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Segunda-Feira, 12 de Novembro de 2018
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O adeus à velha senhora

Após 56 anos em produção, a Kombi chega ao fim da linha. Veículo mais antigo em produção no Brasil vai deixar saudades

Marco Túlio Brüning
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Ana Luiza sonha em ter sua Kombi em tamanho real um dia


Era uma quarta-feira, 23 de abril de 1947. O comerciante holandês Ben Pon estava em Wolfsburg, Alemanha, na fábrica da Volkswagen, para uma reunião objetivando tornar-se o importador do Fusca para seu país. Enquanto aguardava, ele avistou um estranho veículo que os funcionários usavam para transportar as mais variadas cargas pela fábrica e que era chamado por eles de “Plattenwagen”. Nada mais era do que um chassis de Fusca com uma cabine de madeira para duas pessoas sobre o motor traseiro, e uma plataforma para acomodar qualquer coisa que precisasse ser carregada.

Nesse momento, Ben Pon percebeu que era possível fazer algo melhor usando o chassis e a mecânica básica do Fusca. Ele pegou seu bloco de anotações, uma caneta e fez um rascunho que garantiria seu lugar na história: o de um veículo comercial de formato oblongo “Kombinationsfahrzeug” (combinação do espaço para carga e passeio, em alemão), ou no diminutivo, Kombi.

Reprodução internet/ND
O "Plattenwagen" e os esboços de Ben pon sobre o que viria a ser a "Kombinationsfahrzeug"


No conceito de Pon, a Kombi deveria pesar 750 kg e ser capaz de levar o equivalente ao seu peso, outros 750 kg, de carga. Ele mostrou os rabiscos para os engenheiros da VW e, um ano depois, recebeu a mensagem de que seu projeto havia sido aprovado. Ele tornou-se assim, oficialmente, o pai da Kombi. Em 12 de novembro de 1949 o protótipo final da Kombi é completado na fábrica da VW e aprovado pessoalmente pelo presidente da empresa, Heinz Nordhoff, em Wolfsburg. A primeira Kombi de série deixou a fábrica em 8 de março de 1950.

O que Ben Pon não sabia é que seu invento se tornaria o veículo em produção há mais tempo em todo o mundo, sobre a mesma estrutura básica e sem grandes modificações. Montada no Brasil pela Brasmotor desde 1953, com peças importadas, e fabricada pela VW desde 1957, a Kombi totalizará 63 anos em produção quando finalmente abandonará as linhas de montagem em 31 de dezembro de 2013, por causa da obrigatoriedade de todos os veículos fabricados no país a partir de 2014 serem equipados com airbags e ABS.

Como não é viável adaptar tais dispositivos em um projeto tão antigo e ultrapassado, a VW anunciou em 14 de agosto a série final da Kombi, chamada de Last Edition. Serão apenas 600 unidades numeradas.

Volkswagen do Brasil/Divulgação/ND
  


Última edição: Pintura especial saia e blusa de duas cores (azul e branco), faixas brancas nos pneus, acabamento luxuoso no interior com forração especial, cortinas com logo bordado e som com MP3, leitor de cartão SD e entrada USB. O preço é de R$ 85 mil.

Volkswagen do Brasil/Divulgação/ND


Ícone de gerações

Inconfundível. Linhas quadradas e característico estilo “pão de forma”

Quem nunca pensou em ter uma “Kombinationsfahrzeug”, ao menos já andou numa ou a viu desfilando pelas ruas brasileiras. Não há como ficar indiferente às suas formas no característico estilo “pão Pullman”. Linhas antiquadas, quadradas, ambiente interno simples, mas capaz de acomodar um time de futebol inteiro. E o volante, que nas mais antigas se parece com uma roda gigante? Era até motivo de piadas, pois era defeito crônico que depois de um tempo apresentasse não uma folga no centro, mas sim férias.

O motor merece capítulo à parte. Instalado na parte de trás, até pouco tempo era refrigerado a ar, uma raridade. A tração mantém a tradição de ser traseira, como os sofisticados BMWs. Realmente a Kombi é um carro único. Com sua robustez, enfrenta estradas esburacadas de terra, asfalto, sobe a serra e no domingo ainda leva toda a família para uma farofada na praia.
O primeiro veículo Volkswagen fabricado no Brasil já foi ambulância, carro de bombeiros, van hippie, veículo de cargas no Ceasa, e se mesclou tanto na cultura popular em todo o mundo que hoje é objeto de desejo de jovens, casais e famílias que a desejam curtir em passeios pelo litoral ou excursões ao redor do mundo.

É o caso de Ana Luiza Varella Rosa, estudante de Publicidade e Propaganda que nasceu em 1992, ano em que a Kombi, já com 35 anos de Brasil, ganhava como novidade o catalisador. Fã do estilo Pin-up e moda retrô, Ana tem uma miniatura que carinhosamente chama de Manga Rosa, mas deseja uma de verdade. “Kombis são lindas e fofas e meu sonho é ter uma um dia”, diz.

Marco Santiago/ND
Ana Luiza mostra sua miniatura que carinhosamente chama de "Manga Rosa"


Pelo litoral do Brasil rodando em família

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Kombi 1975 de Fabio é o carro perfeito para as atividades de lazer


O administrador de empresas Fabio Andrade de Araújo, 41 anos, morador de Florianópolis, encontrou na sua Kombi 1975 uma maneira de expressar seu modo de vida. Ele sempre gostou de Volkswagens, é dono de um Fusca 1964, mas é passeando na “Minha senhora” com a esposa Dayana, 37, a filha Maya, 8, e a yorkshire Loba, 1 e ½, que se realiza.

Viciado em antiguidades, Fabio passou a reformar Kombis antigas em 2005 para enviá-las ao exterior, e em cinco anos exportou duas dezenas para países como Estados Unidos, Inglaterra, Holanda e Alemanha. Há sete anos uma delas chamou sua atenção e ele resolveu guardá-la pelo seu estado de conservação.

Marco Santiago/ND
Fabio, Maya e Dayana não escondem sua predileção pelo carro mais querido do Brasil


O programa familiar preferido pela família no inverno é sair após o almoço de domingo, rumando para a Lagoa da Conceição. “Chegando lá, estendemos uma toalha no gramado e ficamos ‘jiboiando’ no solzinho gostoso”, conta o aficionado.

Já no verão, o rumo é a praia, pois segundo ele dá para levar tudo, das cadeiras de praia até o o isopor com a gelada. “Sem falar na hora da balada com os amigos, quando já vai todo mundo esquentando, menos o motorista, é claro. A Kombi serve de muitas funções, principalmente na hora dos quebra galhos. É um verdadeiro pau pra toda obra”.

Neste final de semana toda a família estará em Curitiba para o encontro anual de Kombis antigas.

Histórias de Alice ao redor do mundo

Reprodução internet/Divulgação/ND
De transportadora de verduras a "Kombi home", trajetória de Alice guarda muitos causos


Os carros – como as pessoas – têm suas histórias. A desta Kombi, chamada Alice, começa semelhante a de qualquer outra Kombi: foi fabricada em 2006 em São Bernardo do Campo e depois transportada para uma concessionária em Curitiba, capital do Paraná. Então foi comprada para trabalhar num supermercado.

Seus primeiros 75 mil quilômetros foram rodados a serviço de levar compras daqui para ali e buscar verduras no Ceasa. Numa certa manhã, o dono do supermercado decidiu renovar a frota e a Alice – que ainda não havia ganhado este nome – foi parar em uma loja de carros usados. Ficou um tempo ali, a venda pelo valor de R$ 20 mil, a espera que alguém que a quisesse comprar.

Enquanto isso, em Florianópolis, um casal planejava viver dentro de um carro. Marcelo e Lyane resolveram comprar a Kombi, e a levaram para Itu, no interior de São Paulo, para uma grande transformação. Foi quando Alice ganhou nome, blog e virou uma “Kombi home”.

Depois de um ano que havia trocado de mãos, e de apenas dois meses de viagens pelas regiões Sul e Sudeste do Brasil, Marcelo e Lyane ficaram grávidos e colocaram a Kombi novamente a venda.

Era setembro de 2009, e outro casal, dessa vez em São Paulo, ansiava por deixar sua casa e sair viajando pelo mundo. Ao procurar o carro ideal, descobriram Alice na tela do computador. Foi amor à primeira vista. Pelos próximos dois anos, Franco e Inês percorreram diversos lugares registrando histórias narradas por pessoas simples, investigando e fotografando seu modo de ser e de viver para compor uma coletânea dos causos narrados pelos protagonistas e seu modo de ser e fazer cultura. Um projeto chamado Histórias de Alice.

Ao final desse desafio, o casal de viajantes se propôs uma aventura ainda maior: a volta ao mundo de Kombi em 1.825 dias. É o voudekombi.com, que percorerrá 200 mil quilômetros nos continentes americano, europeu, asiático e africano. Neste instante, Alice está em Montevidéu, capital do Uruguai.

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