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Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2018
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Equipe de arqueólogos da Univille pesquisa sambaqui em São Francisco do Sul

Local foi cadastrado em 2002 e está em um ponto da Praia Grande batizado de “Casa de Pedra"

Raquel Schiavini Schwarz
Joinville
Reprodução/ND
Equipe encontrou objetos datados em 5.470 anos

 

Os pincéis das arqueólogas e professoras Dione Rocha Bandeira, Maria Cristina Alves e equipe encontram muito mais do que vestígios. Buscam desvendar civilizações pré coloniais, entender como viviam, do que se alimentavam e qual era a relação com o espaço ocupado. O trabalho é minucioso, lento, pode levar anos, até décadas, mas a intenção é sempre fazer revelações que possam contribuir com a história.

Uma das últimas descobertas foi um sambaqui com 35 cm de profundidade na Praia Grande, na Ilha de São Francisco do Sul. Este sambaqui, que está em um abrigo, batizado de “Casa de Pedra”, foi cadastrado em 2002, mas somente em julho deste ano começou a ser escavado e no mês passado (dia 17) saiu a datação. São coletadas, pelo menos, duas amostras. A próxima da base (20 cm de profundidade) deu 5.470 anos antes do presente. A do topo, 4.460 anos antes do presente. A margem de erro é de 30 anos. A datação é feita por um laboratório especializado nos Estados Unidos e custa US$ 590  cada uma.

Dione Bandeira, que é professora do mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade e coordenadora da especialização em Arqueologia da Univille, faz questão de frisar que este abrigo sob pedras é atípico e inédito pelas características apresentadas, como a descoberta de ossos humanos desarticulados bem próximos da superfície, o que aponta para vários questionamentos. Um deles é quanto a sepultamentos rasos. Maria Cristina Alves lembra que alguns grupos pré-coloniais tinham o hábito de fazer enterramentos em abrigos perto da superfície, mas isto ocorria mais na região do Planalto catarinense.

Antes de iniciar a escavação, os pesquisadores delimitaram a área do sítio, que fica dentro do Parque do Acaraí, uma unidade de conservação estadual. “O estudo apenas começou. Pode levar anos”, comenta Dione.

O que se descobriu até agora foi que a camada arqueológica tem 35 cm, o que é considerado bem atípico, pois os sambaquis registrados tem entre 1 e 25 metros. É também o primeiro sítio com concha em abrigo no Litoral catarinense conhecido pelas pesquisadoras, até agora. Por isso, a importância da pesquisa.

Há diferença de quase mil anos entre a datação da base e a do topo, mas ainda não é possível saber se houve uma ocupação contínua. “É realmente um desafio tentar entender o que aconteceu neste período. Como a camada é de apenas 35 cm, a escavação tem que ser muito delicada”, acrescenta Dione, que coordena o projeto Cultura Material e Patrimônio Arqueológico Pré-Colonial da Costa Leste da Ilha de São Francisco do Sul, da Univille.

No Laboratório de Geologia e Arqueologia da universidade, já há material sendo processado e analisado. Os pesquisadores já conseguiram notar, por exemplo, a presença de moluscos como a amêijoa que não aparecem em quantidade relevante em outros sambaquis da região; e ossos de peixes identificados como baiacu, corvina, bagre e miraguaia que são diferentes dos encontrados nos sítios próximos onde predominavam peixes-espada e roncador. Com isso, já é possível perceber a diferença na alimentação entre os grupos que viveram na região. Mas, além da dieta, os estudiosos buscam entender as práticas e em contexto se deu isto.

A camada de concha da Casa de Pedra é cheia de carvão, o que indica que o grupo fazia fogueiras dentro do abrigo. Mas nada é conclusivo até agora. Está apenas no campo das interpretações preliminares.

Em fevereiro do ano que vem, os pesquisadores da Univille vão retornar ao abrigo e continuar a escavação. Irão fazer um processo que chamam de decapagem, trabalhando, ao mesmo tempo, em toda a área do abrigo.

Reprodução/ND
Área do sítio fica dentro do Parque do Acaraí, uma unidade de conservação estadual

Relação com migrações

Os povos pré-coloniais do Litoral catarinense que construíram os sambaquis eram pescadores-caçadores-coletores, seminômades cujo origem pode estar relacionada com as últimas migrações de caçadores-coletores pelo planeta. Como o ambiente costeiro oferece muitos recursos, estes povos podem ter ficado mais tempo, o que explica a riqueza do patrimônio arqueológico da baía Babitonga, explica a professora Dione.

“O fato é que em 1500 os sambaquianos já não estavam mais aqui. Procuramos entender o que aconteceu no período entre os caçadores-coletores pescadores mais antigos até a chegada dos indígenas, que tiveram contato com os europeus”, explica Dione.

Região pesquisada

A região estudada pelos pesquisadores da Univille se estende por cerca de 30 quilômetros, vai do Canal do Linguado até a Prainha. Há cadastrados 28 sambaquis, um abrigo e uma oficina lítica de polimento. Entre os sambaquis, há diferenças nas formações, camadas arqueológicas e locais de implantação. Acredita-se que pelo menos três grupos foram identificados: os tradicionais a céu aberto; os que estão ligados à presença da cerâmica e agora o abrigo sob pedra.

Entre outras coisas, interessa ao grupo saber como se deu a ocupação, que lugares que escolheram para se assentar, como era este ambiente, que recursos utilizaram e que relações estabeleceram com o meio ambiente e entre si.

Outro ponto chave é entender o ambiente naquele período. Sabe-se que há 5 mil anos o nível do mar era mais alto, o que influenciou no assentamento dos grupos.

“Alguns sítios estão em locais muito estratégicos”, pontua a arqueóloga Maria Cristina Alves.

Por isso, outros professores da universidade estão envolvidos no projeto, como é o caso de Celso Vieira Voss, geógrafo, que estuda a geomorfologia da ilha.

Trabalhos em campo

Em 2013, a Univille conseguiu viabilizar um projeto com recursos próprios para trabalhar nesta área de sambaquis. Mas foi a partir de 2015, com um financiamento da Fapesc, que houve melhores condições de trabalho.

Nestes dois anos, a equipe fez alguns trabalhos de campo, mais voltados ao reconhecimento, e desenvolveu dois projetos vinculados à especialização em arqueologia: um sobre arqueologia da paisagem a partir do conjunto de sambaquis no Extremo-Sul da Praia Grande e outro no campo da etnoarqueologia que, a partir de relatos de pescadores atuais, tenta levantar informações que poderão ajudar a interpretar os povos pré-coloniais.

Já em 2015, foram formadas duas frentes de trabalho. Uma para fazer a caracterização dos 28 sambaquis e outra para a pesquisa e escavação na Casa de Pedra.

Dione Rocha Bandeira lembra que o projeto Cultura Material e Patrimônio Arqueológico Pré-Colonial da Costa Leste da Ilha de São Francisco do Sul abriga outras pesquisas em arqueologia de alunos de diversas graduações e mestrado em patrimônio cultural. Por ser uma região preservada e com muitos sítios e pouco explorados, há um campo rico para pesquisadores.

Entre os estudos, estão a mudança ambiental e sua relação com as ocupações humanas na pré-história na região; sobre a cerâmica encontrada no sambaqui Enseada I; e sobre sustentabilidade dos povos pré-coloniais (a partir dos restos de animais).

Há também pesquisas de iniciação científica sobre as informações históricas do século 16, quando houve o contato entre o branco com os povos indígenas que existiam aqui, sobre os processos históricos de destruição dos sambaquis, e dos vegetais que eram utilizados pelos sambaquianos do abrigo, por exemplo.

“A arqueologia é um campo interdisciplinar por natureza. Em qualquer sítio, vamos encontrar restos humanos, de animais e plantas, instrumentos de rocha. Por isso, envolvemos todas as áreas, história, geografia, biologia, botânica, zoologia.... Precisamos entender todo este ambiente”, finaliza a mestre Dione Rocha Bandeira, que pretende seguir com sua pesquisa e contribuir com informações relevantes para a sociedade

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