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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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A música que embalou a Joinville do passado

Corais e grupos musicais faziam parte do dia a dia da antiga Colônia Dona Francisca desde os primeiros tempos

Maria Cristina Dias
Joinville

Um lugar onde a música era cultivada. Esta era a rotina na antiga colônia Dona Francisca desde os primeiros anos de formação e continuou em Joinville ao longo da primeira metade do século 20. Uma tradição que começou com as primeiras sociedades de canto, de teatro e até de ginástica, ainda no século 19, se manteve nos grupos musicais populares no início do século 20 e ainda hoje tenta sobreviver nas sociedades que conseguem manter atividades, como a Lírica ou Harmonia-Lyra. “A música era cultivada na família”, destaca a pesquisadora, professora e cantora Rosenete Eberhardt, que fez uma imersão na produção musical da cidade entre 1900 e 1950 e trouxe à tona a riqueza e variedade desta atividade artística naqueles tempos.

 

Fabrício Porto/ND
“A música era cultivada na família”, destaca a pesquisadora, professora e cantora Rosenete Eberhardt

 

A música estava presente no dia a dia da antiga colônia Dona Francisca desde os primeiros tempos. Em 1858, sete anos após a chegada dos primeiros imigrantes, a localidade já ganhava três sociedades culturais que praticavam a atividade de forma direta ou indireta: a Sociedade Harmonie (voltada ao teatro, que chegou aos nossos dias como a Harmonia-Lyra), a Sociedade Ginástica (que utilizava a música em seus exercícios e apresentações) e a Liga de Cantores, que traz seu objetivo no próprio nome.

Mas esse movimento não se restringia à área central da colônia. Ao contrário, moradores de regiões mais afastadas, como Pedreira (que hoje é Pirabeiraba) ou a estrada do Oeste, por exemplo, também se reuniam para cantar, tocar seus instrumentos e desenvolver atividades culturais. “Por volta de 1865, tanto na zona urbana, quanto na área rural, por meio das igrejas e de associações de ginastas ou culturais, a música era valorizada”, revela a pesquisadora.

Este cenário foi consolidado no século 20. Rosenete fez uma imersão nos documentos do Arquivo Histórico de Joinville e nos relatos de antigos memorialistas, como Adolfo Bernardo Schneider e Elly Herkenhoff, e revelou um pouco do panorama musical da época e como isso fazia parte da vida cotidiana. Suas pesquisas confirmaram o que já percebia em sua experiência de vida e o que os memorialistas indicavam nos escritos: a de que o gosto pela música começava a ser criado em casa e permeava o cotidiano dos imigrantes e seus descendentes.

A pesquisadora faz parte da quarta geração de imigrantes germânicos. Seu trisavô Seiler chegou nos primeiros anos da colônia. Seus bisavós e avós eram moradores da Estrada do Oeste, na área rural de Joinville, onde cultivavam a terra e mantinham um alambique. Agricultores, viviam longe do centro, onde iam comercializar seus produtos. “O gramofone da minha vó tem mais de cem anos. Eram colonos, mas tinham um gramofone e em volta dele eram realizadas as reuniões e bailes familiares”, revela.

Na série de livros “Memórias de um menino de 10 anos”, Adolfo Schneider também revela a presença da música no dia a dia de sua família que, ao contrário dos Seiler, vivia na área urbana. Nascido em janeiro de 1906, ele conta em seus livros sobre como a música estava presente na sua casa, as lembranças de Carnaval e a relação dos habitantes da cidade com a música. “Sua mãe nasceu na Alemanha, foi educada em um internato de ‘mocinhas’ e gostava de tocar piano”, conta a pesquisadora, citando um relato de Schneider, onde ele revela que muitas vezes as pessoas que passavam na rua paravam em frente à janela da casa dele para ouvir sua mãe tocar.

Em suas memórias, Schneider resume a prática comum entre os imigrantes: “possuíam uma acentuada queda para organizar festas das mais variadas. Gostavam de música: piano, violino, violão, guitarra, trompete, trombone, acordeom, gaita de fole, cítara etc”, escreve, ressaltando que a Deutsche Schule incentivava o aprendizado de canções folclóricas alemãs e os alunos contavam até com um professor de canto.

Rosenete lembra que no início do século 20, Joinville tinha cerca de 20 sociedades voltadas à cultura de forma geral, que usavam música em suas atividades. “No início do século, os músicos também acompanhavam as peças de cinema”, comenta. As igrejas luteranas também tinham seus corais. “Em momentos marcantes da cidade, eles iam para as sociedades e se uniam para formar grandes corais”, afirma.

Compositores conhecidos no passado e praticamente esquecidos hoje

Rudolpho Kohlbach, João Graxa Gonçalves, Alfredo Herkenhoff e muitos outros. Conhecidos no meio musical no final do século 19 e, principalmente nas primeiras décadas do século 20, estes nomes pouco são lembrados hoje. Músicos, eles integravam grupos variados e até orquestras, compunham e compartilhavam suas criações para o público da região. 

Kohlbach, por exemplo, fazia parte de uma família de músicos que já era tradicional naquela época. Alemão, nascido em 1865, ele chegou a Joinville com 20 anos e junto com o pai Francisco Kohlbach e irmãos, abriu uma fábrica de instrumentos musicais no Itapocu. No livro “A Memória do Patrimônio Musical de Joinville”, Rosenete  Eberhardt conta que ele era pianista, compositor e arranjador e foi maestro da Musikverein (a sociedade musical que se uniu à Sociedade Harmonie para criar a a Sociedade Harmonia-Lyra) regente do coral da Sociedade Lírica, na década de 1920, já no final de sua vida.

Em suas pesquisas, ela deparou-se com um exemplar do primeiro jornal de música que se tem notícias na cidade: o Harmonie, criado Kohlbach em 1905. “Eram partituras para que as pessoas pudessem tocar”, explica Rosenete. A publicação era mensal, mas só foi encontrado um único exemplar no Arquivo Histórico de Joinville. Não há informações sobre até quando ele circulou ou quantas edições foram feitas. No jornalzinho, ele compartilhava suas próprias composições. “Pequenas peças para piano de sua autoria, polcas, valsas, schotisch, mazurkas, que serviam tanto como pequenas danças ou como peças para serem executadas em salas de concerto”, escreveu a pesquisadora em seu livro.

Da família Kohlbach vieram também nomes como Alfredo Herkenhoff e Anita Kohlbach, sobrinhos de Rudolpho e também músicos conhecidos na primeira metade do século 20. Alfredo, no fim dos anos 1920, compôs, entre muitas outras coisas, uma melodia que recebeu a letra de sua irmã, a memorialista e escritora Elly Herkenhoff, e recebeu o nome de “Hino a Joinville”.

Sua prima, Anita Kohlbach foi um capítulo à parte nessa história, onde os nomes masculinos aparecem em maior quantidade. Em seu livro, Rosenete revela que ela tocava ao lado do irmão Leopoldo, desde muito cedo, animando as sessões de cinema da época. Leopoldo era violinista, participou da montagem da Ópera Yara, em 1936, e foi regente da Orquestra Sinfônica da Lyra. Juntos, os irmãos criaram a Orquestra de Bailes Marabá, em 1940, que animava os eventos da cidade. Apesar desse movimento mais popular, sua formação era erudita.

De origem germânica e acostumada a falar o idioma alemão em casa e em suas atividades, Anita também compôs em português. No início dos anos 40, uma época em que a Campanha de Nacionalização atuava com toda intensidade na cidade, compôs o samba “Eu Sou Brasil”, uma peça para piano e instrumento de sopro.

Outro nome que aparece em muitos dos registros encontrados por Rosenete e que hoje praticamente não é lembrado é do maestro e compositor João Graxa Gonçalves, um francisquense que morava em Joinville e que, na época, era muito conhecido no meio musical. Em suas Memórias, Adolfo Schneider cita Graxa ao revelar que havia em Joinville uma variedade de bandas e grupos musicais, como Guarani e Kapelle Graxa, formada pelos irmãos Graxa. Eles se apresentavam não só nos salões de baile, mas também nas residências e até nos jardins públicos.

Foi de João Graxa a iniciativa, na década de 1920, de estabelecer o segundo jornal de música de que se tem notícias em Joinville. Ao contrário do periódico de Kohlbach, criado muitos anos antes, este segundo jornal não se restringia às partituras. Tinha também curiosidades sobre música, notícias e até propagandas. O material era impresso na Tipografia Boehm, que tinha uma área de litografia. A pesquisadora lembra que na primeira edição ele explicou o propósito da publicação: “proporcionar algumas horas de distração aos amadores de nossa querida arte”, escreveu Graxa.

Material para essa distração não faltava. Embora tenham sido encontrados poucos exemplares, é possível perceber que em cada número era publicada uma composição sua. E ele transitava por vários gêneros musicais. “Ele compunha vários gêneros musicais que estavam na moda na época. Desde valsas, fox-trot, schotisch, tangos, composições para piano solo e outras para canto e piano”, destaca Rosenete.

Serviço:

O quê: Lançamento de “Memória do Patrimônio Musical de Joinville – 2ª edição”, de Rosenete Eberhardt Llerena

Quando: neste sábado, às 16h, no Instituto Juarez Machado (rua Lages, 944, América)

Quanto: gratuito

Participações especiais: grupo Babado de Saia, violonista Marcos Llerena e a própria autora interpretando músicas de Joinville, compostas na primeira metade do século 20

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