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Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
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Novos dirigentes querem alterar sistemática prisional de Joinville

Integração, ressocialização e humanização são os pilares para a atuação no presídio regional e penitenciária industrial

Adrieli Evarini
Joinville

De um lado Marcelo Ribas, 33 anos, gerente do Presídio Regional de Joinville. Do outro, João Renato Schiiter, 35, diretor da Penitenciária Industrial de Joinville e responsável por outras seis unidades (uma em construção) – Porto União, Canoinhas, Mafra, São Francisco do Sul, Jaraguá do Sul e São Bento do Sul. Mas o trabalho desenvolvido pelos dois não é de lados opostos e sim de parceria. “Tem gente que acha que o Presídio está à sombra da Penitenciária, mas é uma coisa só, é verdadeiramente um complexo”, destaca João.

 

Carlos Junior/ND
Trabalho conjunto. Marcelo Ribas (esquerda), gerente do presídio, e João Renato Schiiter, diretor da penitenciária industrial

 

Apesar da diferença estrutural e organizacional das duas unidades que fazem parte do Complexo Penitenciário de Joinville, no bairro Paranaguamirim, zona Sul da cidade, as ideias, projetos e, principalmente, os pilares que norteiam o trabalho dos dois é o mesmo: integração, ressocialização e humanização no sistema penitenciário. Desde o primeiro dia do mês de abril, Marcelo Ribas assumia a gerência do Presídio enquanto, logo ao lado, João Renato Schitter colocava seu nome como novo diretor da Penitenciária.

A transição, que começou ainda no final de 2015, estreitou os laços entre os dois, afinal, foi João quem trouxe Marcelo de volta a Joinville. No momento do convite, ele trabalhava na unidade prisional de Itajaí e voltou à cidade a pedido de João, como chefe de segurança do Presídio, onde o atual diretor da Penitenciária ainda era o gerente. O convite já tinha como intenção preparar a transição para que Marcelo assumisse a frente do Presídio. Daí, a parceria e sintonia entre os dois gestores.

Após meses de preparação, os dois assumiram seus novos cargos. Mesmo com toda a preparação, experiência e os quase 30 dias no dia a dia das respectivas unidades, os desafios são diários e, esses sim, de tom bem distinto. Para Marcelo, o desafio já começa na estrutura física do Presídio que atua acima de sua capacidade – hoje o local abriga em média 750 apenados e o prédio possui 585 vagas, os projetos de trabalho e de ensino são limitados. Para João, que já coordenou outras quatro unidades prisionais antes de assumir a Penitenciária, o principal desafio está longe da infraestrutura do prédio ou da organização de trabalho e educação.

A readequação a um sistema de cogestão é o desafio do novo diretor. Na Penitenciária, existem gerências que auxiliam no trabalho administrativo e, para ele, a adaptação a essa nova realidade é o maior desafio em um primeiro momento, mas, ambos possuem ambições maiores para o Complexo. “O maior desafio mesmo é trabalhar na ressocialização para que eles retornem melhores para a sociedade e reinseridos, de fato”, enfatiza João.

Marcelo quer continuar o trabalho que João iniciou em outubro, quando assumiu o presídio e para isso, ele elege três pilares fundamentais: melhorar as condições de trabalho dos funcionários, melhorar e humanizar o tratamento às visitas, melhorar o sistema para o detento. E para alcançar esses objetivos já está no planejamento a construção de novas alas, de oficinas de trabalho, de pelo menos mais uma sala de aula – hoje a unidade possui apenas uma e de uso exclusivo para os apenados homens –, reforma e ampliação da biblioteca. “Se a gente conseguir levar essas três frentes, as outras consequentemente vão caminhar. O desafio é fazer tudo que a gente está planejando. Fazer isso virar realidade em um curto espaço de tempo. As intenções boas existem, a execução nem sempre dependem apenas de nós”, ressalta.

Com perfis distintos, os apenados do presídio e da penitenciária também estão em realidades muito diferentes. Enquanto os primeiros vivem em uma estrutura antiga que passou por diversas reformas e apresenta inúmeras deficiências, sem muitas oportunidades de trabalho ou estudo, sem sequer um local próprio para visita íntima, os segundos passam os dias em um prédio com boa estrutura, oficinas de trabalho e qualificação e quartos apropriados para visitas íntimas e essa diferença na qualidade de vida influencia no comportamento dos detentos.

João afirma que o perfil dos detentos do presídio é, em sua maioria, de presos primários, de 18 a 25 anos e com personalidade diferente dos apenados da penitenciária. Marcelo explica que a principal reclamação deles é em relação à lotação da unidade, ao procedimento de visita e a falta de oficinas de trabalho. Como o Presídio é teoricamente um local de passagem, de aguardar o andamento do processo, o julgamento e a sentença, a rotatividade é muito grande e, como os detentos ainda não têm total consciência de sua condição, é o momento, segundo Marcelo, de disciplinar o preso para o sistema penitenciário. Ao contrário, os apenados da Penitenciária já receberam sua sentença e, de acordo com João, já sabem de sua condição dentro do sistema penitenciário.

Para melhorar todo o sistema penitenciário de Joinville, desde a infraestrutura até os serviços oferecidos, a estratégia dos gestores é realizar um planejamento estratégico a médio e longo prazo, realizando medidas mais preventivas do que corretivas. A aproximação entre eles e outros órgãos é, segundo eles, fundamental para que os projetos se tornem realidade.

“O próprio departamento está pensando lá na frente. Buscamos estreitar os laços com a Defensoria Pública, Ministério Público e com o Judiciário para dar maior transparência ao nosso trabalho”, explica João. “Queremos garantir os direitos e cobrar os deveres e com as melhorias o reflexo será sentido no dia a dia dos apenados”, completa Marcelo.

 

Iniciativas

Na noite do dia 28 de abril, a Penitenciária Industrial de Joinville teve um clima bem diferente do habitual. Os detentos e familiares respiraram literatura, e literatura feita por eles próprios. Foi o lançamento do livro “Contos Tirados de Mim, A Literatura no Cárcere”. São 17 contos escritos pelos detentos, reunidos em um livro. “Eles esperam que os familiares tenham orgulho deles”, conta João Renato Schiiter, diretor da Penitenciária Industrial de Joinville.

Além da iniciativa pioneira, outros projetos de ressocialização são desenvolvidos no Complexo Penitenciário. Oficinas de trabalho, trabalho externo, cursos técnicos estão entre as atividades desenvolvidas para humanizar e buscar ressocializar os apenados.

Neste ano, os detentos do Presídio Regional de Joinville podem ter uma novidade em outubro. O gerente Marcelo Ribas conta que existe a possibilidade de uma urna eletrônica ser instalada na unidade, possibilitando a participação nas eleições municipais. Todo o levantamento está sendo realizado para permitir a participação dos detentos. “É uma maneira de eles se sentirem, de fato, parte disso. Aqui dentro eles começam a ver de uma maneira diferente. É um passo importante para que eles se sintam parte da sociedade”, destaca. 

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