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Dois anos depois do latrocínio, caso da morte de Micheline Cordeiro ainda não foi concluído

Mulher morava em Balneário Barra do Sul e corpo foi encontrado em Guaratuba (PR)

Adrieli Evarini
Joinville

“Tudo bem, hoje ela fica, mas amanhã eu volto para buscar ela.” Essa foi uma das últimas frases que a dona de casa Olinda Hoff, de 66 anos, ouviu da filha, Micheline Cordeiro, 35, no dia 8 de junho de 2014. Foi neste dia que Micheline saiu de casa, em Balneário Barra do Sul, levando dentro do seu carro, um Citroën C3, praticamente todos os seus pertences e da filha mais nova, na época com 6 anos. A intenção de Micheline era levar também a filha, mas Olinda não permitiu e esse ato certamente salvou a vida da menina. A visão do carro saindo de casa foi o adeus à filha, encontrada morta dias depois, em Guaratuba (PR), com requintes de crueldade. Apesar das investigações, o local da morte não foi identificado.

 

Divulgação/ND
Micheline Cordeiro, 35 anos, foi vista pela última vez com vida no dia 8 de junho de 2014

 

Passados dois anos da tragédia, ainda vivendo sob medo constante, tudo o que a família espera é que o assassino seja julgado e condenado pelo crime que cometeu contra a dona de casa. O suspeito, o ex-inquilino Claudinei Rodrigues, que se apresentava como Gabriel, está preso, mas por outro crime. Mas a família está convicta de que ele premeditou a morte de Micheline.

Como o caso está em segredo de justiça, a Polícia Civil não fala sobre as investigações. Micheline, que estava em processo de divórcio do marido, Cleverson Cordeiro, com quem estava casada há 18 anos, havia iniciado um relacionamento virtual com Gabriel. Ele a convidou para ir embora. Mas provavelmente no mesmo dia em que saiu de casa foi morta e o corpo abandonado em uma região de difícil acesso, perto de uma pedreira abandonada, em Guaratuba.

“Aquela segunda em que ela voltaria não chegou. Hoje em dia a gente não espera muita coisa da Justiça. Não quero o mal, mas quem semeia, colhe. A única coisa que peço é que ele pague, que fique preso pelo que fez para a minha filha. E se ele sair (da prisão), nós também corremos risco, porque ele é um sujeito que não tem cabeça”, diz Olinda.

Para piorar a situação, como sabia que o casal vivia uma relação tumultuada e cheia de agressões mútuas, o acusado ainda tentou envolver o próprio marido da vítima no crime. Cleverson chegou a ser preso, mas sua participação foi descartada ao longo da investigação.

 

Obsessão pela magreza e desequilíbrio psicológico

A obsessão pela magreza e o efeito colateral de um remédio para emagrecimento teriam sido os primeiros sintomas de que a saúde de Micheline Cordeiro não estava boa. Olinda, que ainda mora em Balneário Barra do Sul com o genro e os dois netos – o filho mais velho de Micheline tem 16 anos hoje, conta que o comportamento da filha já estava alterado há tempos.

O relacionamento da filha e do marido estava conturbado e, após ela iniciar um tratamento com fortes medicamentos para perda de peso, seu comportamento se alterou de tal forma que ela praticamente não reconhecia a filha. Quando morreu, Micheline, que tinha em média 60 quilos, estaria com cerca de 45 quilos.

“Ela já estava alterada, eles brigavam, ele não aceitava esse comportamento e tinham desavenças. Ela já estava tomando os remédios fazia tempo, estava muito magra, fraca. Eu obrigava ela a comer, mas ela dizia que estava gorda”, conta. Foi neste momento que ela se aproximou de Claudinei Rodrigues, que usava o nome falso de Gabriel. Ele morou de aluguel em uma das casas da família, em Joinville, e também teria comprado dois carros de Cleverson. Nunca pagou o aluguel nem os carros.

Olinda lembra que a filha chegou a mostrar fotos do rapaz. Para uma amiga, ela também revelou dias antes que estava namorando alguém. No dia em que saiu de casa, Micheline disse para a mãe que daria um fim no chip do celular e esconderia o carro para que o Cleverson não o tomasse dela. Saiu sem se despedir do filho mais velho e sem olhar para trás.

Dias depois, a mãe recebeu mensagens de texto, mas já sabia que algo errado havia acontecido, que aquelas mensagens não eram da filha. “Aquelas mensagens não eram dela, ela tinha dificuldade no português, trocava algumas coisas e aquela não era ela. Acho que ele matou minha filha no mesmo dia que ela saiu de casa, estava tudo planejado”, lamenta Olinda.

Dois dias depois de Micheline deixar a família, o carro foi vendido em uma revenda de automóveis em Joinville. O corpo dela foi encontrado dias depois, mas a família só tomou conhecimento dele no dia 26 de junho. As tatuagens de Micheline foram o ponto de partida para reconhecimento do corpo.

Cleverson, que chegou a ser apontado e preso como suspeito de envolvimento da morte da mulher, ainda vive em Balneário Barra do Sul, e afirma que só quer justiça. “Ele atraiu ela. Estávamos vivendo um relacionamento conturbado, mas foram 18 anos de casamento e ela jamais iria desaparecer e não dar notícias para os filhos”, ressalta.

 

Acusado tentou incriminar marido

Claudinei foi preso por outro crime ainda utilizando o nome Gabriel e, durante essa prisão, seu nome verdadeiro foi descoberto. Ainda no presídio, foi reconhecido como sendo o suspeito pela morte de Micheline e negou. Segundo Douglas Voltolini, representante legal da família no processo, um telefone usado pelo assassino de Micheline foi descoberto durante as investigações. Essa linha estava cadastrada em nome de um policial de Curitiba e, segundo o depoimento de Claudinei, esse policial era seu amigo, teria cumprido ordens do marido de Micheline e a matado.

Cleverson e o policial passaram cerca de 30 dias detidos. O advogado solicitou à polícia que fosse realizado o reconhecimento e ele não conhecia o policial. “No reconhecimento, Claudinei apontou pessoas diversas. Na verdade, só se tratava de uma tentativa de manipular a prova e tirar a responsabilidade dele. O reconhecimento foi crucial para a soltura do policial e do Cleverson”, explica.

“A pior coisa é ser acusado por uma coisa que você não fez. É uma experiência terrível. É um alívio e ao mesmo tempo um medo ver ele preso, porque dizem que ele tem envolvimento com facção criminosa”, desabafa.

A mãe de Micheline diz que em momento algum duvidou da inocência do genro, que conhece há mais de duas décadas. “Ele foi acusado porque o responsável queria se ver livre. Ele já foi preso, sim, porque ela queria se ver livre dele e ia à delegacia acusar ele de agressão. Os dois discutiam, mas ele era e é inocente. Eu conheço ele há mais de 20 anos e confio nele, ele ama a minha filha”, destaca. Ela conta que o genro não se recuperou da perda que sofreu. “Até hoje ele chora, se tranca no quarto e diz que a vida dele acabou”, finaliza.

O advogado acredita que, em no máximo 60 dias, o julgamento em primeira instância seja realizado. Para ele, Claudinei, o único denunciado pelo Ministério Público, deve ser condenado a mais de 20 anos de prisão. O MP denunciou o suspeito por latrocínio (roubo seguido de morte). Durante a fase policial, o suspeito negou envolvimento na morte que, de acordo com o laudo pericial, teve como causa afundamento de crânio. Para Voltolini, apesar de Claudinei ter tentado desviar o foco das investigações, o juiz deve confirmar o entendimento do promotor, de que ele foi responsável pelo crime.

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