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Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
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Garoto de Curitiba recebe coração da menina que morreu em Joinville por suspeita de espancamento

Criança de três anos morava em Araquari. Padrasto foi preso por ser suspeito pelo crime e está na UPA de São Francisco do Sul

Redação ND
Joinville

Um anjo que morreu para salvar outras vidas. Desta forma, foi selado o destino de Laura Beatriz Cardozo, três anos, morta no domingo, depois de, supostamente, ter sido agredida e ter passado por uma sessão de tortura nas mãos do padrasto, Rafael Silva dos Santos, de 20 anos. O corpo de Laura, que morava com a mãe, o padrasto e o irmão em Araquari, chegou ao IML (Instituto Médico Legal) de Joinville no fim da tarde desta segunda-feira (11), depois de alguns órgãos terem sido captados pela SC Transplantes (Central de Captação, Notificação e Distribuição de Órgãos e Tecidos de Santa Catarina). Seu coração neste momento já bate no peito do pequeno Rafael Ribeiro, menino de quase dois anos que lutava contra uma doença cardíaca sem cura.

 

Divulgação/ND
Laura Beatriz Cardozo, três anos, morreu domingo no Hospital Infantil

 

A equipe do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, onde o pequeno Rafael está internado há três meses, recebeu o coração de Laura no início da tarde desta segunda. A menina teve morte encefálica declarada às 16h25 de domingo, mas seu coração foi mantido batendo com a ajuda de aparelhos para que a doação fosse possível.

Laura Beatriz foi levada pela mãe ao pronto atendimento de Araquari na tarde de sábado. Ela estava com traumatismo craniano e, segundo a equipe médica, não apresentava outros ferimentos que caracterizassem um ataque de animal, embora a mãe e o padrasto tenham informado que tinha sido atacada por cachorros. A Polícia Militar foi informada e, após uma parada cardiorrespiratória, a criança foi transferida para o Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, de Joinville. Durante a remoção, os socorristas constataram outros ferimentos na menina que caracterizavam espancamento.

Rafael teve a prisão preventiva decretada. Ele está detido na UPA (Unidade Prisional Avançada) de São Francisco do Sul. Ele não tinha antecedentes criminais. À equipe do programa “Tribuna do Povo”, ele argumentou que estava com a menina no colo, porque ela estava com a perna quebrada, e que uns cachorros vieram para cima deles. Para protegê-la, ele teria se jogado por cima da criança, o que teria causado os ferimentos.

A versão de Rafael não convenceu o delegado Luis Felipe Del Solar Fuentes. De acordo com Fuentes, Rafael chegou à CPP acompanhado de familiares e de policiais militares. Segundo o delegado responsável pelo inquérito, Rodrigo Aquino Gomes, Rafael foi preso em flagrante por maus-tratos, com a qualificante de lesão corporal grave. Para Gomes, o enquadramento inicial de maus-tratos pode ser convertido para tortura. O delegado afirma ainda que não há nenhum registro no sistema da polícia civil de denúncias anteriores de maus-tratos. Ainda durante esta semana, a Polícia Civil deve realizar oitivas com os vizinhos e aguardar o laudo do IGP (Instituto Geral de Perícias). Além disso, o delegado deve analisar os prontuários de atendimento do Hospital Infantil, onde Laura já esteve hospitalizada outras vezes. O delegado acredita que em no máximo 15 dias o inquérito seja concluído.

Quando o corpo chegou ao IML, não havia ninguém da família para recebê-lo. Também ninguém havia procurado a Central Funerária até o início da noite para os procedimentos de velório e sepultamento. Técnicos do IML já tinham feito uma perícia no corpo para tentar descobrir o que teria ocasionado lesões. Como procedimento padrão, testes de violência sexual foram feitos. Este material será entregue à Polícia Civil de Araquari que investiga o caso. Embora nenhum laudo conclusivo tenha sido divulgado, a informação é de que há indícios de violência sexual.

Vizinhos já tinham conhecimento das agressões

Nesta segunda-feira , ainda sob o impacto da notícia de que Laura e seu irmão de seis anos sofriam violência doméstica há alguns meses, os vizinhos evitavam falar sobre o assunto. Alguns deles relataram que as agressões eram constantes contra Laura e o irmão. O garoto, que recebeu abrigo na casa do vizinho David de Mira, até a manhã desta segunda, também apresentaria lesões e hematomas pelo corpo. “Eu notei que ele tinha marcas pelo corpo, mas ele falava bem do Rafael, dizia que era um bom pai”, conta Mira.

 

Fabrício Porto/ND
Criança morava com a família em uma das partes deste imóvel em Araquari

O vizinho conta que depois de um tempo, o garoto se abriu. “Ele tinha um machucado na canela, quando a gente passou a mão pra ver o que era, ele reclamou de dor e disse que o Rafael tinha jogado uma cadeirinha nele”, revela. Além das lesões, o vizinho contou que a avó do menino, que veio de Florianópolis para buscá-lo, teria dito que as crianças sofriam constantemente com maus-tratos. “Ela [a avó] já queria pegar o menino antes, e a mãe foi a mais conivente com essa covardia”, disse. Segundo Mira, Rafael sempre foi morador do bairro, ele seria usuário de drogas e constantemente discutia com vizinhos. Apesar da fama de turrão e brigão, e sem ter uma ocupação conhecida, Rafael era uma pessoa bastante popular. Em seu perfil no Facebook, consta que ele tinha 3.449 amigos.

Indícios de abuso sexual

A mãe da criança, Rosimeire Cardozo, 25, foi ouvida pelo delegado e liberada. Para a polícia, ela disse que naquela manhã tinha saído de casa às 7h para trabalhar e quando retornou, às 16h, encontrou a filha desmaiada na cama. A criança estava com vários hematomas e ouviu do companheiro a versão apresentada por ele à polícia, confirmando em depoimento que a filha havia sido atacada por cães.

Outro agravante é que a menina tinha diversas passagens pelo hospital por outras lesões e fraturas em braços e pernas. Algumas destas internações estão registradas em fotos postadas na rede social da mãe. Nesta segunda-feira, ela postou um desabafo em sua rede social dizendo que não está defendendo o companheiro e que está sentindo uma dor infinita. “Eu agora perdi a minha vida por que não existo sem minha filha”, desabafa.

Segundo o delegado Gomes, caso seja comprovada omissão por parte da mãe, ela irá responder pelos mesmos crimes que Rafael. “Em uma análise muito preliminar, acredito que ele possa ser indiciado por tortura que resultou em morte e, caso o laudo comprove que houve estupro, ele vai responder também por estupro de vulnerável”, destacou Gomes. O delegado contou que o médico legista indicou indícios de abuso sexual, mas somente o laudo poderá comprovar se Lauro foi ou não estuprada pelo padrasto.

Oficialmente, o Conselho Tutelar de Araquari disse que não se manifestaria, mas um conselheiro garantiu que não havia denúncias formais de maus-tratos, embora houvesse intenção de acompanhar a família em função dos acidentes que a criança já vinha sofrendo. A mãe já tinha antecedentes por furto e corrupção de menores.

Chocado e pedindo justiça, o pai biológico de Laura, Jonatan Robson Flores, diz que não era um pai ausente e que só não registrou a criança por desentendimentos com a mãe, que na rede social fazia questão de dizer que não tinha vergonha de ser mãe solteira. O relacionamento com Rafael seria recente. Ela teria se mudado para a casa da família dele no fim do ano.

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