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Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Escoceses fazem intercâmbio em Florianópolis para conhecer a cultura do circo no Brasil

Grupo faz vivência intensiva em escola de Jurerê e relata experiência com diferenças culturais

Beatriz Carrasco
Florianópolis

Tecido, corda lisa, trapézio, lira. Em um amplo salão que mais parece um parque de diversões, mais de 20 pessoas, entre alunos e professores, têm dois objetivos em comum: superar os limites do próprio corpo e, acima de tudo, se divertir. No lugar que poderia ser uma escola de circo comum, no entanto, palavras em inglês se espalham pelo ambiente, em uma troca de conhecimento entre a cultura circense do Brasil e da Escócia.

Há dez dias desembarcou em Florianópolis um grupo de quatro estudantes de circo da escola Aerial Edge, situada em Glasgow, na Escócia. Eles deixaram o auge do inverno na cidade britânica para um intercâmbio na Circocan, em Jurerê. Pela primeira vez em terras brasileiras, os escoceses não esconderam a paixão que nasceu tanto pelo modo como se pratica essa vertente da arte por aqui, quanto pelas belezas naturais e contato com os locais.

Eduardo Valente/ND
Laura faz, em média, três treinos semanais

 

A ideia para a parceria entre as duas instituições de ensino surgiu em 2013, quando o diretor-geral da Circocan, o curitibano Pedro Mello e Cruz, conheceu em Nova York (EUA) o fundador da Aerial Edge, Mark Gibson, durante um encontro de profissionais da área. “O mundo do circo é meio pequeno, porque você sempre precisa ir para fora para procurar novas técnicas e conhecimentos para trazer para a própria escola”, relatou Pedro, que trouxe a filial da Circocan para a capital catarinense em 2013 – a sede fica em Curitiba (PR).

Com o projeto de unir as escolas para o programa de intercâmbio, Mark esteve em Florianópolis duas vezes, por períodos de três meses, para então voltar acompanhado pelo grupo, que é formado ainda por dois professores, Seamus Clancy e Jamie-Lee McNaughton, e pela gerente de marketing Amy Shipway, que também é estudante da arte há dois anos.

“No Brasil, tradicionalmente o circo ainda segue muito o que era feito há 50 anos, do circo tradicional. O circo contemporâneo aqui ainda não está tão desenvolvido quanto na Europa”, explica o diretor-geral da Circocan sobre a importância da troca cultural. “O circo tradicional vem muito da coisa do circo de lona, com a presença de animais e formado por famílias. Enquanto o circo contemporâneo agrega os vários aspectos da arte, o teatro, a dança, a música, com vários artistas de diferentes vertentes. Várias linguagens se encontram”, completa.

 

Confira mais fotos dos treinamentos 

 

Praia, calor e treino duro

Hospedados em uma casa a poucos metros do Jurerê Sports Center, Centro Esportivo e Cultural, onde fica a Circocan, Toby Hocking, Fiona Milton, Lauren Moore e Laura Ryan passaram da média de três treinos semanais em Glasgow para práticas diárias de até cinco horas. “As aulas de condicionamento físico são mais intensas, o que é mais desafiador, mas que ao mesmo tempo traz resultados mais rápidos. E todos aqui são muito receptivos e amigáveis, como se fosse uma grande família”, comentou Laura.

Um dos pontos de consenso entre todos os alunos é o benefício do clima quente, já que o treinamento corporal fica mais fácil com o calor. “Estou gostando bastante da experiência, principalmente do clima, que é mais quente e facilita para o corpo responder, é mais fácil de treinar do que no frio. Além disso, as pessoas também são muito amigáveis e receptivas”, relata Toby, que faz circo há quatro anos.

Fiona e Lauren, por sua vez, destacam ainda a diversidade das técnicas praticadas no Brasil. “Estou gostando bastante da variedade de modalidades, com acrobacias aéreas, de solo, contorção, flexibilidade, e principalmente do trapézio voador. Tudo isso faz com que eu me esforce e me desenvolva mais”, disse Lauren. “Também é ótimo receber diferentes técnicas e conhecimentos de pessoas distintas”, acrescentou Fiona.

O trapézio voador, aliás, é uma diversão a parte para os estudantes. Isso porque o frio na Escócia faz com que seja incomum a presença da estrutura na área externa das escolas. E quando montadas em espaços cobertos, costumam ter a altura mais limitada. Outro quesito destacado pelos escoceses é a possibilidade de aproveitar as paisagens naturais e contato com os locais em Florianópolis, já que costumam treinar ao anoitecer.

“Todos são muito amigáveis e dispostos a ajudar, além de ficarem felizes quando aprendemos alguma coisa em português. É muito legal”, disse Amy, antes de comemorar a precisão de um pulo no trapézio voador – e também a água do mar que o movimento ajudou a tirar de um dos ouvidos.

 

Circo brasileiro também tem a ensinar

Embora o circo contemporâneo ainda esteja adquirindo força no Brasil, o veterano Mark Gibson destaca uma prática essencial que é comum por aqui, mas que não possui muito espaço na Escócia. Segundo ele, que além de diretor-geral também é professor na Aero Edge, os treinos de condicionamento físico são tão importantes quanto as técnicas acrobáticas, no entanto, inúmeros alunos de sua escola focam apenas nas acrobacias.

“Uma das coisas que vejo no aprendizado daqui desde que cheguei é que há ênfase na boa técnica, mas também na forma física. E isso é a base mais importante para todo o circo. Há um encorajamento a trabalhar duro a forma física, para ficar mais forte, adquirindo assim uma boa base, e não só truques”, detalha Mark. “Para nossos estudantes é muito legal o contato com uma cultura diferente”, continuou.

Ainda de acordo com o diretor-geral, em Glasgow existem inúmeras escolas de circo e é comum que os alunos já ingressem com o desejo de aprender acrobacias desde o início. Nesse cenário, os métodos para trabalhar o condicionamento físico se tornam um desafio, para que não se perca os estudantes em um ambiente de concorrência. “Então temos que ter certeza que estamos trabalhando a preparação física tanto quanto estamos ensinando as técnicas e os truques”, observou.

“Um exemplo que os alunos têm visto aqui é isso, que além de treinar os truques e as técnicas difíceis, eles trabalham duro para desenvolver o corpo também, a capacidade cardiovascular, a força, a flexibilidade. Às vezes, em uma aula você não vê diferença, mas eles percebem aqui que as pessoas que estão trabalhando há um pouquinho mais de tempo, o resultado a médio prazo é muito melhor. Então, esse exemplo dá a eles mais estímulo para quando chegarem lá, passarem essa ideia à frente. Treinar duro o físico, e não só o técnico”, acrescenta Pedro.

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