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Operação da PF investiga fiscalização irregular e comercialização de carne podre em SC

Entre as empresas envolvidas na investigação estão a BRF, com sede em Itajaí, JBS e Seara, ambas também com unidades em Santa Catarina

Redação ND
Florianópolis
17/03/2017 às 13H04

A Polícia Federal deflagrou na manhã desta sexta-feira (17) a operação Carne Fraca, que combate a venda ilegal de carnes com mandados em Santa Catarina e em mais seis estados. Mais de 1.100 policiais estão envolvidos na ação. A operação apura o envolvimento de fiscais do Mapa (Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento) em um esquema de liberação de licenças e fiscalização irregular de frigoríficos.

Algumas das maiores empresas do país estão envolvidas na prática criminosa. Entre elas estão a BRF,  a maior empresa privada de Santa Catarina com sede em Itajaí (que tem entre as principais marcas Sadia e Perdigão), JBS e Seara, ambas também com unidades em Santa Catarina. 

Polícia Federal - Agência Brasil/Divulgação/ND
A ação é cumprida em seis estados e no Distrito Federal - Agência Brasil/Divulgação/ND

O ministro da Justiça, Osmar Serraglio, também é citado na investigação. Ele aparece em grampo interceptado pela operação conversando com o suposto líder do esquema criminoso, o qual chama de "grande chefe".

O objetivo é desarticular uma suposta organização criminosa liderada por fiscais agropecuários do Ministério da Agricultura, que, com o pagamento de propina, facilitavam a produção de produtos adulterados, emitindo certificados sanitários sem fiscalização.

A investigação revelou até mesmo o uso de carnes podres, maquiadas com ácido ascórbico, por alguns frigoríficos, e a re-embalagem de produtos vencidos. Entre os presos, estão executivos da BRF como Roney Nogueira dos Santos, gerente de relações institucionais e governamentais, e André Baldissera, diretor da BRF para o Centro-Oeste.

Também estão na lista funcionários da Seara e do frigorífico Peccin -um dos que tinha irregularidades gravíssimas, como uso de carnes podres, segundo a PF-, além de fiscais do Ministério da Agricultura.

>> Catarinense está entre os presos da Operação Carne Fraca

A investigação aponta que os frigoríficos exerciam influência direta no Ministério da Agricultura para escolher os servidores que iriam efetuar as fiscalizações na empresa, por meio do pagamento de vantagens indevidas. Roney dos Santos, executivo da BRF, tinha acesso inclusive ao login e senha do sistema de processos administrativos do órgão, de uso interno.

"Parece realismo mágico. Infelizmente, não é", diz o juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal do Paraná, que determinou as prisões. "Dedo", "luva" e "documento" eram alguns dos termos usados pelos fiscais agropecuários para o pedido de propina. Mas até mesmo caixas de carne, frango, pizzas, ração para animais e botas eram dadas em favor pela vista grossa na fiscalização, diz o juiz Josegrei.

>> Carne da BRF com Salmonella foi barrada na Europa

"É um cenário desolador", afirma Josegrei. "Resta claro o poderio de intimidação, de influência e de uso abusivo dos cargos públicos que ostentam para se locupletarem, recebendo somas variáveis de dinheiro e benesses in natura das empresas que deveriam fiscalizar com isenção e profissionalismo."

De acordo com a Receita Federal, que também participa da investigação, os fiscais valeram-se de distribuição de lucros e dividendos de empresas fantasmas, da montagem de redes de fast food em nome de testas de ferro e da compra de imóveis em nome de terceiros para esconder o aumento de patrimônio.

Operação histórica na Polícia Federal

Ainda conforme a PF, os fiscais atuavam pedindo propina para empresários, que, em troca, poderiam indicar quem exerceria a fiscalização nas empresas. São cumpridos 26 mandados de prisão preventiva, 11 de prisão temporária e 79 de conduções coercitivas (quando a pessoa é levada apenas para depoimento).  Também há outros 195 mandados são de busca e apreensão. Segundo a PF, essa é a maior operação já realizada na história da instituição

A Justiça determinou o bloqueio de R$ 1 bilhão, de todos os investigados no caso. A ação acontece em São Paulo, Distrito Federal, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Goiás. Conforme a Polícia Federal, o nome da operação é em referência a uma expressão popular que está em sintonia com a má qualidade dos alimentos vendidos pelas empresas.

MAIOR OPERAÇÃO

Segundo a PF, essa é a maior operação já realizada na história da instituição. Foram mobilizados 1.100 policiais em seis Estados (Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Goiás) e no Distrito Federal.

Em nota, a Polícia Federal afirma que detectou em quase dois anos de investigação que as superintendências regionais do Ministério da Pesca e Agricultura dos Estados do Paraná, Minas Gerais e Goiás atuavam para proteger empresas, prejudicado o interesse público.

O esquema, ainda segundo os investigadores, funcionava por meio de agentes públicos que se utilizavam do poder de fiscalização para cobrar propina e, em contrapartida, facilitar a produção de alimentos adulterados, emitindo certificados sanitários sem qualquer fiscalização.

Dentre as ilegalidades praticadas pela suposta quadrilha está a remoção de agentes públicos com desvio de finalidade para atender interesses dos grupos empresariais.

O nome "Carne Fraca" da operação faz alusão à conhecida expressão popular em sintonia com a própria qualidade dos alimentos fornecidos ao consumidor por grandes grupos corporativos do ramo alimentício.

A expressão popular também mostra "a fragilidade moral de agentes públicos federais que deveriam zelar e fiscalizar a qualidade dos alimentos fornecidos a sociedade".

Confira a lista de empresas sob investigação:

- Santa Ana Comercio De Alimentos LTDA

- Dalchem Gestão Empresarial LTDA

- Fênix Fertilizantes LTDA

- Multicarnes Representacoes Comerciais Ltda

- Doggato Clínica Veterinária LTDA ME,

- Unifrango Agroindustrial S/A, Mc Artacho Cia Ltda

- Frigomax - Frigorifico E Comercio De Carnes Ltda

- Smartmeal Comercio de Alimentos LTDA

- Sub Royal Comercio De Alimentos

- Unidos Comércio De Alimentos Ltda

- Bio-Tee Sul Am. Ind. De Prod. Quím. E Op. Ltda, Primor Beef

- Jjz Alimentos S.A

- Peccin Agro Industrial Ltda

- Uru Pfp-produtos Frigorificados Peccin Ltda

- Frigorífico Souza Ramos LTDA

- Big Frango Indústria E Com. De Alimentos Ltda

- Principio-Alimentos Ltda Me

- Frigorífico Rainha da Paz

- Frango a Gosto

- Frigorífico 3D

- Jaguafrangos Industria E Com. De Alimentos Ltda

- Pavin Fertil Industria E Transporte Ltda

- Primocal ind. E com. De fertilizantes ltda

- Fortesolo Servicos Integrados Ltda

- Fratelli E.H. Constantino

- Sidnei Donizeti Bottazzari ME

- Medeiros, Emerick & Advogados Associados

- Seara Alimentos LTDA

- Dagranja Agroindustrial LTDA

- Frigorífico Argus LTDA

- BRF - BRASIL FOODS

- JBS S/A

- Pessoas com prisão preventiva decretada:

1. Carlos Cesar - fiscal agropecuário

2. Daniel Gonçalves Filho - fiscal agropecuário apontado como líder do esquema

3. Eraldo Cavalcanti Sobrinho - fiscal agropecuário

4. Fabio Zanon Simão - assessor parlamentar do Ministério da Agricultura

5. Flavio Evers Cassou - funcionário da Seara, ligada à JBS, e ex-fiscal agropecuário

6. Gercio Luiz Bonesi - fiscal agropecuário

7. Gil Bueno de Magalhães - atual superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná

8. Idair Antonio Piccin - proprietário do frigorífico Peccin

9. José Eduardo Nogalli Giannetti - funcionário do frigorífico Peccin

10. Josenei Manoel Pinto - fiscal agropecuário

11. Juarez José De Santana - fiscal agropecuário chefe da unidade de Londrina

12. Luiz Carlos Zanon Junior - fiscal agropecuário

13. Maria Do Rocio Nascimento - fiscal agropecuário

14. Nair Klein Piccin - sócia do frigorífico Peccin

15. Nilson Alves Ribeiro - sócio do Frigobeto Frigoríficos

16. Nilson Umberto Saccheli Ribeiro - pai de Nilson Alves Ribeiro, sócio do Frigobeto Frigoríficos

17 Normélio Peccin Filho - sócio do frigorífico Peccin

18. Paulo Rogério Sposito - dono do frigorífico Larissa

19. Renato Menon - fiscal agropecuário

20. Roberto Brasiliano Da Silva - ex-assessor parlamentar envolvido no esquema dos fiscais

21. Roney Nogueira Dos Santos - gerente de Relações Institucionais da BRF

22. Sebastião Machado Ferreira - fiscal agropecuário

23. Sergio Antonio De Bassi Pianaro - fiscal agropecuário

24. Tarcísio Almeida De Freitas - fiscal agropecuário

25. André Luis Baldissera - diretor da BRF para o Centro-Oeste

26. Dinis Lourenço Da Silva - fiscal agropecuário em Goiás

- Pessoas com prisão temporária decretada:

1. Alice Mitico Nojiri Gonçalves - mulher do fiscal apontado como líder do esquema

2. Brandízio Dario Junior - fiscal agropecuário

3. Celso Dittert De Camargo - fiscal agropecuário

4. Leomar José Sarti - funcionário da Codapar (Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Paraná)

5. Luiz Alberto Patzer - fiscal agropecuário

6. Marcelo Tursi Toledo - fiscal agropecuário

7. Osvaldo José Antoniassi - fiscal agropecuário

8. Rafael Nojiri Gonçalves - filho do fiscal apontado como líder do esquema

9. Sidiomar De Campos - funcionário do MAPA em Londrina

10. Antonio Garcez Da Luz - fiscal agropecuário

11. Mariana Bertipaglia De Santana - sócia de um frigorífico

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