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Segunda-Feira, 24 de Setembro de 2018
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A imagem que moradores do Morro do Amaral consideram uma benção

Devotos afirmam que estampa em casca de ostra é o vulto de Nossa Senhora Aparecida

Oswaldo Ribeiro Jr.
Joinville
Carlos Júnior/ND
Concha foi encontrada por Lindamir Aparecida da Silva, a dona Linda

 

Carlos Júnior/ND
No ponto que fica na parte superior da ostra, a imagem que desperta emoções

 

Carlos Júnior/ND
Casa de Dona Linda virou um ponto de romaria para os devotos de Nossa Senhora

 

Carlos Júnior/ND
"Fui ver e quando voltei pra casa eu não conseguia parar de chorar", diz Ugo Soares

 

Uma imagem estampada na casca de uma ostra está sendo reverenciada desde segunda-feira (14) pela comunidade do Morro do Amaral, zona Sul de Joinville como uma representação de Nossa Senhora Aparecida. A imagem é intrigante, mas não espanta quem lida com a fé ou estuda o molusco. Para a modesta comunidade, está sendo considerada uma benção. “Poderia ter aparecido em qualquer lugar, mas apareceu aqui, e para mim é realmente a imagem da santa”, afirma a dona de casa Daniela Soares, 26 anos.

A casca da ostra foi encontrada por Lindamir Aparecida da Silva, 44, a popular dona Linda, no dia 28 de fevereiro. “Estava toda enlameada, mas chamou minha atenção pelo formato dela, onde dá de fazer um suporte de velas”, conta a trabalhadora da pesca. A intenção era a de usar a casca nos artesanatos que dona Linda faz em casa nas horas em que não está tirando carne de siris e caranguejos.

A peça então foi limpa e deixada por três dias de molho em água sanitária. Depois disso, dona Linda secou a casca e começou a preparar o suporte de velas que havia imaginado fazer com o artefato. Foi aí que ela teve a surpresa. “Quando eu ia colar uma peça na outra é que vi a imagem de Nossa Senhora. Eu fiquei sem saber o que fazer, só sei que fiquei muito feliz”, lembra, emocionada.

Dona Linda manteve sigilo. Logo que viu a imagem, correu para mostrar ao marido Antônio José da Silva, 48, pescador. “Ficamos admirados com a imagem, mas preferimos não contar pra ninguém, pra não dar problema. Achamos melhor”, explica Antônio.

Devota de Nossa Senhora Aparecida e com uma história de vida em que a presença da santa é constante, dona Linda não manteve a descoberta em segredo por muito tempo. Primeiro mostrou para uma vizinha, que mostrou pra outra, que contou pra outra, até que o assunto chegou na boca do povo.

“Eu sei que desde então eu não consigo mais trabalhar, de tanta gente que vem aqui em casa pedir pra ver a imagem da santa na ostra”, diz dona Linda. “Mudou um pouco nosso ritmo de vida, mas a gente continua aqui, trabalhando, como todo dia. Mas talvez um pouco mais abençoados”, pondera Antônio.

Vida ligada à fé

Lindamir Aparecida da Silva nasceu e cresceu no bairro Itinga, em Joinville. Ainda na barriga da mãe ganhou o nome em homenagem à santa. “Minha mãe conta que vivia num sítio e, um dia, quando estava grávida de mim, o pomar pegou fogo. Ela estava sozinha no terreno, ficou desesperada. Então, sem saber o que fazer, fez uma promessa para Nossa Senhora dizendo que me daria o nome de Aparecida se o fogo parasse. Não deu dois minutos uma chuvarada caiu e o fogo apagou.”

Anos mais tarde, quando tinha cerca de 30 anos, dona Linda vivia maus bocados no bairro Itinga, que crescia, como ela mesmo diz, “assustadoramente”. “Cheguei a passar fome”, afirma. Foi então que se mudou para o distante Morro do Amaral. “Teve o dedo de Nossa Senhora aqui também, porque, como eu não tinha o que comer nem vestir, apelei para a santa, que logo me atendeu com essa casa onde vivo, que apareceu do nada e custou muito pouco.”

Mas foi com a cura repentina do irmão que a fé de dona Linda tornou-se mais forte. “Ele tinha cirrose, hepatite e leptospirose, tudo junto. Tava muito mal no hospital e ele não tinha escapatória. Rezei com fé para Nossa Senhora Aparecida todos os dias até que ele conseguiu se curar e hoje está um homem feliz e saudável”, afirma.

Segundo dona Linda, é por estes acontecimentos que ela bota tanta fé que a mancha na casca da ostra é mesmo a imagem de Nossa Senhora Aparecida. “Eu sei que é. Ela veio pra me abençoar. Poderia ter aparecido pra qualquer um, mas apareceu pra mim, e eu sou muito agradecida por isso.”

A única coisa que entristece dona Linda nos últimos dias é o fato de a ostra ter trincado justamente no local da imagem. “Eu não sei como isso aconteceu, talvez porque muita gente pegou na mão, não sei, mas ela se quebrou, tadinha”, conta, entre lágrimas. Muitas lágrimas.

Choro compulsivo

Devoto de Madre Paulina e de Nossa Senhora Aparecida, o aposentado Hugo Nascimento Soares, 58, ficou impressionado com a imagem na casca da ostra. “Fui ver e quando voltei pra casa senti uma coisa estranha, as pernas tremeram e eu não conseguia parar de chorar. Foi umas três horas chorando.”

Todo ano Hugo visita o Santuário Madre Paulina, em Nova Trento, e a Basílica de Nossa Senhora, em Aparecida do Norte (SP). “Sou religioso, tenho fé, muita fé em Deus. Acho que essa imagem abençoa uma comunidade livre de violência como a nossa e carente de fé. Isso sim é uma manifestação religiosa verdadeira”, afirma.

Assim como Hugo, a dona de casa Daniela Soares também acredita que a mancha na casca da ostra é de Nossa Senhora Aparecida. “Não tem como negar, dá pra ver o manto, certinho, é Nossa Senhora sim, eu tenho certeza.”

Manifestação da fé

Para o padre Inácio Giacomelli, líder da Paróquia Santa Luzia, é preciso ser prudente ao afirmar que a imagem na casca da ostra é realmente de Nossa Senhora Aparecida. “Realmente é possível ver traços que se assemelham ao manto de Nossa Senhora Aparecida, mas a Igreja recomenda ter muito cuidado ao lidar com este assunto para não iludir ou mesmo enganar quem tem fé.”

Padre Inácio soube das “ligações” de dona Linda com a santa em conversa com a reportagem. “Como ela parece ter uma ligação de vida com Nossa Senhora, é preciso respeitar o sentimento de benção que ela tem a partir da descoberta da imagem.”

Com a experiência de 50 anos de sacerdócio, padre Inácio prefere esperar o tempo passar para compreender o efeito religioso que a imagem encontrada por dona Linda causará na comunidade do Morro do Amaral. “Não há como antecipar nada. De repente o assunto pode ser esquecido, ou ganhar novas proporções, enfim, só o tempo mostrará o valor desta imagem.”

“É apenas uma semelhança”

A imagem na casca da ostra encontrada por dona Linda cobre uma ostra que se desenvolveu incrustada numa casca abandonada no mar. Segundo o oceanógrafo Gilberto Caetano Manzoni, isso acontece quando a ostra entra no estágio de formação chamado pediveliger.

“Nesta etapa, a ostra procura um lugar para se fixar, normalmente um substrato duro – rochas, raizes de mangue e conchas de ostras vazias –, ou seja, a larva encontrou uma concha vazia e se fixou, desenvolvendo-se no interior dessa concha vazia ”, explica Manzoni.

Sobre a semelhança da imagem com Nossa Senhora Aparecida, o oceanógrafo considera apenas uma semelhança. “Não creio que seja uma manifestaçao divina, e sim uma fé em Deus e em Nossa Senhora que potencializa nos fieis a visualização desta imagem.”

Dona Linda vai recuperar e guardar com carinho a imagem que ela acredita ser de Nossa Senhora Aparecida. “Vou tirar essa parte onde está a imagem, colar direitinho onde quebrou e guardar com carinho aqui em casa. Ela será para sempre a minha companheira.”

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