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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Pessoas perdidas na mata, um drama que se repete na serra Dona Francisca

Homem que há dois anos passou pela provação acompanha equipes que procuram pelo joinvilense Joel Cândido Espíndola

Redação ND
Joinville
Fabrício Porto/ND
Em 2010, Urbano Hlawatsch e um amigo ficaram mais de 80 horas perdidos na região do Castelo dos Bugres

Às 21h do dia 3 de agosto de 2010, após mais de 80 horas perdido na mata do Castelo dos Bugres, na serra Dona Francisca, o aposentado Urbano Hlawatsch, 61 anos, foi resgatado por bombeiros, policiais militares e integrantes do então Grupo de Montanhismo de Joinville. Debilitado, ele não conseguia andar e precisou ser retirado do matagal em cima de uma maca. O amigo Guilherme Hüttl, 61, o Willy, já havia sido localizado pelas equipes de resgate no início da tarde, ao sair do ponto em que ambos estavam para procurar ajuda. Dois anos se passaram e o drama se repete na região.
Desde segunda-feira não há notícias sobre o paradeiro do motorista Joel Cândido Espíndola, 42. Consternado com o desaparecimento, Urbano voltou ao cenário da história da qual foi protagonista para oferecer ajuda às equipes de resgate instaladas na borracharia às margens da SC-301. “Eu estive lá e talvez possa dar alguma dica, ajudar.” O idoso também aproveitou o tempo em que aguardava alguma nova informação sobre o paradeiro de Joel para contar como foi sua experiência na mata. Na época em que se perdeu com o amigo, Urbano ainda tinha como adversário o frio intenso do inverno na serra catarinense.
“A noite em que a gente retirou o senhor foi a noite mais fria do ano em Santa Catarina. O termômetro marcou três graus”, lembra Alan Jacob da Rosa, membro do Grupo de Montanhismo de Joinville, hoje Grupo de Resgate em Montanha. Urbano conta que se perdeu com “Willy” depois de sair da trilha para tirar foto de uma cachoeira. “Subimos o Morro Pelado e eu vi uma cachoeira, queria tirar foto e saímos da trilha. Escureceu e não chegamos, estávamos perdidos.”
A região em que os idosos se perderam é próxima de onde os bombeiros militares, agentes da Polícia Ambiental e do Grupo de Resgate em Montanha de Joinville concentram as buscas por Joel. O perímetro de 6 km² fica entre o Monte Castelinho e o Morro do Pelado e foi mapeado depois do último contato telefônico feito pelo desaparecido, no início da noite de segunda-feira. Morador antigo da localidade, Wilson Meyer, 62, fala sobre os riscos que o motorista pode enfrentar na mata.
“Onde ele está há muitas pedras grandes, se ele encostar em um galho e cair, por exemplo, nunca mais achamos ele. Por enquanto está bom porque não chove, se chover a região que já é úmida fica escorregadia”. Wilson conhece bem a mata e foi quem auxiliou nas buscas por Urbano e Willy, em 2010.

"Tudo deu errado"

Urbano Hlawatsch brinca ao falar do dia em que foi socorrido da mata no Castelo dos Bugres. “Naquele dia tudo deu errado, o que não era para fazer nós fizemos. Não era para dar certo.” Ele lembra que após tomar água do rio e comer palmito cru ficou com cólica e não conseguia mais andar. “O Willy me enterrou no chão e me cobriu de folhas para proteger do frio. Ele fez um rancho com as folhas de palmito por cima.” Quando amanheceu Guilherme Hüttl saiu para buscar ajuda.
“Meu colega não queria me deixar sozinho, mas disse para ele procurar ajuda. Ele foi de manhã cedo, anoiteceu e não voltou. Pensei: se algo acontecer com ele vamos morrer os dois”. Com as coordenadas repassadas por Willy os socorristas chegaram até onde Urbano estava. Foram seis horas de caminhada mata adentro para chegar ao ponto.

Buscas continuam

O coordenador de equipe dos bombeiros militares, capitão Paulo Diniz Arruda Nunes, garante que as buscas pela localização do motorista Joel Cândido Espíndola continuarão até segunda ordem do comando regional. Ontem de manhã seis pessoas, divididas em quatro equipes, permaneciam no Castelo dos Bugres. “Uma equipe pernoitou, as outras três voltaram e de manhã cedo entraram na mata novamente. O helicóptero Arcanjo também sobrevoou a região, mas não conseguiu avistar ninguém. Isto não significa que ele não esteja lá, a vegetação é densa e de cima é complicado ver.”
As equipes de resgate contam com o apoio de dois cães labradores, das corporações de Rio do Sul e Curitibanos. “A região é muito íngreme, tem várias pedras e buracos. Fazemos o monitoramento, mas até agora nenhuma pista.” Através do GPS de socorristas, um bombeiro militar consegue ver em tempo real no computador os locais já percorridos por cada equipe de resgate. No monitor estão demarcados os pontos dos acampamentos na mata e a área do provável paradeiro de Joel.
A mulher do motorista, a técnica de enfermagem Marga Barbosa Lopes, 43, e a irmã dele, Sandra Cândido Espíndola, 50, continuam acompanhando a procura no bar do comerciante Waldemar Meyer, 70, localizado no mesmo terreno da borracharia onde os bombeiros militares montaram seu QG. “Eu já vi muita gente se perder lá. Nasci aqui e ajudei a tirar muita gente também, já foram mais de dez”, diz Meyer.
Segundo Marga, o marido a deixou com a irmã dele na festa de final de ano do Hospital São José, na Estrada do Pico, e saiu para caminhar na região. Por volta das 15h30, ele ligou no celular da companheira e avisou que estava perdido. “Não consigo entender como ele se perdeu. É a primeira vez que ele vai sozinho, mas já tinha subido o morro antes. Quando ele ligou para gente, acabou a festa. Foi ela quem deu a notícia do desaparecimento de Joel ao pai, de 78 anos. A mãe do motorista já é falecida.

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