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Evento em Joinville reúne adeptos de tatuagens e modificações corporais

Convenção Internacional de Tatuagem, que acontece neste fim de semana na Expoville, traz atrações internacionais e debates sobre o tema

Juliane Guerreiro
Joinville
25/11/2016 às 23H52

As presas que dão o nome de “Mulher Vampira” à María José Cristerna quase passam despercebidas em meio a tantas modificações corporais. Além dos implantes dentários que lhe deram este título, a mexicana também ostenta diversos piercings, implantes de titânio e olhos escuros, tornando-se a mulher com o maior número de modificações corporais das Américas, segundo o Guinness Book. Em visita a Joinville pela primeira vez, María tem atraído os olhares de quem a encontra pelas ruas da cidade e na 4ª Convenção Internacional de Tatuagem de Joinville, que começou ontem e segue até o próximo domingo (27), na Expoville.

Leia mais: 4ª Convenção Internacional de Tatuagem de Joinville traz mais de mil tatuadores à cidade

Os curiosos devem logo pensar na dor causada pelas agulhas que tatuaram 98% do corpo de María e nos procedimentos de implante que modificaram 46% do seu corpo. Para esta questão, ela tem uma resposta enfática: “Dói, mas é muito diferente da dor da agressão física”. Ela começou a se tatuar quando tinha 14 anos. Aos 17, casou-se com o homem com quem teve quatro filhos e um casamento infeliz, marcado por agressões físicas e verbais. Com a união, as tatuagens, assim como a sua liberdade, foram interrompidas. “Ele era tão dominador que não deixava nem que eu me maquiasse”, conta María. Como muitas das mulheres que sofrem violência doméstica, ela teve medo, mas também esperança de que o companheiro pudesse mudar, o que prorrogou o casamento. Depois de dez anos, com o nascimento do último filho, ela conseguiu dar fim ao relacionamento e voltar ao mundo que a encantava desde a adolescência. “Sempre estive envolvida no mundo da tatuagem, quando me vi livre senti vontade de me modificar”, explica María. Desde então, ela une o gosto pela arte com a discussão sobre a violência contra a mulher e faz da sua aparência um meio de debater o tema. Em convenções pelo mundo, María acolhe diversas mulheres que falam sobre as experiências que vivem e lhe pedem conselhos. “Não deixar corromper o teu coração”, é o principal deles.

María participa com o marido da 4ª Convenção Internacional de Tatuagem de Joinville - Carlos Junior/ND
María José Cristerna e o marido Hector participam da 4ª Convenção Internacional de Tatuagem de Joinville - Carlos Junior/ND


Apelidada de “vampira” por uma rede de televisão mexicana, ela se assustou quando ouviu o termo pela primeira vez, mas assumiu o nome que a tornou famosa. Casada há três anos com Hector Meza, apaixonado por tatuagens e modificações como ela, María dedica-se ao seu estúdio de tatuagens e à família, além de participar de eventos pelo mundo, alheia a olhares questionadores. “Antinatural é não se expressar”, destaca.

Olhos que questionam

Se os olhares curiosos, e por vezes contestadores, percorrem o corpo de María José Cristerna, a Mulher Vampira, o mesmo também acontece com Daniel Grah, perfurador estético corporal de Joinville, que tem 70% do corpo tatuado. Aos 33 anos, as tatuagens já lhe renderam histórias engraçadas, mas que escancaram o preconceito ainda existente em relação às modificações corporais na cidade. “As pessoas olham para o meu filho e não acreditam que eu possa ser pai ou dizem ‘mas ele não tem tatuagem’”, ri Daniel, já que o filho tem apenas cinco anos. Porém, nem sempre a reação de quem o vê provoca risadas. “Já aconteceu de chegar a uma loja e não atenderem bem, de a pessoa aproximar a bolsa do corpo quando me vê e até de fazer o sinal da cruz quando passa por mim”, conta.

"Já aconteceu de chegar a uma loja e não atenderem bem, de a pessoa aproximar a bolsa do corpo quando me vê e até de fazer o sinal da cruz quando passa por mim", conta Daniel Grah - Carlos Junior/ND


Para a psicóloga Lili Zacharias, as modificações corporais geram controvérsia porque mexem com padrões. “Quando alguém ousa sair do padrão coloca os desejos mais ocultos das pessoas em xeque e as fazem perguntar a si mesmas: ‘por que não eu?’. Quando alguém ousa fazer algo diferente, põe em ruínas conceitos que estão cristalizados”, explica. Embora já existam maneiras de reverter uma tatuagem, ela conta que o fato de ser tida como algo definitivo também mexe com as pessoas.

Mercado que cresce em Joinville

Se os números de tatuadores e tatuados têm crescido em Joinville, também tem aumentado o número de estúdios clandestinos pela cidade. Segundo Sandro Chaves, o Maga, organizador da convenção, enquanto a cidade tem cerca de 30 estúdios legalizados, outros cem atuam de maneira ilegal.

Daniel Grah, perfurador estético corporal, conta que o mesmo ocorre quando se fala em piercings. A diferença de preço entre um estúdio legalizado e um clandestino, segundo ele, chega a R$ 60. “O piercing é como se fosse considerado o cigarro em um boteco, é como se fosse um algo a mais sem importância, o que resulta na baixa qualidade do trabalho”, explica. Segundo ele, as convenções realizadas na cidade, assim como workshops e atividades promovidas durante todo o ano, têm ajudado a conscientizar sobre a importância da profissionalização. “Há 12 anos era muito complicado. De uns seis anos pra cá o pessoal tem corrido atrás, mostrando como é. O salto foi bem maior depois da convenção, agora é algo mais profissional”, conta. Segundo ele, tramita no Senado um processo para a regulamentação das profissões de perfurador estético corporal e dermopigmentação artística.

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