Publicidade
Segunda-Feira, 17 de Dezembro de 2018
Descrição do tempo
  • 32º C
  • 22º C

Há cinco anos, Santa Catarina vivia a maior tragédia climática da sua história

No dia 22 de novembro de 2008, o Estado começou sofrer com as chuvas, que deixaram várias embaixo d'água e provocaram vários deslizamentos de terra, deixando 135 mortos e atingindo mais de 1,5 milhões de catarinenses

Redação ND
Joinville

Há cinco anos teve início em Santa Catarina um dos maiores desastres naturais já registrados no país, atrás somente dos deslizamentos provocados pelas chuvas no Rio de Janeiro, em abril de 2010. No Estado, também devido às fortes chuvas que tiveram início na madrugada do dia 22 de novembro de 2008, 14 cidades decretaram situação de calamidade pública e outras 63 de emergência, inclusive Joinville. Mais de 1,5 milhões de catarinenses foram atingidos pelas enchentes e desmoronamentos de terra, registrados principalmente no Médio Vale e Foz do Rio Itajaí Açu e Litoral Norte. Ao todo, 135 pessoas morreram em 16 municípios. Até hoje, duas continuam desaparecidas, um bebê de 11 meses, em Ilhota, e uma senhora de 79 anos, de Gaspar.

 

Arquivo/ND
Cruzamento das ruas Nove de Março e Itajaí dá uma ideia de como ficou a cidade

 

 

O major dos Bombeiros Militares, Aldo Baptista Neto, era na época comandante da companhia em Blumenau. Ele estava em lua de mel, mas precisou interromper os planos ao lado da mulher para atender às centenas de chamados que chegavam ao quartel. “Eu fui chamado para trabalhar, achei que iria trabalhar algumas horas e nunca mais parei. Fui acabar a minha lua de mel ano passado”, diz. Atual diretor de resposta a desastre da Secretaria Estadual de Defesa Civil, ele ainda guarda na memória os dias incessantes de trabalho.

De acordo com o major, foram catalogados apenas em Blumenau três mil deslizamentos de terra. Em quatro dias, o número de abrigos disponíveis na cidade saltou de 35 para 75. “O Médio Vale e a Foz do Rio Itajaí foram as regiões mais afetadas. Os moradores estavam afastados deste tipo de ocorrência há 24 anos, desde a enchente de 1984. O que aconteceu ali foi um regime de cheia diferenciado, uma enxurrada de uma semana que provocou deslizamentos de terra nunca experimentados”, avalia.

Ele conta que em 1984 as famílias blumenauenses puderam retornar para suas casas quando as águas baixaram. Em 2008, elas perderam residências, terrenos e em alguns casos o bairro. As Defesas Civis não estavam preparadas para a proporção do fenômeno climático. Nenhum plano de contingência previa a dimensão da tragédia. Porém, depois do desastre, a situação precisou ser revista pelo governo do Estado. “Foi o maior desastre climático experimentado no Brasil, até as chuvas castigarem o Rio de Janeiro. Houve a mobilização de todos os órgãos públicos e da sociedade. Serviu de aprendizado”, acredita o major Neto.

 

Preparados para novos desastres

Para o major Aldo Baptista Neto, o Estado está mais bem preparado para novos desastres naturais como o ocorrido no Estado em 2008 e também 2011. “Em 2011 o Alto Vale foi bastante atingido, esta enchente foi mais parecida com a de 1984 pelas suas características”, considera. Para Neto, o evento ocorrido há cinco anos continua sendo o pior vivido por Santa Catarina. Foi a partir de então que houve, por exemplo, a reformulação da Defesa Civil.

“A Defesa Civil passou a ser secretaria de Estado, ganhou autonomia de trabalho e investimento. Antes, em algumas cidades a Defesa Civil não tinha técnicos trabalhando nem equipamentos. Esta mudança começou em 2008 e se concretizou dois anos depois”, explica. O major destaca também que o Programa de Prevenção e Mitigação de Desastres Naturais no Vale do Itajaí foi retomado. Além disso, foi comprado um radar meteorológico no valor de R$ 8 milhões, que será instalado em Lontras.

Neto explica que o equipamento, importado dos Estados Unidos, consegue detectar qualquer massa de ar que esteja em direção a Santa Catarina. “Ele vai ficar num campo em Lontras, em cima de uma estação meteorológica de oito andares. O uso dele será voltado exclusivamente para desastres naturais. A cidade foi escolhida porque lá abrange a maior parte do Estado”, justifica. O radar servirá especialmente para preparar a população e os órgãos competentes, caso ocorram novas grandes precipitações.

Em setembro passado, o monitoramento antecipado das chuvas evitou que os prejuízos de cinco anos atrás se repetissem, conforme o major. “As famílias que moravam nas áreas de risco foram avisadas e puderam sair antes da enchente. Aprendemos a se preparar para o evento, trabalhamos com esta preparação”, detalha. Mesmo assim, de acordo com Neto, ainda são 25 mil imóveis em áreas de risco no Estado.

 

Em Joinville são 59 áreas de risco

Em novembro de 2008, Joinville registrou 350 de deslizamentos de terra em apenas três dias. Pelo menos 2.000 pessoas ficaram desalojadas e 250 desabrigadas, mas não houve nenhuma morte. Entre as regiões mais afetadas estavam os bairro Morro do Meio, São Marcos e o loteamento Jativoca, no Nova Brasília. Ambas as localidades banhadas pelo rio Águas Vermelhas.

Com os recursos liberados pela Defesa Civil do Estado para contenção das cheias em Joinville, R$ 1 milhão, verba que teve contrapartida de R$ 428 da Prefeitura, foi iniciada a dragagem do rio, em setembro deste ano. A empreiteira Motta Júnior, vencedora da licitação, começou a obra pela região do Jativoca, na ponte Rio do Ferro, e a estende num trecho de oito quilômetros, até a ponte da rua Minas Gerais.

O secretário Osmar Vicente, da subprefeitura Sudoeste, afirma que a empresa está trabalhando diariamente, mas o serviço é demorado e não há previsão de quando a dragagem esteja concluída. Na próxima semana, a Prefeitura deve se reunir com a empresa para pedir o balanço do que já foi realizado e analisar a possibilidade de mais uma máquina trabalhar no local.

Outra obra que promete dar alívio aos moradores da região é a elevação da rua Minas Gerais, que ainda não teve início por falta de licença ambiental. O empreendimento é orçado em R$ 8,7 milhões e tem verba do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), no entanto, é realizada pela Prefeitura. Além das obras de contenção previstas para a cidade, a Defesa Civil colocou Joinville no sistema de monitoramento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).

O CPRM (Serviço Geológico do Brasil), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia, encaminhou dois técnicos para o município no último dia 23 de outubro com objetivo de mapear as áreas que ainda representam risco de deslizamento ou inundação no município. Em 20 dias, foram mapeados 55 pontos com risco de desmoronamento e quatro de inundação.

A iniciativa faz parte do Plano Nacional de Gestão de Risco e Resposta a Desastres Naturais, do governo federal. Joinville é um dos 821 municípios brasileiros monitorados pelo projeto.

 

Mais de quatro casas em área de risco em Jaraguá do Sul 

Em Jaraguá do Sul, segundo o diretor da Defesa Civil, Maicon Leandro da Costa, existem ainda 4.000 casas localizadas em áreas de risco. Há cinco anos, a cidade registrou oito deslizamentos de grande porte e outros 50 considerados pequenos. Um morro desmoronou na rua Feliciano Bortolini, no bairro Barra do Rio Cerro, matando nove pessoas da mesma família.

As vítimas moravam em três casas que ficavam no outro lado da via. “A cidade nunca tinha passado por isso, foi fora do normal”, avalia. O morro da rua Feliciano Bortolini foi drenado  e houve plantio de vegetação na encosta. Cinco anos depois da tragédia, a cidade realiza mais 14 obras de contenção com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), no valor de R$ 5,4 milhões. “A verba saiu ano passado e é destinada exclusivamente a estas obras de contenção”, explica.

Costa conta que em 2008 a Defesa Civil da cidade era formada apenas por três pessoas, incluindo ele. Na ocasião, foram feitos mais de 5.000 chamados e 2.000 pareceres de casas em áreas de risco. “A Defesa Civil era uma diretoria vinculada ao gabinete do prefeito e passou a ser uma secretaria. Agora, 11 trabalham aqui, temos engenheiros e técnicos”, comemora.

O município também ganhou central de monitoramento contra desastres. “Qualquer mudança climática, avisamos a população através da mídia. Preferimos pagar pelo excesso de zelo e de informações, qualquer coisa vamos avisar”, garante Costa. Ele diz que outro importante aliado do órgão é o Nudec (Núcleo de Defesa Civil), formado por representantes da comunidade. Em Jaraguá, são 250 voluntários dispostos a agirem em situações catastróficas, além de servirem de elo entre a população e a Defesa Civil.

 

Família mora em casa interditada 

A família dos vigilantes Paulo, 42 anos, e Gisélia Bonomini, 44, foi uma das centenas de atingidas pela enchente de 2008, em Joinville. Na época, ela estava grávida da filha caçula e precisou sair às pressas de casa, na rua Amanda Goll, no bairro Morro do Meio, junto com os outros quatro filhos. Eles ficaram alojados no abrigo improvisado na Escola Municipal Ruben Roberto Schmidlin, enquanto Paulo cuidava da casa alagada.

“A água batia na janela. Eu não saí daqui para ninguém roubar. No vizinho, entrou dois metros de água e roubaram um monte de coisas”, conta Bonomini. Mesmo depois que as águas baixaram, a família, teoricamente, não poderia retornar para a moradia. O imóvel sofreu rachaduras e foi interditado pela Defesa Civil, mas Bonomini afirma que não tem condições de pagar aluguel. A solução foi erguer uma nova casa na parte da frente do terreno, mas ele e a mulher ainda não conseguiram acabar a obra.

O novo lar tem pilares de sustentação de 2,3 metros. “É para não me incomodar nunca mais”, diz o vigilante. Ele espera morar em breve no imóvel e voltar a pagar o empréstimo de R$ 9 mil em materiais de construção, feito pela Secretaria Municipal de Habitação. “Na época eles disseram que não podiam me dar o material porque tinha muita gente pegando e vendendo para outras pessoas”, explica.

Contudo, foi com os R$ 4 mil em materiais de construção cedidos pela secretaria que os vizinhos de Bonomini, o casal Nivaldo Dias da Silva, 44, e Maria Lenita Barros Dias, 46, conseguiram construir uma nova residência no mesmo terreno que ocupam há 16 anos. “A outra casa foi interditada pela Defesa Civil, voltamos do abrigo na escola e não pudemos nem entrar. Tinha a notificação. Recebi R$ 4 mil de materiais da Secretaria de Habitação e o restante tirei do meu bolso”, diz Nivaldo. Ele recorda que na enchente de 2011 a nova casa chegou a ser novamente invadida pela água, mas foram só 20 centímetros. “O chão estava sem piso ainda”, lembra.

 

Saiba mais

Desastre de 2008 em números

 

Mais de 1,5 milhões de catarinenses atingidos

63 municípios decretaram situação de emergência

14 cidades decretaram calamidade pública

Houve 135 mortes

No Estado, mais de 80 mil pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade