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Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
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Pesquisadores desmistificam pílula do câncer e pedem adesão de SC para testes clínicos

Centro de Pesquisas Oncológicas aponta dificuldades financeiras para realização dos testes

Fábio Bispo
Florianópolis

Santa Catarina pode estar a um passo de aderir ao protocolo de testes para pesquisar a fosfoetanolamina em humanos através do Cepon (Centro de Pesquisas Oncológicas). O pedido foi o principal encaminhamento do 2º Seminário Fosfoetanolamina – Uma Esperança para Vida, realizado pela Assembleia Legislativa e OAB/SC (Ordem dos Advogados do Brasil), nesta sexta-feira, em Florianópolis. A Secretária de Estado da Saúde confirmou a intenção de investir na pesquisa, mas esbarra em questões burocráticas para confirmar a adesão. “Tanto o governador Raimundo Colombo como o secretário [João Paulo Kleinübing] já acenaram em apoiar as pesquisas, temos que ver apenas as questões burocráticas envolvendo o Cepon”, informou o consultor jurídico da Secretaria de Estado da Saúde e procurador do Estado, Daniel Cardoso.

Flávio Tin/ND
2º Seminário Fosfoetanolamina foi realizado nesta sexta-feira na Assembleia Legislativa


No entanto, as pesquisas em humanos dependeriam da adesão do Cepon, que aponta dificuldades financeiras para encampar o acompanhamento dos testes. “Não existe nada oficial e é improvável que o Cepon realize a pesquisa. Atualmente temos dificuldades para manter os tratamentos convencionais. É um momento muito crítico para pensarmos em fazer o acompanhamento de algum método experimental”, disse a diretora Maria Tereza Evangelista Schoeller.

O pedido para Santa Catarina poderia, além de acelerar a última fase de testes, também ampliar o número de pessoas atendidas. Presidente da Comissão de Saúde da Alesc, a deputada Ana Paula Lima (PT), cobrou o compromisso firmado com o governador Raimundo Colombo (PSD) em maio, quando foi anunciado investimento para as pesquisas. “O Cepon receberá recursos, inclusive da Assembleia, o que esperamos é que o governo honre com o compromisso. O CIEnP já provou que a substância não é tóxica. Centenas de pacientes no Estado já fazem o uso da substância. Não podemos ficar à mercê do lobby de grupos poderosos que tentam combater o uso da fosfo. Queremos os testes em Santa Catarina”, afirmou.

Recentemente o Estado participou da primeira e segunda fases da pesquisa autorizada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia através do CIEnP (Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos). Foram feitos testes in vitro e em roedores, comprovando que a substância não é tóxica. Na última segunda-feira, a terceira fase dos testes em humanos começou no Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), e podem levar até dois anos.

Pesquisador aponta até 100% de eficácia da substância

“A humanidade está há 60 anos estudando genoma e DNA e até hoje não achamos a cura do câncer. Isso porque o defeito não está no genoma, mas sim na mitocôndria que parou de fosforilar a célula. Quando descobrimos isso percebemos que estávamos perto da cura”, afirmou Salvador Claro Neto, pesquisador que desenvolveu a síntese da chamada “pílula do câncer” ao lado do professor Gilberto Chierici, há 25 anos, no laboratório de química da USP (Universidade de São Paulo) em São Carlos. Em Florianópolis, Salvador e Chierici apontaram resistência da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para aprovar a substância.

Os pesquisadores apresentaram os principais pontos dos estudos e desmistificaram que o remédio funcionaria em apenas alguns casos. Segundo Salvador, apesar de centenas de diferentes tipos, a causa do câncer estaria ligada a uma disfunção celular, que faz com que células aeróbicas se tornem anaeróbicas. “A fosfoetanolamina leva o ácido graxo que está em falta para esta célula anaeróbica e provoca o que chamamos de apoptose, ou morte celular programada. O que não conseguimos precisar é o tempo para que isso aconteça, pois depende do metabolismo de cada paciente, por isso o indicado é o uso da fosfo com uma dieta baseada em óleos essenciais”, declarou.

Relatos de cura e angústia

Hilário Segala, 42 anos, foi desenganado pelos médicos ao ser diagnosticado com câncer no intestino e metástase no fígado e no pulmão. Em novembro do ano passado conquistou na Justiça o direito ao uso compassivo (tratamento ainda não totalmente avaliado) da fosfoetanolamina, e em 3 de janeiro deste ano abandonou as sessões de quimioterapia. “Desde então o tumor estagnou e a equipe médica que me avaliou confirmou que não era efeito da quimio. O negócio é que nós não podemos esperar dois anos para que os testes sejam concluídos. O Cepon pesquisa mais de 36 substâncias, por que não pesquisar a fosfo?”, questiona.

No dia 13 de abril deste ano, a presidente afastada Dilma Rousseff (PT) sancionou a lei 13.269, que autorizava o uso da substância durante a fase de testes. No entanto, no dia 19 de maio o STF (Supremo Tribunal Federal) aceitou de forma liminar a suspensão da lei após a AMB (Associação Médica Brasileira) ingressar com uma ADI (Ação de Inconstitucionalidade) sustentando desconhecimento científico sobre a eficácia do medicamento e dos efeitos colaterais. “A AMB vai ao Supremo querer tutelar nossa segurança, mas subjuga nossa inteligência. Queremos que o STF nos aceite na ação como ‘amicus curiae’ para que possamos dar também nosso relato”, afirmou Leoni Margarida Simm, presidente da Associação Brasileira dos Portadores de Câncer.

OAB cobra transparência nos testes

Segundo os pesquisadores, mais de 20 mil pessoas já fizeram o uso da fosfoetanolamina no tratamento do câncer, apontando inúmeros relatos de cura ou melhora. Em todo o mundo, mais de 1.300 trabalhos científicos pesquisaram a substância.

A OAB/SC, uma das promotoras do seminário na Alesc, aprovou nesta sexta-feira, na Comissão de Saúde requerimento para que o governador autorize o início de testes clínicos em Santa Catarina. “A OAB quer que os estudos não sejam manipulados”. Já a deputada federal Carmen Zanotto (PPS), que integrou o Grupo de Trabalho da Fosfoetanolamina na Câmara dos Deputados, defendeu a continuidade do fornecimento da substância aos pacientes que já fazem o uso compassivo. “Já foi comprovado que a substância não é tóxica. A Anvisa precisa olhar para a floresta e não apenas para a árvore, isso ajudará a combater também a venda clandestina”, afirmou.

 

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