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Requalificação da Alfândega, em Florianópolis, cria ambiente mais convidativo à população

Arquiteto César Floriano afirma que a mentalidade da ocupação urbana precisa mudar, porque os projetos precisam ser consorciados e prever múltiplas ações

Michael Gonçalves
Florianópolis
03/08/2018 às 21H44

O Centro de Florianópolis ganhará mais espaço e charme com a revitalização do Largo da Alfândega. O objetivo é tornar a área mais atraente e convidativa para a permanência das pessoas. Atualmente, o local é utilizado para diferentes atividades culturais e feiras e ocupado por pessoas em situação de rua. O projeto do Largo da Alfândega é o primeiro de um total de três para requalificar a região central da Capital – o Passarela Jardim e o resgate da orla da baía Sul são as outras propostas. Para o arquiteto e urbanista César Floriano, que trabalhou ao lado dos também arquitetos Evandro Andrade e Elom Alano, a intenção inicial é de que os três projetos fossem conectados.

Largo da Alfândega é utilizado como local de passagem e para feiras e exposições - Daniel Queiroz/ND
Largo da Alfândega é utilizado como local de passagem e para feiras e exposições - Daniel Queiroz/ND


A ordem de serviço para a intervenção no Largo da Alfândega deve ser assinada na quinta-feira (9), segundo o prefeito Gean Loureiro (MDB), por meio de um acordo com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). “Lançamos a licitação em fevereiro e durante o processo uma empresa recorreu à Justiça. Diante da demora, entramos com um agravo solicitando que a Justiça definisse o vencedor, porque conseguimos 100% dos recursos da obra com o governo federal. Será o início da transformação do Centro Histórico”, diz o prefeito.

A decisão judicial foi assinada pelo desembargador Júlio César Knoll, da 3ª Câmara de Direito Público do TJ-SC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina), que determinou a empresa Concrejato como a vencedora da licitação, pelo valor de R$ 7,7 milhões. A obra tem prazo de 12 meses para ser concluída, a partir da ordem de serviço.

Para o professor Marcos Laffin, 56 anos, o Largo da Alfândega não pode apenas ser requalificado. “Temos várias construções históricas degradadas e o poder público precisa ter mais responsabilidade para a manutenção do patrimônio e pela valorização cultural. A população precisa ser provocada a ocupar estes espaços”, ressalta.

Pelo projeto, a área pública terá um deque de madeira com canteiros, espelhos d’água, bancos, cobertura metálica para sombra em homenagem às rendeiras e um pequeno centro comercial em duas edificações. Assim, o chafariz, o monumento de bilros (instrumento para a confecção da renda), o palco e as outras construções serão retiradas.

Parte da área do aterro da baía Sul serve como parada dos ônibus - Flávio Tin/ND
Parte da área do aterro da baía Sul serve como parada dos ônibus - Flávio Tin/ND


Praça seca, com poucos equipamentos e árvores

César Floriano, professor do departamento de arquitetura e urbanismo da UFSC, explicou que o projeto de revitalização do Largo da Alfândega prevê uma praça seca, com a maior parte da área total sem qualquer equipamento e arborização. De acordo com o arquiteto, a exigência da superintendência do Iphan-SC é que o Casarão da Alfândega seja valorizado.

Além disso, o espelho d’água vai marcar o local aonde o mar chegava antes da construção do aterro. “Redesenhamos as lojinhas e jogamos um grande deque com água, que marca o local aonde o mar chegava, e teremos um conjunto de estar que terá uma sinergia com o Mercado Público”, destaca. “Haverá uma grande estrutura suspensa metálica, que é como se fosse uma grande toalha de tramoia, em homenagem às rendeiras, que servirá como sombreamento também a pedido do Iphan. Liberamos o espaço da feira para a utilização de eventos, em um projeto simples que prevê uma repaginação e uma marcação histórica, com um trapiche de madeira à frente do prédio da Alfândega. Também serão retiradas árvores plantadas pelos taxistas”, completa o arquiteto e urbanista.

O professor aposentado e cadeirante Paulo César Bravo, 63 anos, reclamou da falta de acessibilidade em diferentes pontos do Centro. O próprio prédio da Alfândega tem um degrau que impossibilita o acesso de cadeirantes. “Os paralelepípedos são irregulares e escorregadios e, assim, quem tem dificuldade de locomoção sofre ao passar aqui. Eu mesmo já caí da cadeira duas vezes”, conta. Floriano explicou que o paralelepípedo vai permanecer porque é tombado como patrimônio histórico, mas a acessibilidade está prevista na parte nova. 

Local de contemplação e de encontros

A chefe da divisão técnica do Iphan, Regina Helena Santiago, explicou que a revitalização do Casarão da Alfândega é um processo diferente do entorno. O encaminhamento para a reforma da estrutura está em andamento em Brasília (DF). “A requalificação tem a intenção de deixar o entorno mais agradável, mais confortável e mais convidativo à permanência das pessoas. Será um espaço de contemplação e de encontro, que vai proporcionar a admiração das construções históricas”, afirma. A revitalização prevê a construção de cafeterias, floriculturas, espaço para exposição dos indígenas e de artesanato de cerâmica, além de posto policial, informações turísticas e banheiros.

Mentalidade da ocupação urbana precisa mudar

Durante a reunião do mês de julho do Comdes (Conselho Metropolitano para o Desenvolvimento da Grande Florianópolis), o arquiteto e urbanista César Floriano destacou as propostas de humanizar a orla do aterro da baía Sul, da passarela Nego Quirido até a cabeceira insular da ponte Hercílio Luz. A sugestão volta ao projeto original de Burle Marx, elaborado entre as décadas de 50 e 70, que visava ampliar a vegetação e aproveitar a orla da região central. Para o arquiteto, a mentalidade precisa mudar, porque toda operação urbana é um trabalho consorciado, “no qual vários atores têm que participar”.

César Floriano quer conectar projetos de revitalização previstos para o aterro - Daniel Queiroz/ND
César Floriano quer conectar projetos de revitalização previstos para o aterro - Daniel Queiroz/ND


Floriano destaca negativamente as construções do centro de eventos CentroSul, da Nego Quirido e da estação de tratamento de esgoto da Casan. “O centro de eventos, quando foi construído, deveria ter sido previsto um tratamento paisagístico de borda como contrapartida, sem falar no projeto arquitetônico que fica de costas para o mar. Esse é o urbanismo tacanho, no qual empresários e gestores públicos não pensam além da estrutura que está sendo construída, porque estas construções poderiam ter múltiplas ações. A utilização do aterro para estacionamento de ônibus e carros é um desastre”, analisa.

O objetivo é atrair diferentes públicos para espaços que, atualmente, não são atrativos. “Pensamos que o primeiro evento é recuperar as áreas das cabeceiras das pontes. Porque aquela região é um baita cenário paisagístico, que é fácil ter a sua continuidade pela Beira-Mar Norte. E avançar este bom evento urbanístico até a passarela do samba”, diz. O arquiteto acredita que a dinamização dos esportes náuticos pode recuperar esta área, com restaurantes e cafeterias, além de atrair os praticantes de outros esportes para potencializar o espaço, principalmente, após a despoluição da baía Norte. 

Clubes de remo sofrem com falta de acesso seguro

Marco Moreira Martins, técnico de remo do Clube Náutico Francisco Martinelli, convive com os problemas de uma área degradada. Os usuários de drogas e as barracas das pessoas em situação de rua atingem as escolinhas de remo, que têm dificuldade para captar novos jovens.

Sob as cabeceiras das pontes Pedro Ivo e Colombo Salles, existem apenas os centenários clubes de remo. “Por diversas vezes já tivemos de conversar com os usuários de drogas para que utilizassem outra área, porque os clubes são espaços de promoção da saúde. Os pais dos nossos alunos manifestam a preocupação constante, principalmente, da falta de um acesso seguro até a rodoviária”, diz.

Martins lamenta a falta de equipamentos para a prática de outras atividades físicas. “Poderíamos ter uma academia ao ar livre ou outros mobiliários públicos para atrair as pessoas que desejam praticar atividades físicas de frente para a ponte Hercílio Luz, que é o principal cartão-postal do Estado”, enfatiza Martins, ao lado do também técnico Douglas de Oliveira.

Gean prevê compensação na concessão do centro de eventos

O prefeito Gean Loureiro afirmou que a implementação dos projetos e revitalização do aterro da baía Sul passam por um polo gerador de economia. Para ele, algumas sugestões são inviáveis financeiramente, mas promete ações que possam mudar o atual cenário de abandono da região. “Nosso objetivo é privatizar a passarela do samba para melhorar aquela área. Além disso, a concessão do centro de eventos vence em 2019 e vamos colocar na licitação uma contrapartida de revitalização da orla. Sobre o aterro, onde utilizamos 30% do espaço para estacionamento de ônibus, ainda estamos pensando um projeto”, diz.

Sobre a ocupação dos espaços públicos por usuários de drogas e pessoas em situação de rua, Gean destacou que está sendo instalada uma iluminação mais forte e os bancos do Largo da Alfândega terão um formato diferenciado. A intenção é que o mobiliário urbano não vire dormitório para moradores de rua.

Projeto prevê deque, canteiros, espelhos d'água, cobertura metálica e um centro comercial - PMF/Divulgação/ND
Projeto prevê deque, canteiros, espelhos d'água, cobertura metálica e um centro comercial - PMF/Divulgação/ND

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