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Revolta e tensão persistem na comunidade Chico Mendes após morte de adolescente

Familiares e PM têm versões divergentes para operação policial realizada na manhã de domingo (15)

Cristiano Rigo Dalcin
Florianópolis
17/07/2018 às 21H22

O clima de revolta e tensão permanece instalado nas vielas da Chico Mendes, uma das oito comunidades do bairro Monte Cristo, na região continental de Florianópolis, após a morte de um adolescente de 17 anos durante operação policial no início da manhã de domingo (15). Baleado com dois tiros, o menor não resistiu aos ferimentos e morreu no Hospital Florianópolis. Familiares da vítima e Polícia Militar apresentam versões divergentes. PM e Polícia Civil investigam o caso.

Caçula de quatro filhos de uma família desestruturada, o menor foi surpreendido pelos policiais militares por volta das 6h, após sair de casa para ir a uma padaria onde pretendia comprar pão e fumar um cigarro. O que revolta mais a família é que o menor teria sido confundido com traficantes, justamente em um momento da vida em que estava disposto a trabalhar para tentar dar uma vida digna para a companheira, de 15 anos, e os dois filhos, de três anos e de nove meses de idade.

Irmão e mãe da vítima estão revoltados com ação policial realizada na Chico Mendes. - Foto Marco Santiago/ND
Irmão e mãe da vítima estão revoltados com ação policial realizada na Chico Mendes. - Foto Marco Santiago/ND



“A maioria das crianças daqui não tem documentos. Ele tinha feito identidade, carteira de trabalho para trabalhar de menor aprendiz e agora pretendia registrar os filhos em seu nome. Nem isso ele pode fazer mais”, diz o irmão e líder comunitário, Maicon Chaves. Ainda arrasada com a perda do filho, Rosinei Chaves classifica a ação policial como covardia. “A polícia diz que ele estava armado, mas ele nunca gostou de armas. Foi uma covardia, pois chegaram a passar um canivete no pescoço dele, arrastaram o corpo e queimaram as roupas dele”, argumenta.

De acordo com o líder comunitário, ações policiais como a que resultou na morte do irmão têm um impacto grande sobre os moradores da comunidade. Ele mesmo comanda um projeto social chamado Geração da Chico, no qual ensina música com aulas de bateria e teclado para 60 crianças de várias idades. “Os alunos ficam pensando se vale a pena mesmo fazer música no sábado e serem confundidos com traficantes e morto no domingo”, diz.

Desde a manhã do crime, Maicon tem conversado com lideranças da comunidade e do próprio tráfico sobre a morte do irmão, na tentativa de apaziguar os ânimos para evitar gerar mais violência. Ele garante que o protesto realizado no início da noite de segunda-feira (16), com a queima de pneus e lixo na entrada da comunidade, embaixo do viaduto da Via Expressa, teve como objetivo chamar atenção da mídia para a morte do adolescente. “Não houve um assalto ou roubo como chegaram a dizer, mas a Polícia Militar veio e chegou atirando com bala de borracha”, alega.

Um novo protesto está sendo organizado pela comunidade, desta vez de forma bastante pacífica. Os moradores devem realizar uma caminhada com faixas e dizeres contra a violência policial e balões. Camisetas brancas com a foto do menor estão sendo confeccionadas. O local ainda não foi definido. “Queremos justiça e que a Corregedoria entre no caso para apurar porque os policiais entraram na favela com câmeras desligadas. Não vamos descansar enquanto esse crime não for apurado”, afirma.

Polícia Militar abre investigação interna

De acordo com a versão do 22º Batalhão de Polícia Militar, responsável pela ação policial realizada na manhã de domingo na Chico Mendes, uma patrulha da PM entrou na comunidade para fazer o patrulhamento de rotina e foi recebida a tiros. Após intenso tiroteio, o menor teria sido atingido e encontrado com uma pistola.

Após o protesto realizado pelos moradores da Chico Mendes no início da noite de segunda-feira, o comandante da PMSC, coronel Araújo Gomes, abriu uma investigação interna para apurar os fatos, que deverá ser concluída em 60 dias. “Aquela comunidade tem sido alvo de operações intensas do 22º Batalhão fazendo com que, neste momento, tenhamos oito homicídios a menos em relação ao mesmo período do ano passado naquela região”, explicou. A morte do menor também é investigada pela Polícia Civil, por meio da Delegacia de Homicídios.

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