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Domingo, 16 de Dezembro de 2018
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Guerra entre facções pelo tráfico de drogas em Joinville já era anunciada no começo deste ano

Levantamento e estudo feito pela Agência de Inteligência do 8º Batalhão de Polícia Militar previa em janeiro o crescimento do número de mortes violentas na cidade

Adrieli Evarini
Joinville
Reprodução/ND
Relatório foi elaborado pela Agência de Inteligência do 8º BPM (Batalhão de Polícia Militar) de Joinville. Foco do documento era o bairro Jardim Paraíso

 

“Com a análise do cenário atual daquela localidade [Jardim Paraíso], traduzindo tudo o que já foi trazido à baila anteriormente, fica claro que estamos vivendo um confronto entre duas facções criminosas. Desta forma, esta agência de inteligência faz uma projeção, não muito agradável, de que os índices de homicídio tendem a aumentar, relembrando que todos são motivados pela guerra do tráfico de drogas entre PCC e PGC.”

A escalada de violência em Joinville, que chegou ao ápice na madrugada do domingo, dia 6 de dezembro, quando a cidade amanheceu com a informação de que nada menos do que sete assassinatos tinham ocorrido em um espaço de pouco mais de três horas naquela madrugada. Com base no relato acima, emitido em documento em fevereiro, esta situação já era prevista e anunciada.

Elaborado em janeiro deste ano pela Agência de Inteligência do 8º BPM (Batalhão de Polícia Militar) de Joinville, o relatório, obtido com exclusividade pelo Núcleo de Jornalismo do Grupo RIC, e que motivou a série de reportagens “Disputa pelo Poder”, exibida na semana passada pelo “Jornal do Meio-Dia” da RICTV Record, já antecipava a guerra de facções que o governo resistia em admitir. O foco do relatório era o bairro Jardim Paraíso, que por muitos anos foi apontado como o bairro com maior número de assassinatos da cidade; perfil que nos últimos anos mudou, com o bairro Paranaguamirim assumindo a liderança.

A existência das duas facções e de uma possível “guerra” entre ambas pela disputa do tráfico de drogas em Joinville só foi admitida na segunda (14) da semana passada pelos órgãos de segurança após a chacina que deixou sete mortos e que fez o número de mortes violentas chegar a 122. Até esta sexta-feira (18), são 126 os casos registrados. O relatório, segundo as autoridades responsáveis pelo documento, foi encaminhado aos órgãos de segurança ainda em janeiro.

O primeiro homicídio deste ano em Joinville ocorreu em 11 de janeiro, quando o relatório estava sendo elaborado. Nesta data, Rogério Peixoto, 49 anos, foi encontrado morto com diversos tiros. O crime ocorreu na avenida Santos Dumont, zona Norte da cidade. A partir daí, a onda de violência cresceu e já em outubro foi batido o recorde histórico de mortes violentas na cidade, sem que os casos fossem, de fato, solucionados.

A dificuldade em obter provas testemunhais

Para o promotor Ricardo Paladino, o maior empecilho na solução dos crimes está  na dificuldade de reunião de provas para que o processo possa ser instaurado e efetivamente concluído. Mesma afirmação é feita pela juíza titular da 1ª Vara Criminal de Joinville, Karen Francis Schubert Reimer. “A grande dificuldade que nós temos nesses casos é que a população, as testemunhas, realmente ficam aterrorizadas de prestar depoimento. Então, é muito difícil conseguir reunir uma prova testemunhal e  visual de pessoas que tenham efetivamente presenciado o fato”, ressaltou.

Segundo o relatório, na área de abrangência do 8º BPM, 90% das mortes violentas são em decorrência da disputa entre as facções. Hipótese que também é compartilhada por Paladino. “Não podemos imaginar que esse número estratosférico de homicídios que temos em Joinville é decorrente somente da atuação dessas facções criminosas. Eu estimo que cerca de 90% do número de homicídios da cidade esteja relacionado às drogas, ao tráfico e ao consumo de drogas. Esse círculo é vicioso”, afirmou.

Em contrapartida, o delegado da DIC (Divisão de Investigação Criminal), Luis Felipe Del Solar Fuentes, não acredita que se possa atribuir o alto índice de homicídios somente a essa suposta guerra entre facções. “Não se pode colocar todos ou a maioria dos crimes na conta de uma suposta guerra de facções. A diferença entre o ano em que havia 80 e outro com cem crimes, essa diferença, esse acréscimo se deva a alguns fatores diferentes, um deles, talvez o principal, seria uma disputa maior pelo tráfico de drogas”, avaliou.

O documento mostra ainda que a venda de drogas no Jardim Paraíso era claramente dividida entre duas partes comandadas pelo PCC e PGC. A região à direita da avenida Júpiter era comandada pelo PCC. À esquerda, era ponto do PGC. Porém, no início deste ano, houve uma ruptura no limite imposto para a venda de drogas entre as duas facções, dando início ao que as autoridades chamam de guerra entre facções.

PCC e PGC: o fim da paz entre as facções

O documento elaborado pela Agência de Inteligência do 8º BPM aponta também quem são os líderes das facções no Estado. Marcelo Leomar dos Santos, conhecido como Tibério, que hoje está detido no Presídio da Canhanduba, em Itajaí, seria o principal líder do PCC em Santa Catarina. Teria sido ele o responsável pelo “batismo” de Marcos Junior de Morais, conhecido como Smigol, preso no início de 2014.

Smigol, morador de Joinville, era uma das principais lideranças do PCC em Santa Catarina, sendo responsável pela coleta do “dízimo” do grupo paulista. Além disso, era ele quem comandava a distribuição de drogas em toda a zona Leste de Joinville. Ele foi preso com quatro quilos de cocaína e já constava um mandado de prisão em seu nome. Smigol foi condenado a 12 anos em regime fechado pelos crimes de tráfico, associação ao tráfico e lei das Organizações Criminosas.

Do outro lado, no PGC, o documento aponta Jozimar de Oliveira Coqueiro, conhecido como Zeta, como quem comandava o Grupo Catarinense no Jardim Paraíso. Hoje, Zeta está preso na Penitenciária Industrial de Joinville, mas teria familiares controlando a distribuição de drogas na região.

O fim da paz entre as duas facções e a ruptura no acordo (“respeito”, no jargão do mundo do crime) que havia entre os integrantes teria ocorrido após a prisão de Smigol. Segundo o relatório, após as prisões, ambas as facções ficaram desestruturadas e, a mando de Zeta, integrantes do PGC teriam entrado na área do PCC, na rua Vulpécula, com o objetivo de conquistar pontos de tráfico.

Com Smigol preso, outro integrante passou a liderar o PCC em Joinville. O nome não foi revelado pelo comando, para não atrapalhar as investigações em andamento. Este novo líder também teria desrespeitado o modo como Smigol comandava a facção e, segundo as fontes oficiais da Agência de Inteligência, foi a partir daí que a guerra entre as facções iniciou.

As fontes revelaram ainda que José Felipe Bastos, 52, conhecido como Zé Paraná, pertencia ao PCC e teria sido morto pelo próprio grupo, por discordar das ações realizadas após a prisão de Smigol. Zé Paraná foi morto no dia 17 de janeiro, quando estava com o carro parado em um semáforo na esquina da rua Tuiuti com a avenida Santos Dumont. Dois homens em uma moto o abordaram, um deles desceu e atirou contra ele.

Matheus, a vítima mais do que inocente

Outra vítima fatal da guerra entre facções foi o menino Matheus de Oliveira, de seis anos, atingido por uma bala perdida na cabeça no dia 24 de junho. O autor dos disparos é um menor de idade que pertence a uma das facções e seria responsável por outros oito homicídios.

Arquivo/ND
"Se as pessoas não perceberem que as instituições públicas são fortes naquele ambiente, estados paralegais e facções vão nascer e se fortalecer", explica o juiz da Vara de Execução Penal, João Marcos Buch

O juiz da Vara de Execução Penal, João Marcos Buch, reforça que é necessário que o Estado se faça presente para que essa guerra não aconteça. “O Estado paralegal nasce quando o Estado legal se ausenta. Então, se as pessoas não perceberem que as instituições públicas são fortes naquele ambiente, estados paralegais e facções vão nascer e se fortalecer. E é assim que a gente tem que trabalhar. Temos que ter essa consciência. O Estado tem que comparecer. Repito: não comparecer apenas com a polícia, comparecer com políticas sociais e também com a polícia e, especialmente com a Justiça para que as responsabilidades sejam tomadas”, destacou. “A realidade pode ser até pior no futuro, se não houver uma consciência geral de como realmente evitar o fenômeno da violência urbana e das facções”, completou.

Arquivo/ND
“A primeira e maior dificuldade da Polícia Civil é a falta de efetivo. A segunda, é a falta de efetivo; a terceira, a falta de efetivo", resume o delegado da DIC (Divisão de Investigação Criminal), Luis Felipe Del Solar Fuentes

Segundo o delegado da DIC (Divisão de Investigação Criminal), Luis Felipe Del Solar Fuentes, existe uma série de fatores que dificultam a resolução dos crimes. “A primeira e maior dificuldade da Polícia Civil é a falta de efetivo. A segunda, é a falta de efetivo; a terceira, a falta de efetivo; a partir da quarta e quinta dificuldades, nós temos outras situações estruturais, como poucas câmeras na cidade. A legislação também, que não permite, que não dá muita segurança para que as pessoas sejam testemunhas, que venham depor sobre esse tipo de situação. O cidadão não vai vir lá do seu bairro aqui contar tudo que sabe e depois voltar para morar na mesma rua onde está lá o autor de um crime”, ressaltou.

Já para a juíza Karen Francis Schubert Reimer, a luta por justiça sempre será constante. “A Justiça continua e sempre vai continuar na luta procurando julgar todos que venham ao processo, tendo provas serão julgados com o devido processo legal e receberão as punições sempre”, finalizou.

Como surgiram as facções

PCC - O massacre do Carandiru, em 1992, mudou o cenário prisional no país e, especialmente, a organização entre os presos. Foi a partir das 111 mortes (contabilizadas oficialmente) que o PCC (Primeiro Comando da Capital) foi formado em 1993, na Casa de Detenção de Taubaté, com o objetivo de manter um grupo organizado que pudesse se defender de ações brutais do Estado – como foi o caso do massacre – e tendo como principal atividade o tráfico de drogas dentro e fora dos presídios. Segundo informações, o PCC teria um faturamento anual de R$ 120 milhões. Em Santa Catarina, fontes oficiais falam em um número aproximado de 133 membros atuantes da facção paulista.

PGC - Os catarinenses também se organizaram. Dez anos após a criação do PCC em São Paulo, nascia o PGC (Primeiro Grupo Catarinense). Inicialmente criado na ala máxima da Penitenciária de Florianópolis, o PGC se consolidou na Penitenciária de São Pedro de Alcântara. Diferentemente do PCC, que possui um comando, o PGC é formado por um conselho de 20 detentos, divididos em primeiro e segundo ministério, que centraliza as ações e exigem obediência dos demais integrantes. Nenhuma atividade pode ser realizada sem a autorização desse conselho, seja dentro ou fora das unidades prisionais.

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