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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Cuidadora flagrada agredindo gêmeas deficientes em Rio Negrinho diz ter sido ameaçada

Liamar Maia chegou a registrar um boletim de ocorrência contra a família

Thaís Moreira de Mira
Joinville

As agressões flagradas pelas câmeras escondidas na sala, na cozinha e no banheiro da casa onde moram as irmãs gêmeas Alaudi e Alauci Ruzanowsky, de 42 anos, ambas portadoras de deficiência mental, chocaram a população e, inclusive, a Polícia Civil de Rio Negrinho, no início desta semana. Nas cenas gravadas de 4 a 8 de agosto, Alaudi aparece sentada no sofá quando é cruelmente agredida pela mulher contratada para ser a cuidadora dela e da irmã. Sem desconfiar das câmeras instaladas em pontos estratégicos do imóvel, como o lustre da sala, por exemplo, Liamar Maia, 52, pressiona um cabo de vassoura contra o pescoço da vítima, além de enfiar um pedaço de pau na sua garganta.


Reprodução/RICTV Record/ND
As gêmeas, de 42 anos, têm idade mental de uma criança de dois anos

 

A deficiente que, conforme a família, possui o cérebro equivalente ao de uma criança de dois anos, também é forçada a engolir pedaços grandes de maçã que são jogados na sua boca com truculência, e o remédio. A denúncia de maus-tratos contra Alaudi foi feita na delegacia de Rio Negrinho, já primeira semana deste mês. Porém a aposentada Roseli Ruzanowsky, 53, irmã e tutora legal das gêmeas, disse que na oportunidade a gravação entregue à polícia não estava de boa qualidade. A família, então, contratou uma empresa da cidade para instalar as câmeras que capturaram com nitidez as atrocidades cometidas por Liamar.

:: Assista ao vídeo das câmeras escondidas, que flagram as agressões ::

São, ao todo, três horas de agressões. “Na segunda-feira ela (Liamar) estava trabalhando mais na parte de fora de casa, mas nos outros dias temos as imagens das agressões. Sexta-feira foi o pior dia, ela (Alaudi) foi muito agredida”, descreve Roseli. Ela também detalha que a cuidadora dava banho de água fria em suas irmãs e jogava o almoço de Alaudi para os cachorros comerem. A vítima chegou a perder 15 quilos em dois meses, fato que aliado à sua mudança de comportamento aumentaram as suspeitas da família.

“Quando as minhas irmãs e a minha mãe sentavam para comer ela corria pegar o prato da Alaudi e dava para a cachorra lá fora”.

Irmã lutava para provar as agressões

Roseli revela que já desconfiava das agressões sofridas pelas irmãs gêmeas desde que Liamar, vizinha da família há mais de quatro décadas, começou a trabalhar na casa há cerca de um ano. Ela lembra que logo nos primeiros meses flagrou a cuidadora puxando Alaudi pela camisa, mas a suspeita negou qualquer intenção de machucar a vítima. A vítima também apareceu com roxos pelo corpo, mas Liamar alegou que os hematomas foram provocados durante supostas brigas entre as gêmeas.

“Ela disse que as duas brigavam no ônibus a caminho da Apae. Eu, como tutora, fui na Apae e todo mundo negou que elas brigavam no ônibus, elas são muito meigas”. Roseli vai além, e diz que já se escondeu no porão do imóvel para flagrar as agressões. “Eu morava em Tubarão com a minha filha que faz faculdade e vim para ir ao médico, porque meu plano de saúde só atende nesta região, não avisei nada pra ninguém. Pulei o muro aqui de casa e me escondi no porão, vi coisas horrorosas que não quero falar agora”.

Conforme Roseli, fazia aproximadamente cinco meses que Liamar cuidava das gêmeas. Mesmo sabendo das atrocidades cometidas pela cuidadora, ela buscava um meio de juntar provas legais contra Liamar, que sempre foi bem quista pelos seus outros cinco irmãos e sua mãe. “Se eu falasse seria minha palavra contra a dela, achariam que eu estava louca”. Na casa de Alaudi e Alauci ninguém nunca desconfiou da suspeita, nem mesmo a mãe que mora junto no imóvel. “Eu não via, não percebia nada”, afirma Erfrida Ruzanowsky, 80.

Agressões aconteciam pela manhã

Roseli e a irmã, Marli Jurema Marschal, 57, detalham que a cuidadora chegava ao trabalho por volta de 7h30. Ela aproveitava que a mãe das gêmeas estava dormindo, e é deficiente auditiva, para cometer as agressões. O volume da televisão também era aumentado no último volume. “Pode ver nas imagens que ela está sempre com o controle na mão. Ela também fazia questão que a minha mãe só colocasse o aparelho no ouvido depois das 10 horas”, garante Roseli.

As gêmeas ficavam sob cuidados de Liamar até o início da tarde, quando iam para a Apae. À noite, um dos irmãos se revezava para cuidar de Alaudi e Alauci. Aqueles que não podiam ficar com elas pagavam outra cuidadora para ajudá-las. “Elas não conseguem fazer nada sozinhas, são dependentes. Elas têm qualidades, dão trabalho, dão, mas nada justifica as agressões. Estou revoltada e quero justiça”, enfatiza a tutora.  

Inquérito deve ser concluído até final da semana

De acordo com o delegado Thiago de Freitas Nogueira, titular da delegacia de Rio Negrinho, assim que a filmagem chegou à unidade foi instaurado inquérito policial para apurar o caso. Os familiares das gêmeas e outras testemunhas prestaram depoimento. Liamar deu sua versão para o fato na tarde desta segunda (11). Porém, diante do delegado Nogueira, a suspeita permaneceu calada.

Apesar de não ter prestado nenhuma declaração formal à Polícia Civil, Liamar tem contra si provas bastante contundentes. “As imagens são chocantes, nós estamos tratando o caso como tortura”, afirma o delegado. Ele acredita que o inquérito seja concluído e entregue ao Fórum até esta próxima sexta (15). Liamar deve ser indiciada pelo crime de tortura, com pena de dois a oito anos de prisão. O crime é agravado por ter sido praticado contra deficiente mental.

Se o exame de corpo de delito ainda comprovar que em decorrência das agressões a vítima sofreu lesão corporal grave, Liomar poderá ser condenada de 4 a 10 anos de prisão. Ela segue em liberdade até decisão segunda ordem da justiça.

Suspeita alega inocência

Adriano Mendes/RICTV Record/ND
Liomar diz que foi ameaçada por familiares das gêmeas

 

Liamar Maia aceitou conversar com a reportagem do Notícias do Dia, na tarde desta terça (12). Ela negou as acusações feitas pela família das gêmeas Alaudi e Alauci e ainda disse ter sido agredida por um sobrinho delas que trabalha na Polícia Civil. As marcas no rosto da cuidadora teriam sido feitas no último sábado (9), quando os irmãos de Alaudi e Alaci a chamaram para mostrar as imagens flagradas pela câmera escondida. Ela registrou boletim de ocorrência sobre a agressão.

“Eles ameaçaram meu filho que é menor, tem 16 anos, destruir minha casa. Uma sobrinha delas que é da Polícia Civil em Jaraguá do Sul disse que se eu fosse presa ia acabar com a minha vida lá embaixo”. Liamar afirma que em nenhum momento tentou machucar Alaudi. A cuidadora diz que não pressionou o pau contra a garganta da vítima, e o cabo de vassoura era apenas para fazê-la sentar.

Mas Liamar admite que possa ter exagerado em determinada situação e se diz arrependida. “Não fiz nada para machucar, eles inverteram a história para jogar a culpa em mim. Tinha outra cuidadora lá, mas eles só estão me acusando”. Liamar continua morando numa casa a poucos metros das vítimas e diz que não tem motivos para se mudar de Rio Negrinho.

 

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