Publicidade
Sábado, 18 de Novembro de 2017
Descrição do tempo
  • 24º C
  • 21º C

As montanhas azuis de Joinville e região, fascínio que vem de longe e a saga que completa 130 anos

Em um 5 de junho, há exatos 130 anos, grupo de imigrantes excursionistas chegava ao cume do Jurapé, depois de três dias em meio à mata. Hoje, subida não demora mais do que seis horas

Maria Cristina Dias
Joinville

“(...) Às 6 horas da manhã do dia 5, depois de termos tomado o restinho de café, que repartido deu a cada um meia xícara, subimos o último declive até o cume do Jurapé. Foi sublime o momento em que pela primeira vez pisaram, gentes civilizadas, este lugar. O morro mais alto da costa da  província. Viam-se as outras serras e cumes muito abaixo, e nenhum da mesma altura. (…) Vimos daqui Joinville com todas as estradas da colônia, sem exceção; São Francisco, o mar, a ilha da Graça, Remédios, enfim, todas as ilhas até Paranaguá, a baía de Paranaguá, de Guaratuba, barra do Itajaí, Itapocuruí e todas as serras ao Sul e a Oeste e a serra chamada “Fim do Mundo” ao Noroeste, que parecia a mais alta de todas (…)”.

 

Maria Cristina Dias/ND
O complexo de montanhas que há mais de século encanta os moradores da região

           

O relato emocionado do empreendedor e visionário João Paulo Schmalz, em 5 de junho de 1886, revela o momento em que, há exatos 130 anos, um grupo de imigrantes liderados por ele chegou pela primeira vez ao Morro do Jurapé. O morro faz parte do complexo conhecido ainda hoje como “As Montanhas Azuis”, que já naquela época atraía o olhar dos primeiros colonos que chegaram na Colônia Dona Francisca pela baía Babitonga e ainda hoje, nos dias claros, fascina o morador de Joinville. A data é considerada um marco do montanhismo na região e coincide com o Dia do Meio Ambiente, um momento estabelecido para refletirmos sobre a preservação do meio em vivemos.

Naturalista e colecionador de borboletas, Schmalz tinha o hábito de anotar os detalhes de suas incursões pela floresta em seus diários e o relato da conquista do Jurapé foi  incorporado à monografia “Um Ducado Francês em Terras Principescas de Santa Catarina”, da pesquisadora Odete Schmalz, sua bisneta. Nele, o imigrante, que também foi prefeito de Joinville no século 19, conta a aventura que durou três dias e que ele chamou de “Ascenção ao Jurapé”. Guiando-se pelos cursos d´agua e percorrendo trechos íngremes, com pedras que demandavam escaladas, eles abriram um caminho direto para o cume, porém difícil de percorrer. “O trecho que é usado hoje não é o aberto por Schmalz. Ele é mais direto, mas tem trechos onde é praticamente realizada a escalada, tem que usar cordas”, informa o geógrafo, pesquisador e montanhista Reginaldo de Carvalho, destacando, porém, que o último trecho da trilha, que leva até o cume, é o mesmo.

 

AHJ/Divulgação/ND
Schmalz registrou toda a sua emoção ao chegar ao topo do Jurapé depois de três dias de sacrifícios

 

Além de João Paulo Schmalz, o grupo era composto por seu irmão, Jacob; o cunhado Otto Delitsch, Bruno Clauser, um senhor identificado apenas como “Hahn” e “dois alugados”, como ele descreve – provavelmente moradores antigos da região que já conheciam os caminhos. Embora para os imigrantes que começavama povoar a  Colônia Dona Francisca, a mata ainda fosse um mistério, a região já contava com outros moradores muito antes de 1851. Famílias inteiras de origem lusa já estava radicadas nos arredores desde pelo menos o final do século 17, além dos povos indígenas, que habitavam as encostas da serra do mar.

Atualmente, a subida ao topo do Jurapé leva de cinco a seis horas. João Paulo Schmalz e seu  grupo, porém, levaram três dias para fazer o percurso. Em suas anotações, ele descreve a partida do grupo, os registros meteorológicos (ele durante décadas fez a observação e anotação sistemática das condições climáticas) e as dificuldades encontradas:  “(...) Às 7 horas da manhã do dia 3 de junho saímos outra vez em carro até o colono Scheel , na Estrada do Morro, distante 0,5 km do Piraí. Ali, em frente ao Jurapé, no pasto do referido colono, o barômetro mostrou  757mm, o termômetro antigo 11,5 graus C, às 7h30 minutos. Entramos no mato, subimos e descemos várias vezes para chegar numa espiga que nos permitiu a subida ao cume. Às 12 horas almoçamos na beira de um ribeirãozinho, depois continuamos a subir no leito desse ribeirão cheio de pedras vermelhas e de inúmeros tamanhos, até um lugar onde uma parede de pedra inacessível nos constrangiu a subir o barranco, à direita, o que com muita dificuldade conseguimos até um lugar que escolhemos para pousada (…)”.

O primeiro pernoite não foi fácil para o grupo de aventureiros, conforme escreveu Schmalz: “Foi esse o pior local que até essa data servira de pousada a um de nós. Era tão estreito e inclinado que dava apenas espaço para se deitar. O lugar para o fogo só podia ser arranjado longe de nós. Água e lenha fomos buscar distante desse lugar. E somente por meio da corda comprida que trouxemos podia-se descer para tirar lenha e a água do leito do ribeirão. Um verdadeiro abismo. Temos passado essa primeira noite no mato com muito perigo e quase sem dormir, por ser muito frio, e a lenha insuficiente para por meio do fogo sermos aquecidos”.

Reginaldo lembra que esta data é considerada o marco do montanhismo na região porque o grupo subiu a montanha para conhecê-la, sem um objetivo prático claro. “Foi uma escalada autêntica, pois subiram a montanha 'porque ela estava lá', sem outros objetivos. O Pico Jurapé é uma montanha estética e imponente, com 1.100m de desnível e terreno bastante íngreme, sempre intrigou Schmalz, que era um grande apreciador e conhecedor das belezas naturais da região e já fazia tempo que divisava a montanha. Até que chegou a hora”, destaca.

 

Alexandre Langer/Divulgação/ND
Pico Jurapê visto da porção superior do Pico Sul

 

Beleza e caminho para o Planalto

As montanhas azuis já chamavam a atenção dos novos habitantes, que chegavam pela Baía da Babitonga e a viam de longe. E desde os primeiros tempos da construção da antiga Colônia Dona Francisca havia a necessidade de estabelecer uma comunicação por terra com o Planalto de Curitiba, o que trouxe grandes desafios aos agrimensores da época, Carl Pabst e August Wunderwald.

Em 1851, uma carta do dr. Koestlin publicada no jornal alemão Hamburger Nachrichten reproduzida no livro “História de Joinville – Crônicas da Colônia Dona Francisca”, de Carlos Ficker, faz referência às montanhas da Serra do Mar. Koestlin  esteve na região acompanhado do primeiro diretor da colônia, Eduard Schroeder, em janeiro de 1851 e registrou as impressões que teve. “Ao longo, vêem-se pitorescas montanhas costeiras e a impressionante queda do Piraí que, distante quatro milhas das praias, se lança estrondosa e espumante serra abaixo”. Uma outra carta, do mecânico Christian Herrmann, que chegou ao Brasil na barca Emma e Louise, em maio de 1851, também revelam o impacto que o visual das montanhas causava nos recém-chegados. “Diante de nós estendiam-se montanhas que erguem  seus cumes verdes muito ao longe. As paragens, cobertas de florestas verdes, convidam mesmo e há lugar para milhares de pessoas”, escreveu, conforme consta no livro de Ficker.

Reginaldo de Carvalho lembra que nos primeiros mapas feitos por Jerônimo Coelho, em 1848, os morros da região já aparecem com praticamente os mesmos nomes que têm hoje: Morro da Tromba, Jurapé e Castelo dos Bugres, por exemplo. O Morro Pelado era chamado de “Corcovado”.

Para a administração da colônia, porém, o mais importante é que a serra trazia a possibilidade de uma ligação por terra com o Planalto, o que poderia impulsionar (como realmente ocorreu) a economia e o desenvolvimento da região. já em 1852 o agrimensor Carl Pabst abria caminhos em direção à Serra Geral. E Wunderwald tentava achar um caminho para a abertura da estrada da serra, a atual Estrada Dona Francisca. Em 1854 ele encontrou a subida pelo vale do rio Seco, por onde foi construída a estrada. “Joinville só tinha o porto e tinha que fazer uma ligação por terra com Curitiba. Com isto, as primeiras investidas para chegar lá foi pela Serra do Mar”, destaca Reginaldo de Carvalho explicando que Wunderwald, por exemplo, saía da atual rua 15, subia até Anaburgo e de lá seguia até Pirabeiraba, nas imediações de onde hoje é a Casa Krüger. De lá rumava para a Serra.

 

 

Formações ao longo da Costa atlântida

O geógrafo e pesquisador Reginaldo de Carvalho explica que as formações que chamamos de “Montanhas Azuis” fazem parte do complexo da Serra do Mar, que é muito mais amplo do que vemos aqui. “É o cordão de montanhas que se estende paralelo à costa atlântida desde o Espírito Santo até o Norte de Santa Catarina”, define. Em cada região, ele recebe denominações específicas, como o Serra do Marumby, no Paraná. Ou a Serra do Quiriri, Serra Queimada,  Serra Dona Francisca, Serra da Tromba, Serra do Piraí, Serra do Canivete, Serra das Duas Mamas, e Serra do Saí, todas em Santa Catarina, por exemplo.

Carlos Junior/ND
Geógrafo Reginaldo de Carvalho une profissão à paixão pelas montanhas

A denominação de “Montanhas Azuis” ocorre devido a uma característica dos morros da Serra, cobertos de floresta e com muita umidade, que vai para a atmosfera. “Em dias claros, isso favorece o azulado. Principalmente quando a atmosfera está limpa de partículas. Você consegue distinguir uma montanha da outra”, conta o geógrafo.

Mais que a beleza, essas montanhas têm um papel fundamental para a população de Joinville. É nelas, nas Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Dona Francisca e Quiriri, que estão as cabeceiras dos mananciais tanto de Santa Catarina, quanto do Paraná. São esses mananciais que vão descer a montanha e formar os rios Cubatão e Piraí, respnsáveis pelo abastecimento de água da cidade.

 

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade