virtude de valor artístico, arqueológico ou histórico:

Pena – detenção de seis meses a dois anos, e multa.

Art. 166 (Alteração de local especialmente protegido). Alterar, sem licença da autoridade competente, o aspecto de local especialmente protegido por lei:

Pena – detenção de um mês a um ano, ou multa.

 

Por dentro dos sambaquis

Cubatão 1

Localização: margem direita do rio Cubatão, próximo a foz do Canal do Palmital

Estudo: Escavado entre 2007 e 2009, foram encontrados artefatos de fibra vegetais raro

 


Cubatão 2

Localização: margens da Estrada Cubatão Grande. Está em uma área pertencente a empresa Trevo Empreendimentos Imobiliários

Estudo: Foram feitas apenas sondagens no local

 

Cubatão 3

Localização: Estrada Cubatão, cerca de 700 metros do sul do rio Cubatão e 300 metros ao norte do rio Cubatãozinho Grande

Estudos: Foram feitas apenas sondagens no sítio arqueológico. Ele foi parcialmente destruído pela retirada de material para aterro das estradas

 

Cubatão 4

Localização: a 90 metros da margem esquerda do rio Cubatãozinho

Estudo: Foram feitas apenas sondagens no sítio arqueológico. Foi parcialmente destruído pela retirada de material para aterro das estradas

 

Cubatãozinho

Localização: margem direita da Estrada Engenheiro de Souza Mello Alvim (Estrada da Vigoreli).

Estudo: Foram encontrados artefatos de pedra e osso, esqueletos humanos, ossos de peixes, vestígios de fogueiras e vários zoólitos (estruturas de pedras com forma de animais

 

Espinheiro 1

Localização: Vila Paranaense, no bairro Comasa

Estudo: Pesquisado em 1964 quando foram encontrados 51 peças líticas classificadas como raspadores, batedores, furadores, lâminas de machado e lascas de quartzo, granito e diabásio, e quatro sepultamentos

 

Espinheiro 2

Localização: Vila Paranense, bairro Comasa

Estudo: Foram encontrados sepultamentos, lâminas de machado de rocha, pontas de projétil ósseas, entre outros vestígios

 

Gravatá

Localização: face sudoeste da Ilha dos Espinheiros

Não foi estudado

 

Guanabara 1

Localização:  rua Teresópolis

Estudo: parcialmente destruído pela urbanização. Foi pesquisado em 1988

 

Guanabara 2

Localização: entre as ruas Araguaia, Japurá e Igarapé

Estudo: foi parcialmente degradado.

 

Ilha do Gado 1, 2, 3

Localização: Ilha do Gado, próximo do rio Iririuguacú

Não foram feitas pesquisas

 

Ilha dos Espinheiros 1

Local: na Ilha dos Espinheiros, às margens da rua Baltazar Buschle

Estudo: não foi pesquisados e esta parcialmente destruído

 

Ilha dos Espinheiros 2

Localização: ao Sul da Ilha dos Espinheiros, a 100 metros da Lagoa Saguaçu, junto ao Joinville Iate Clube

Estudo: Foi escavado e resgatado dez sepultamentos, artefatos da indústria óssea e conchífera variada, constituída de pontas de projéteis, colares

 

Ilha dos Espinheiros 3

Localização: ao norte da Ilha dos Espinheiros, às margens da Lagoa do Varador

Estudo: foi localizado um esqueleto praticamente completo e em bom estado de conservação

 

Ilha dos Espinheiros 4

Localização: no final da rua Severino Gretter

Estudo: foi parcialmente destruído para a pavimentação de acesso à Lagoa do Varador

 

Iririuguaçu

Localização: fica a 500 metros da pista do aeroporto de Joinville

Não foi estudado

 

Itacoara

Localização: margem esquerda do rio Piraí, no limite entre Joinville e Guaramirim

Estudo: predominam restos de peixes, moluscos de água doce. Foram identificados 57 sepultamentos. Alguns corpos tinham o esqueleto perfurado por pontas de fechas de osso, que pode indicar violência

 

Lagoa do Saguaçu

Localização: Parque Caieira, às margens da Lagoa Saguaçu

Estudo:  está degradado e foi parcialmente escavado

 

Morro do Amaral 1, 2, 3 e 4

Localização:  na Ilha do Morro do Amaral

Estudo: não chegaram a ser pesquisados  

 

Morro do Ouro

Localização: margem direita do rio Cachoeira, junto a Ponte do Trabalhador.

Estudo: foi pesquisado

 

Paranaguamirim

Localização: margens esquerda do rio Paranaguamirim, a 1.800 metros do Canal do Linguado

Não há pesquisas

 

Ponta das Palmas

Localização: afloramento rochoso à margens direita do Canal do Linguado, próximo da foz do rio Cubatão

Estudo: foi identificado em 1999 e foi encontrados cerâmicas Itararé e sepultamentos

 

Ribeirão do Cubatão

Localização: na área rural

Estudo: sítio pode estar associado ao período em que o nível do mar estava mais alto

 

Rio Bucuriúma

Localização: margem direita do rio Bucuriúma, área de manguezal em Pirabeiraba

Não há pesquisas

 

Rio Comprido

Localização: entre as ruas Ponte Serrada, Matos Costa , Witmarsun e Alferes Schmidt, no Comasa

Estudo: Pesquisa gerou um acervo de 1.146 artefatos, incluindo esqueletos humanos e 29 dentes de mamíferos

 

Rio das Ostras

Localização: a 500 metros do rio das Ostras, próximo da confluência com o Canal do Palmital, em Pirabeiraba

Não foram feitas pesquisas

 

Rio Fagundes

Localização: próximo do rio das Ostras, na confluência com o Canal do Palmital, em Pirabeiraba

Não foi estudado

 

Rio Ferreira

Localização: margens do rio Ferreira, em Pirabeiraba

Não foi estudado

 

Rio Pirabeiraba

Localização: margem direita do rio

Não foi estudado

 

Rio Riacho

Localização: em meio ao manguezal próximo ao Morro do Amaral, no bairro Paranaguamirim

Estudo: material era utilizado para pavimentação das ruas da região

 

Rio Sambaqui

Localização: margem direita do rio Sambaqui, a 1km da confluência com o Canal Palmital

 

Rio Velho 1

Localização: 300 metros da margem direita do rio Velho, no Paranaguamirim

Não foi estudado

 

Rio Velho 2

Localização: às margens do rio Velho, no limite do Bairro Ulysses Guimarães

Estudo: foram recolhidos fragmentos de cerâmica

 

Rio Velho 3

Localização: próximo do sambaqui Rio Velho 1

Não há estudos

 

Rua Guaíra

Localização: entre as ruas Peixes, Cláudio Lopes, Paulo Deglmann e Alois Finder

Não foi estudado

 

Tiburtius

Localização: a 100 metros da margem direita do rio Sambaqui e 1.500 metros da confluência com o Canal do Palmital, em Pirabeiraba

Não há estudos

 

Fonte: Livro “Joinville primeiros habitantes”

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