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Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2018
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Parques em Joinville são alvos constantes de vândalos

Depredação de equipamentos, furtos e pichações são ocorrências diárias em áreas públicas da cidade

Thaís Moreira de Mira
Joinville
Fabrício Porto/ND
Sinais de depredação estão por toda parte, pondo em risco os frequentadores

Um inaugurado há três anos, o outro a pouco menos de dois. Os parques da Cidade, no bairro Boa Vista, zona Sul de Joinville, e o das Águas, ao lado da Cidadela Cultural Antártica, no América, são alvos constantes da ação de vândalos. No município, nem sequer o Porta do Mar, lançado em junho passado, escapou de ser depredado. Duas das bolas de concreto que enfeitam o portal com vista para a Baía Babitonga já foram arrancadas na base e jogadas num canto.

Pelo menos três lâmpadas usadas para iluminar o trapiche acabaram roubadas, prejuízo para os visitantes e moradores do local. “Daqui a pouco não vai ter mais nada, a cerca de madeira ali também quebraram”, aponta o analista de processo Jorge Luiz Corrêa, 46. Ele e o vizinho Eugênio Cidral, 67, afirmam que já presenciaram alguns destes atos de vandalismo no Porta do Mar, porém não se manifestam com medo de serem agredidos.

“Só por aqui já vi umas três vezes, mas não dá de falar nada. Tenho medo deles virem para cima de mim”, diz Cidral. De acordo com ambos os moradores, a maioria dos depredadores são usuários de droga, que não tem vergonha de se exporem durante o dia. “Você não consegue ficar ali com a sua família sentado no final de semana porque sente o cheiro desgraçado da maconha”, relata Corrêa.

A situação é parecida no Parque da Cidade. A dona de casa Solange Budal Danna, 42, reclama da presença de usuários e traficantes no espaço que deveria servir a comunidade. “Meu filho está no campinho jogando bola e tenho que ficar de olho, lá é florido de rapaz vendendo e usando droga, menino de 14 anos”, denuncia. “Isto é principalmente de dia, a polícia precisava estar aqui de olho”.

Além de colocar a saúde a segurança dos usuários do parque em risco, estes adolescentes ainda seriam os responsáveis roubar as lâmpadas que iluminam o local e pichar diversos dos equipamentos a disposição da comunidade. “O parque ficou três meses no escuro porque eles roubaram as lâmpadas, agora foram colocadas novas e eles estão roubando tudo de novo”.

Na manhã de sábado (29), o vendedor Humberto Gehrke levou o filho Thiago, 8, para andar de bicicleta no Parque da Cidade e lamentou a situação que encontrou. “Tem bastantes sinais de vandalismo, acho que as pessoas deveriam colaborar mais. A população não está valorizando, fazendo a sua parte”.

Atração interrompida

Principal atrativo do Parque das Águas, o espelho d’água foi desativado logo nos primeiros meses de funcionamento do espaço, conforme José Luiz Teodoro, gerente da Unidade de Gestão e Desenvolvimento Ambiental da SEMA (Secretaria Municipal de Meio Ambiente), por causa do vandalismo. Ele, contudo, adianta que existe um projeto no Ippuj (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano) para reativar a atração em breve.

“No início do ano que vem tem obra. O Ippuj mexeu e mudou o sistema de funcionamento do espelho d’água para evitar que as pessoas consigam acessá-lo”. Teodoro adianta que futuramente a Sema vai tentar estabelecer uma Parceria Verde – em que empresas privadas cuidam de canteiros e espaços públicos em troca de publicidade - com objetivo de manter o espelho sempre em bom estado.

Hoje, a atração virou depósito das folhas que caem das árvores, além de bitucas de cigarro. Outro problema do parque é o lixo deixado pelos usuários, ironicamente aos pés das lixeiras. O gerente da Sema explica que existe uma equipe de limpeza para atender as áreas públicas do município, mas como são muitas é preciso fazer um esquema de rodízio. Ou seja, não dá para estar todo dia no mesmo ponto.

Ainda nos Parque das Águas, o visitante consegue encontrar outros sinais mau uso do espaço construído com dinheiro público. Logo no início, o mapa tátil que deveria atender as pessoas com deficiência visual está pichado. O mesmo acontece com a placa de inauguração, muros, lixeiras, mesas e bancos.

R$ 300 mil para troca de equipamentos

A Sema abriu um termo de referência para licitar a troca de equipamentos depredados em alguns dos parques de Joinville, no valor de R$ 300 mil. “Vamos ver o que conseguimos fazer com a verba, o tamanho da demanda. O custo das manutenções está em fase de orçamento”, detalha o gerente da Unidade de Gestão e Desenvolvimento Ambiental.

Ele esclarece que recém-inaugurada secretaria de meio ambiente recebeu a incumbência de cuidar dos parques municipais há apenas dois meses. Antes, ela era do setor de Praças de Jardins do antigo Ittran (Instituto de Transporte e Trânsito). Por isto, neste primeiro momento os espaços estão sendo visitados para que seja feita a avaliação do que precisa ser trocado com maior urgência.

O Parque da Cidade é um dos que deve receber novos equipamentos até o final do ano. Teodoro afirma que a intenção é deixá-lo zerado para o verão, especialmente pensando nas férias da molecada. Quanto à lanchonete, a secretaria está providenciado novo termo de referência para licitar seu uso. Já foram abertas duas licitações anteriores, mas não houve interessados.

“É uma troca, a pessoa consegue uma renda e em troca mantém os banheiros limpos e evita a depredação do parque”.

Guarda Municipal e câmeras de segurança

Inaugurado no domingo (29) o Parque São Francisco é outro que estará sujeito ao vandalismo, caso não haja segurança no local. Por isso, a Sema aposta no policiamento ostensivo da Guarda Municipal e no monitoramento por câmeras para evitar a depredação do espaço, no bairro Adhemar Garcia. “Não adianta inaugurar o parque para ele ser depredado”, opina Teodoro.

A Guarda Municipal, além do São Francisco, também zelará pelo patrimônio dos demais parques, praças e entorno das escolas. A ideia do gerente da Unidade de Gestão e Desenvolvimento Ambiental é de que com a presença do efetivo vândalos e usuários de drogas se sintam intimidados e deixem de frequentar estes espaços públicos.

Os 48 aprovados no concurso público da guarda passam atualmente por treinamento na Acadepol (Academia da Polícia Civil). Depois, eles terão um mês de estágio em Joinville. Nesta última fase eles trabalharão ao lado das polícias Federal, Militar e Civil, e Bombeiros Voluntários. A formatura dos guardas está marcada para o próximo dia 18.

PM é refém da situação

O tenente coronel Nelson Henrique Coelho, comandante do 8º BPM (Batalhão de Polícia Militar), responsável pelo patrulhamento na área Central, zonas Norte e Leste da cidade, afirma que em relação aos usuários de drogas no Porta do Mar, como denunciado pelos moradores, a polícia está praticamente de mãos atadas. “Hoje o usuário não é um problema de polícia, é um problema social. Quando há denúncia os policiais vão até o local, fazem um TC (Termo Circunstanciado) e a pessoa é liberada. Vai voltar a incomodar”, observa. “A PM é refém desta situação”.

Coelho garante que as viaturas do 8º BPM fazem rondas pelas regiões onde estão localizados os parques e praças públicas, mas devido ao pouco efetivo a corporação não tem como ficar 24h no local. Ele adianta que são em torno de 400 espaços públicos em Joinville, por isso, mesmo a Guarda Municipal precisará ser bem distribuída para dar conta do serviço.

Na zona Sul, o comandante do 17º BPM, Hilário Zils, igualmente alega que seus homens fazem rondas no entorno do Parque da Cidade. Contudo, não tem como ficar ali em tempo integral. “Quando dá, entre uma ocorrência e outra eles param no parque”.

O público não é de ninguém

Conforme esclarece a socióloga e professora da Ielusc (Instituto Superior e Centro Educacional Luterano) em Joinville, Valdete Daufemback Niehues, os vândalos não têm ciência de que o público pertence à comunidade. Ou seja, de que espaços como os parques, por exemplo, são construídos com dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos. “Ele não tem noção de que se trata de dinheiro público. A cultura de que o que é público não é de ninguém, é do governo”.

Algumas pessoas, detalha Valdete, já trazem este tipo de atitude de casa. “Elas não têm noção de que é um espaço para todas as pessoas, repetem aquilo que é da sua cultura”. Outros, no entanto, destroem os bens públicos de propósito. Normalmente quando estão em grupo. “Em grupo as pessoas mudam, ganham coragem e fazem coisas que não fariam sozinhas”.

A socióloga ainda destaca a responsabilidade do poder público. Ela aponta que se o próprio setor descuida do patrimônio, o usuário não vê porque respeitá-lo. “Em Joinville eu percebo que o setor público é tão relaxado quanto o cidadão. O Governo não dá o exemplo”. Um dos problemas, segundo Valdete, é que falta segurança nos parques.

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