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Polpa do fruto da palmeira juçara pode ser nova fonte de renda para produtores em Joinville

Produto é semelhante ao açaí, com maior concentração de nutrientes que a do fruto da palmeira originária da floresta amazônica

Suelen Soares da Silva
Joinville

Em época de descoberta de novos sabores, muita gente que nunca tinha ouvido falar de um tal de açaí, fruto típico do Norte do país, passou a incorporar a polpa derivada de uma palmeira amazônica à sua alimentação. Nas ruas e shoppings, casas especializadas se multiplicam, vendendo a polpa acrescida de frutas e outras delícias, em ousadas, quase sempre calóricas e, sempre, deliciosas combinações.

 

Fabrício Porto/ND
"Pretendemos regulamentar para que se possa investir na produção da polpa da juçara", explica o engenheiro agrônomo da Fundação Municipal 25 de Julho German Ayala

 

Poucos têm conhecimento, mas aqui pela região Sul do Brasil há um primo muito próximo ao açaí amazônico, com ricas propriedades bem semelhantes e muito pouco exploradas. Trata-se do fruto da palmeira juçara (Euterpe edulis), nativo da floresta atlântica.

O cultivo de palmeiras para a extração do palmito em Joinville começou em 1997. Porém, o que tem despertado a curiosidade nesta atividade é a produção da polpa extraída do fruto da palmeira juçara. O engenheiro agrônomo da Fundação Municipal 25 de Julho German Ayala, explica que não é o açaí da Amazônia (Euterpe oleracea), mas um parente bem próximo. Segundo ele, a produção da polpa tem despontado como atividade promissora, já que para esta atividade não é necessário o corte da palmeira juçara, que não se regenera quando cortada.

“A palmeira juçara, quando cortada, leva quase sete anos para produzir novamente. E está ameaçada de extinção, por conta do corte ilegal. Atualmente, pretendemos regulamentar para que se possa investir na produção da polpa da juçara”, explica. E embora a nossa polpa não seja a mesma, as semelhanças desde a cor arroxeada até o sabor, não deixam que a polpa de juçara perca em nada para a amazonense.

Existem muitos estudos relacionados ao açaí que indicam os benefícios que o fruto traz para a saúde dos consumidores. Eles vão desde o efeito antioxidante ao anti-inflamatório, com riqueza de elementos como cálcio, ferro, potássio e zinco, entre outros.

O químico carioca Eri Gomes, 55 anos, conhece bem os efeitos que a polpa da juçara tem e o quanto esta atividade é promissora. Gomes é um pesquisador da palmeira e, consequentemente, da fruta, há aproximadamente 15 anos. Segundo ele, ainda não se pode estimar o quanto de fruto é produzido em Joinville, pois ainda não existem estudos sobre o assunto.

Gomes mora em Joinville há oito anos. Ele viveu por cinco anos no Pará, estudando e vivenciando o cultivo e manejo do açaí da Amazônia. Neste período, percebeu o impacto social causado pela produção organizada do açaí. “Eu vejo um futuro brilhante para esse superalimento. A polpa da juçara tem quatro vezes mais nutrientes do que o açaí. Nas pesquisas que pude acompanhar, eu pude ver a diferença na saúde de quem consome”, afirma.

E os benefícios vão além da alimentação. O pesquisador comenta que em Santa Catarina o índice de câncer de pele é muito alto e que produtos à base da polpa podem auxiliar na prevenção e também na cura da doença. “Por todos os benefícios que a juçara pode trazer à saúde é que eu me apaixonei pelo tema. Mas temos muitas barreiras a serem ultrapassadas, como a extração ilegal do palmito”, enfatiza.

Em casa, o pesquisador e a família produzem ainda de forma tímida e artesanal produtos à base da fruta, como vinagre, pós de juçara, uma bebida gaseificada que se assemelha a uma espumante chamada Aluá, um vinho, o Thuyra, e uma bebida energética. Todos totalmente naturais.  

Para ele, a produção de produtos da juçara é mais do que alternativa de negócios. Ele acredita que esse cultivo pode protagonizar uma mudança social no campo. “É uma mudança de paradigma dentro da agricultura familiar. Eu vivi cinco anos na Amazônia e pude ver que, além do crescimento socioeconômico, junto vem também a consciência socioambiental. É um cultivo extremamente sustentável e poderá ajudar na recuperação da mata”, ressalta.

Por enquanto, seus produtos não estão sendo largamente comercializados. Apenas amigos mais próximos à família de Gomes têm o privilégio de degustar tais especiarias.

 Cerca de 85 produtores na região de Joinville

 Em Joinville, existem aproximadamente 85 produtores de palmito que possuem uma área de 200 hectares, que rendem 600 toneladas por ano de palmito. O cultivo tem sido tratado com tanta importância que já existe em Joinville uma festa das palmáceas. A 3ª edição da Festa Regional do Palmito Cultivado ocorreu em março, em Pirabeiraba.

O gerente regional da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), Onévio Zabot, explica que na URT (Unidade de Referência Técnica) mantida em parceria pela Epagri e Fundação 25 de Julho, pesquisas vêm sendo feitas acerca do cultivo das palmeiras real, pupunha, imperial e a juçara. Ele diz que a região Norte catarinense tem condições adequadas para o cultivo, o que tem atraído mais produtores a investir no cultivo.

No início de abril, 80 produtores estiveram na URT para uma saída de campo, onde puderam conferir de perto os primeiros resultados das pesquisas e estações com o plantio das palmeiras. Além disso, também foram expostos os produtos à base do palmito e da polpa do juçara. “A produção do palmito e da polpa do juçara é muito importante e pode transformar a economia da região. A palmeira é uma poupança verde que os produtores possuem”, ressalta. “A proposta é de que em médio prazo possamos desenvolver uma semente certificada para ajudar o produtor a obter o melhor desempenho na plantação”, resume Zabot.

Consolidação da cadeia produtiva

O Projeto Juçara trabalha na divulgação e expansão da utilização dos frutos da palmeira juçara para produção de polpa alimentar e seu uso na culinária; consolidação de sua cadeia produtiva, por meio da difusão do manejo sustentável da juçara para geração de renda, associada a atividades de recuperação da espécie e da mata atlântica; e a reconversão produtiva de áreas, contribuindo com a fixação de carbono.

É fruto da construção conjunta com as comunidades rurais e tradicionais onde as instituições atuam, com apoio de parceiros. O projeto tem objetivos de consolidação, recuperação e monitoramento da espécie, utilizando metodologias participativas e de articulação que envolvem outras instituições em diversos Estados.

Em Santa Catarina, o Projeto Juçara tem objetivo de aumentar a população do palmito juçara, com a diminuição do corte ilegal do palmito, para que a extração da polpa seja vista como nova renda à agricultura familiar. O projeto também busca fortalecer a cadeia produtiva da agricultura familiar, com a implantação da agroindústria, incentivar o cooperativismo local e recuperar as áreas degradadas e APPs (Aréas de Preservação Permanente) com o plantio de palmito consorciado com outras espécies, como o juçaí, um híbrido que está sendo desenvolvido na URT em Joinville.

O projeto é desenvolvido pelo Sesc (Serviço Social do Comércio), Fundação 25 de Julho e Prefeitura de Joinville.

Produção de palmáceas

A região Norte de Santa Catarina é uma das mais fortes produtoras de palmeiras cultivadas. O clima de calor com muitas chuvas beneficia a cultura. “Por ser uma espécie nativa da região amazônica, onde há muito sol e chuva, as palmeiras encontram um clima bastante favorável na região de Joinville e municípios vizinhos”, explica o engenheiro agrônomo Alexandre Visconti, da Epagri.

Na avaliação da Epagri, o cultivo de palmeiras para consumo de palmito ganha cada vez mais espaço entre as culturas de produção agrícola. Mais de três mil produtores rurais do Litoral Norte têm na produção de palmeiras parte de sua renda.

Zabot afirma que em algumas cidades, como Massaranduba, por exemplo, a cultura já ultrapassou a produção de bananas em área plantada. “A produção de palmito é uma grata surpresa para nós e hoje é uma cultura que cresce em média 10% ao ano”, comenta.

No Estado

Segundo dados da Epagri, em 2015 o Estado produziu 13,4 milhões de kg de palmito, que equivale a 36 milhões de vidros (300 g drenados). A produção ocupa uma área de 4.411 hectares, envolve 1.631 famílias de agricultores e gerou no ano pelo menos 720 empregos diretos. O valor bruto da produção em 2015 foi de R$ 154,8 milhões. 

Principais nutrientes do açaí

Proteínas: responsáveis pela  formação  e  manutenção dos tecidos celulares,  pela síntese  dos  anticorpos contra  infecções e  na formação  da  hemoglobina  do sangue e de variadas enzimas

Carboidratos: é a principal fonte de energia do nosso corpo

Fibras: contribui para evitar o excesso de colesterol, melhorar as diabetes e protege a mucosa intestinal

Cálcio: formação da massa óssea e dos dentes, na contração muscular e na transmissão dos impulsos nervosos, também muito importante na coagulação sanguínea

Magnésio: participa na formação de dentes e ossos, ajuda na transmissão de impulsos nervosos, intervém no relaxamento muscular e na produção de energia

Manganês: tem funções antioxidantes, no metabolismo de carboidratos, aminoácidos e colesterol, além de ser essencial no desenvolvimento de ossos saudáveis e na cicatrização de feridas

Fósforo: importante na formação de ossos e de dente

Ferro: formação da hemoglobina do sangue e da respiração celular

Sódio: mantem o equilíbrio aquoso e ácido básico do organismo, retendo a água

Potássio: relaxamento muscular, para a secreção de insulina no pâncreas e para conservação do equilíbrio ácido/base

Cobre: participa na formação de tecidos, no metabolismo do ferro, no metabolismo de neurotransmissores e no sistema nervoso central

Zinco: tem a função de manter a pele, cabelo e unhas saudáveis, e também no desenvolvimento e funcionamento dos órgãos reprodutores

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