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Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
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Morre torturador citado por Dilma Rousseff e por ex-presa política catarinense

Derlei De Luca esteve frente a frente com Homero Cesar Machado em 2014; ex-militar foi cremado nesta sexta-feira

Altair Magagnin Junior
Florianópolis

Morreu nessa quinta-feira (5), aos 75 anos, o capitão reformado Homero Cesar Machado. Ele foi citado em entrevista pela presidente Dilma Rousseff como uma das pessoas que dirigiam as torturas que ela sofreu durante a ditadura (1964-1985). Homero também foi citado pela catarinense Derlei Catarina De Luca como um de seus torturadores. O corpo foi cremado às 10h desta sexta (7), em São Paulo.

Carlos Kilian/Agência Alesc/ND
Homero acompanhou depoimento de Derlei (de pé), entre outros ex-presos políticos

 

Relatório da CNV (Comissão Nacional da Verdade) aponta Machado como torturador de ao menos quatro militantes durante a ditadura militar, de acordo com o jornal “Folha de S.Paulo”. Ele foi dirigente da Oban (Operação Bandeirante) e chefe de interrogatório do Doi-Codi de 1969 a 1970.

Em setembro de 2014, Derlei e Homero estiveram frente a frente, durante sessão da CNV, em São Paulo. “Lembro dela. É de Santa Catarina, não?”, disse o militar da reserva, 44 anos depois. “Ela esteve em coma? Mas como, se está aqui ‘vivinha da Silva’ na minha frente, vendendo saúde”, afirmou, em tom debochado, quando Derlei se levantou no auditório, ao lado de outros companheiros ex-presos políticos e torturados na Operação Bandeirante. O encontro foi acompanhado pela agência de notícias da Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina), que participou da Comissão Estadual da Verdade catarinense.

Várias vezes, Homero afirmou categoricamente que não houve tortura na Oban. “Minha equipe não torturava ninguém”. Ao ser questionado sobre a lembrança contundente de Derlei, disse: “a gente lembra, não lembra, depende das circunstâncias”.

Derlei foi uma das últimas a depor, sob os olhares do algoz. “Fui presa por engano. Achavam que eu era Maria Aparecida Costa”, revelou Derlei. Ela ainda questionou o fato de tê-la reconhecido logo que a viu. “Eu me sinto envaidecido que depois de 40 anos alguém me reconheça”, ironizou Homero.

O militar fez críticas ao trabalho da CNV, que considerou parcial. “Isso aqui é um massacre, não uma comissão”, afirmou. Sobre um possível pedido de desculpas, disse que não se sentia obrigado a fazê-lo. “Vocês deveriam pedir às Forças Armadas. Nós éramos agentes e delegados da instituição. Ninguém bradava: ‘vamos perseguir os comunistas’”.

Derlei foi ao encontro com Homero na expectativa de questioná-lo sobre a morte do ex-deputado estadual catarinense Paulo Stuart Wright, desaparecido na época da ditadura. Homero disse que lembrava vagamente do nome, e não quis detalhar seus conhecimentos. Limitou-se a dizer que não trabalhou Codi (Centro de Operações de Defesa Interna) e sim na Operação Bandeirante, por isso não podia responder sobre o desaparecimento de Wright. “Já disse que não trabalhei no Codi”, retrucou.

Muito irritado e questionado sobre as torturas do regime militar, Homero declarou: “a verdade é que não tenho mais nada a declarar”. Após a sessão da CNV, que durou cerca de 40 minutos, o coronel disse ainda que a verdade é a consciência tranquila.

Carlos Kilian/Agência Alesc/ND
Após 44 anos, Homero reconheceu Derlei, em reunião da CNV, em 2014

 

A história de Derlei

Nascida em 1946, em Içara, no Sul do Estado, Derlei era militante da AP (Ação Popular). Deixou a Juventude Estudantil Católica, já que a igreja era contra ações políticas. Foi escalada para trabalhar em São Paulo, decifrando códigos postados em anúncios de jornais.

Derlei fazia um trabalho interno importante e sabia de muita coisa. Presa em novembro de 1969 pela Oban, foi torturada e entrou em estado de coma. Levada ao hospital, acordou dias depois, quando foi torturada novamente e teve sua verdadeira identidade revelada. Ficou presa até o final de março de 1970.

Voltou a Santa Catarina onde se recuperou. Então partiu para Bahia, onde ficou até 1972. Viveu na clandestinidade no Paraná, militando novamente na AP. Depois de receber a Polícia Federal em casa e com identidade falsa, deixou o filho de três meses na porta de um hospital e seguiu para o exílio em Cuba.

Reencontrou o filho dois anos e meio depois em Havana. “Foi a maior tortura, abandonar meu filho. Eu não era vítima, ele era”, declarou à CNV.

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