Publicidade
Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 30º C
  • 22º C

Novo reitor da UFSC, Luis Carlos Cancellier, defende gestão mais prática e menos ideológica

Confira a entrevista do ND com o novo reitor da Universidade Federal de Santa Catarina

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis

Quando entrou na reta final da campanha para a reitoria da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em outubro de 2015, o professor Luis Carlos Cancellier de Olivo defendia uma gestão descentralizada, mais liberdade para a pesquisa, a retomada das boas parcerias com o setor produtivo e o “restabelecimento do clima de confiança e unidade interna”, essencial para “resgatar a identidade e o orgulho de ser da universidade”. Seis meses depois de vencer a eleição, em segundo turno, com 47,42% dos votos válidos, ele está assumindo o posto da maior instituição de ensino superior do Estado com as mesmas propostas, mas com um diagnóstico mais realista da situação interna. No primeiro momento, mais que investir na excelência acadêmica, urge apagar incêndios – ou seja, criar condições para que a universidade funcione a contento, dando conta, minimamente, de suas funções.

 

Ao sentar na cadeira de reitor, na próxima terça-feira, dia 10, Cancellier estará prestes a instalar o Conselho de Gestão, composto por pró-reitores, secretários e diretores dos 11 centros de ensino, além dos diretores dos campi de Joinville, Araranguá, Curitibanos e Blumenau. Assim, ele pretende dar voz ativa a quem está na linha de frente e conhece as carências de cada unidade, departamento, laboratório e sala de aula da universidade. “Nos últimos meses, estudamos a medidas a serem tomadas, visitamos entidades da indústria e da agricultura e parlamentares que representam o Estado no Senado e na Câmara dos Deputados, porque tanto as ações no setor produtivo quanto no meio político podem ter reflexos no ambiente interno da instituição”, afirma o futuro reitor. Ele terá como vice-reitora a professora Alacoque Lorenzini Erdmann, do CCS (Centro de Ciências da Saúde).

Rafael Carvalho/ND
Campus Florianópolis da UFSC

Entre as prioridades dos quatro anos de mandato está a construção de sedes em Joinville, Blumenau e Araranguá, onde as instalações são alugadas, gerando despesas que poderiam ser eliminadas. Há muitos problemas de instalações que prejudicam até as aulas na graduação. “Sem desprezar o ensino, a pesquisa e a extensão, que são importantes, precisamos resolver a base, a infraestrutura”, diz Cancellier. Os campi do Sul do Estado e do Vale do Itajaí terão cursos de Medicina, mas ainda não contam com sedes próprias. A nova gestão também enfrentará debates difíceis, como a redução da jornada para 30 horas semanais, a transição do HU (Hospital Universitário) para a Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares) e a questão da segurança no campus, que vem desafiando distintas administrações da universidade.

 

Da redação para a reitoria

Luis Carlos Cancellier de Olivo, 57 anos, é natural de Tubarão. Em 1977, ingressou no curso de Direito da UFSC e como universitário engajou-se no movimento estudantil, que era um foco de resistência à ditadura militar. Interrompeu os estudos para trabalhar como jornalista, em “O Estado” (Florianópolis) e em Brasília, assessorando parlamentares catarinenses. Também participou ativamente das campanhas pela anistia, pelas diretas-já, pela eleição de Tancredo Neves e pela Constituinte, além do movimento Fora Collor. Em 1996, retomou os estudos, concluindo a graduação em Direito e fazendo em seguida mestrado e doutorado na mesma área. Hoje, é professor e diretor do CCJ (Centro de Ciências Jurídicas) da universidade.

Cancellier tem livros e artigos publicados sobre temas jurídicos e exerce uma série de atividades ligadas ao Direito Administrativo e à Administração Pública. Na campanha vitoriosa para a reitoria, em 2015, pelo movimento “A UFSC Pode Mais”, defendeu um modelo de administração que resgatasse a excelência e a eficiência na instituição, apostando na descentralização da gestão e na valorização e participação de todos os centros e unidades da universidade nas tomadas de decisão.

 

ENTREVISTA

Que medidas tomará logo após assumir a reitoria da UFSC?

Vamos colocar em ação o plano divulgado na campanha, no ano passado, que falava em universidade democrática, autônoma, plural e saudável. A gestão será compartilhada e teremos o aconselhamento de ex-reitores, que têm muito a nos ajudar e que estiveram distanciados nos últimos anos. Vamos criar as secretarias de Esportes, Segurança, Inovação, Obras, Educação a Distância (que já existiu e foi desativada) e Ações Afirmativas e Diversidade, que atende a uma nova realidade na universidade e fora dela. Mas o primeiro ato será a instalação do Conselho de Gestão, que será uma instância permanente de assessoramento do reitor, porque têm conhecimento de todos os problemas da instituição.

Marco Santiago/ND

Na campanha, o sr. falou também em promover uma reaproximação com a iniciativa privada, que sempre foi parceira da UFSC...

É preciso quebrar as barreiras ideológicas que hoje inibem esse relacionamento. Os cursos de Engenharia, por exemplo, sempre tiveram muito contato com as empresas. Elas financiam as pesquisas e assim viabilizam uma troca importante com a graduação e a pós-graduação. Só para citar um exemplo, foi a partir das pesquisas nos laboratórios do CCA (Centro de Ciências Agrárias) que Santa Catarina se tornou líder na produção de ostras e mariscos no país. Nos últimos anos foram criados mecanismos que atrapalharam essa relação com as empresas privadas. Esse intercâmbio tem regras, por isso exige o cuidado da Procuradoria da universidade e das pró-reitorias, mas não se pode tolher a iniciativa dos pesquisadores por causa das ideologias.

Isso pode ajudar na parte financeira, já que houve cortes nos repasses federais para as universidades nos últimos anos?

O orçamento da universidade para este ano é de R$ 216 milhões, mas nem tudo é repassado pelo governo federal. O déficit mensal é de R$ 4,5 milhões, e só de janeiro para cá o rombo chegou a R$ 18 milhões. Com o pagamento da folha, o volume anual chega a R$ 1,2 bilhão, mas esta parte é paga diretamente por Brasília. Há capacidade de empenho, porém falta o dinheiro na mão. Por causa dos contingenciamentos do governo, a cada mês é preciso pedir mais verba para fechar as contas, passando o pires em Brasília, porque os ministérios do Planejamento, Saúde, Turismo e Ciência e Tecnologia também são fontes de recursos. Neste sentido, a participação das empresas privadas pode representar um importante aporte extraorçamentário.

Como pretende resolver os problemas de segurança e a questão das festas no campus de Florianópolis, que colocaram a comunidade do entorno contra a UFSC nos últimos anos?

Os assaltos, roubos, agressões, tentativas de estupros e furtos de celulares e veículos podem ser enfrentados pela segurança interna, mas não há impedimentos para que a Polícia Militar faça rondas no campus. Também se pode investir em mais equipamentos de videomonitoramento e na melhoria da iluminação noturna. Cercar o campus é outra discussão. Hoje, os quatro acessos são fechados à noite. Quanto às festas, hoje há resíduos delas, apenas. Essa é uma questão que precisa ser negociada com os estudantes, porque na força não vai resolver. É proibido vender cigarros e bebida alcoólica na UFSC, mas é necessário regulamentar isso e fazer cumprir o Código de Posturas do município, por causa do tráfico de drogas que existe em algumas partes do entorno.

Cada administração da universidade muda a estrutura para atender às demandas que acha necessárias e para corrigir eventuais deficiências operacionais. Onde pretende promover alterações?

Vamos criar a secretaria de Obras, que centralizará o trabalho feito hoje por diferentes pró-reitorias e departamentos. A secretaria de Ações Afirmativas e Diversidade terá atuação específica numa área cada vez mais importante, assim como as secretarias do Esporte e da Inovação. A secretaria de Educação a Distância, que já existiu, vai ser recriada. A área de gestão de pessoas, que era uma secretaria, ganhará status de pró-reitoria. Tudo isso sem criar novos cargos e despesas.

Os agentes culturais da Capital queixam-se de que nos anos recentes a universidade perdeu o peso que tinha nesta área. O que é possível fazer para reverter esse quadro?

A obrigação de licitação para o uso do Centro de Cultura e Eventos precisa ser revertida. Assim como a Igrejinha e as fortalezas, o espaço deve ser mais bem utilizado. A volta da professora Maria de Lourdes Borges, que foi pró-reitora de Alvaro Prata, vai ajudar nisso. Com ela também voltam o cineasta Zeca Pires e a diretora de teatro Carmen Fossari, que têm a cara da cultura local e podem mesclá-la com as aspirações de quem vem de fora e que também tem força na universidade. Uma urgência é a restauração da Igrejinha, onde os afrescos do pintor Hassis estão se deteriorando.

 

Conheça mais sobre a UFSC

 

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade