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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Nutricionista Sophie Deram fala sobre obesidade infantil e questiona benefícios das dietas

Em entrevista ao ND, a francesa Sophie Deram fala sobre o "terrorismo nutricional" e aponta hábitos saudáveis para combater a obesidade

Rafael Thomé
Florianópolis
Flávio Tin/ND
 Sophie diz que as pessoas precisam ter uma relação mais “tranquila” em relação à comida


“O Brasil é um país muito doce, mas o paladar também”. A nutricionista francesa Sophie Deram, naturalizada brasileira há 11 anos, ganhou fama após a publicação de seu best-seller “O peso das dietas”, que questiona os benefícios da restrição alimentar. Na terça-feira, Sophie esteve em Florianópolis para uma palestra sobre o assunto e aproveitou para conversar com o Notícias do Dia. Além de criticar o “terrorismo nutricional” das dietas, ela aproveitou para apontar bons hábitos para combater, principalmente, o problema da obesidade infantil. Nessa batalha, Sophie considera importante, por exemplo, que as famílias preservem as refeições – café da manhã, almoço ou jantar – em família.

Qual o grande problema das dietas?
Hoje, infelizmente, a gente vê que tem muita ansiedade, culpa e dificuldade de saber o que comer, inclusive dificuldade de saber como lidar com os filhos. Comecei minha pesquisa e meu ativismo contra dietas em crianças, mesmo as obesas. Sempre falo: “não faça dieta”. Quando você faz uma dieta em uma criança que está em crescimento, você joga uma bomba no cérebro, e a criança só fica obcecada por comer. Aumenta o apetite e altera toda a relação da criança com a comida.

Cortar o carboidrato de noite ou comer a cada três horas funciona?
Restrição, no sentido de emagrecer, é prejudicial. Não comer carboidrato à noite é um mito, não tem sentido científico. Temos que deixar de ficar com nossas crenças cada vez mais rígidas, pensando que têm regras absolutas, se não a gente vai engordar de vez. Infelizmente, as pessoas estão perdidas. Na França, na Itália e no Japão, por exemplo, as pessoas comem carboidratos à noite e as populações não são obesas. Não é o carboidrato à noite que vai mudar o patamar. Dentro do seu dia a dia, é interessante ter refeições adequadas, um café da manhã com cara de café da manhã, o almoço a mesma coisa, lanche da tarde, jantar. Outro mito que tento desmistificar é aquele de comer a cada três horas. Se você tomou um bom café da manhã, você não vai ter fome depois de três horas. Se você comer sem fome, pode aumentar a glicemia e o risco de engordar. Não são as regras rígidas que você deveria seguir. Você deveria escutar seu corpo.

Como os pais podem agir para evitar a obesidade dos filhos?
O papel deles é ter a disciplina de estabelecer rotinas, mas também oferecer qualidade. Pode ser alimento industrializado de vez em quando, mas de preferência comidas “verdadeiras”, feitas em casa. Não precisa ser 100%, mas não dá para depender da indústria para nutrir o filho. Mesmo que os pais sejam responsáveis pela rotina e qualidade da alimentação, o dono da fome é a criança. Por isso, quem não respeitar essa fome enfrentará uma criança com apetite cada vez maior e com mais vontade de comer escondido.

Qual a importância das refeições em família?
São essenciais. Hoje, quando você avalia os fatores que aumentam a prevenção contra a obesidade, há algumas coisas: comer juntos, respeitar os horários e ser ativo fisicamente, não ficar muito preso à TV. Nesses fatores, não entra comida. É mais uma questão de rotina, de qualidade de vida, do que a criança vai comer mesmo. A dica que dou aos pais é que não fiquem obcecados por dietas, mas mudem o meio ambiente da criança, deixem com mais horário para dormir, com uma rotina bem estabelecida, tomar café antes de ir para a escola, almoçar bem, comer um lanche da tarde e jantar. De preferência, tentar fazer uma refeição juntos. Sei que é difícil hoje em dia, mas se não consegue jantar, pode tentar fazer um café da manhã. Se não dá durante a semana, tente no final de semana. Comer junto é associado não somente a uma criança que come melhor – que aceita mais legumes e frutas –, mas também uma criança que tem menos risco de obesidade, que vai melhor na escola e tem menos risco de consumir drogas na adolescência. Comer junto é uma das coisas mais importantes na dinâmica familiar.

Como mudar os hábitos alimentares, principalmente o das crianças?
Primeiro, é preciso mudar você mesmo, porque o exemplo é muito importante. Não adianta falar de criança se a gente não mudar a cabeça dos pais. Reveja suas crenças sobre nutrição, pare de fazer dieta o tempo todo e pare de chamar as crianças de gordas e dizer que têm que parar de comer açúcar, lactose, glúten. Isso assusta. É preciso ter uma atitude mais tranquila à frente da comida, dando o exemplo. A criança vai seguir automaticamente, sem esforço. Não precisa fazer uma revolução, o que é interessante é o progresso, não a perfeição. Aos poucos, tente comer com horários mais regulados, cozinhar mais, almoçar ou jantar com os filhos.

Como ajudar a manter a boa alimentação dos filhos fora de casa?
Você pode ter o controle dentro da casa, mas não fora. O seu filho tem que seguir o grupo, não adianta dar como lanche uma maçã, castanha-do-Pará, caju e água, quando o colega vai ter tudo industrializado. O seu filho vai se sentir totalmente fora da caixa e não vai estar feliz. O interessante é conversar, dizer o que é mais adequado, mas fazer algumas permissões.

Que dicas de alimentação você dá para os pais que querem mudar os hábitos?
Ao contrário do que muitos dizem, não é todo alimento industrializado que é ruim. Não gosto da dicotomia ‘alimento bom, alimento ruim’. A gente escuta cada vez mais que temos que comer tudo natural, mas há exageros. A indústria produz alimentos de qualidade, mas tem que ser esperto, não depender só da indústria. Os alimentos mais importantes a serem diminuídos são os ultraprocessados. São três dicas básicas: não faça dieta, coma mais alimentos “verdadeiros” e menos industrializados (não quer dizer zero) e cozinhe.

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