Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2018
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Costa da Lagoa: uma herança colonial está ameaçada

Casarão construído por escravos, por volta de 1780, pode ruir

Dos tempos em que era “moça”, Onézia Etelvina Pereira, 81, lembra com entusiasmo da colheita do café na casa da madrinha, dona Loquinha, proprietária do mais imponente sobrado da Costa da Lagoa na época: “Na frente da casa tinha o engenho. Atrás, a plantação de café. Os morros eram tomados de mandioca. A farinha era torrada na hora e fazíamos biju, rosca de polvilho, pão-por-deus...”. Erguido por mãos escravas por volta de 1780, a construção com ares aristocráticos remonta o apogeu do período colonial na Ilha de Santa Catarina, quando o caminho que liga o centrinho da Lagoa da Conceição à Costa ainda era tomado por roças, engenhos e pequenos agrupamentos de casas.

Abandonado, hoje, o sobrado é lembrado ao longo da trilha em apenas uma placa simplória com a data da construção e a referência ao uso da mão de obra escrava. E mesmo que as rachaduras e os buracos no reboco revelem os segredos da força que resiste há mais de 230 anos de pé —paredes de pedra, barro e óleo de baleia—, a falta de manutenção, pode incluir o casarão, uma das mais antigas obras ainda de pé em Santa Catarina, na coleção de ruínas ao longo da trilha da Costa da Lagoa.

Em 2014, o Ipuf (instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis) notificou o atual proprietário, Bruno Rolf Stiegger, sobre a necessidade de obras emergenciais sob pena de multa de 100% sobre o valor do dano causado e embargo. O dono do imóvel alega não ter condições de executar as obras e pede a transferência da titularidade do sobrado, avaliado em R$ 1,1 milhão, para o município através de doação.

Confira a foto em 360° do Casarão

Desde a morte de Loquinha, há quase 30 anos, nunca mais se ouviu o canto das crianças às voltas do sobrado —sempre ávidas pelos bolos de milho, rosquinhas e quitutes oferecidos pela anfitriã: “Ela adorava crianças. É uma tristeza ver o casarão nesse estado. Fechado, abandonado. Que alguém faça alguma coisa, porque é a história que acaba se perdendo”, desabafa Onézia.

Em 1986, o município reconheceu os oito quilômetros do chamado “Caminho da Costa” e seu entorno como patrimônio histórico, Artístico e Natural, incluindo o sobrado e o último engenho de farinha. Nos últimos 14 anos, os atuais proprietários sustentam ao município que têm buscado parcerias públicas e privadas para dar um destino adequado ao local nunca prosperaram.

Daniel Queiroz/ND - Onézia lamenta ver o casarão fechado
Daniel Queiroz/ND - Onézia lamenta ver o casarão fechado



A Prefeitura se recusa a receber o sobrado com o mesmo argumento de falta de verbas para realizar a restauração: “Para o município seria muito interessante, mas não podemos receber o bem com esta demanda financeira da qual não temos disponibilidade”, afirmou Vanessa Pereira, superintendente do Ipuf.

O caso foi parar na Justiça e, agora, a transferência da titularidade do imóvel está sob o crivo do juiz da 3ª Vara da Fazenda Pública da Capital, Laudenir Fernando Petroncini. No último dia 16 de novembro, Petroncini negou o pedido liminar da ação. Mesmo assim a ação continua tramitando ainda dependendo de julgamento final.

A Costa da Lagoa

2.000 moradores (aprox)

293 imóveis

600 eleitores

A reportagem tentou contato com Bruno Rolf Stiegger através de seus advogados, mas não recebeu nenhum retorno aos pedidos de entrevista. Na ação em que busca fazer a doação do sobrado ao município, a defesa de Stiegger alega falta de condições financeiras para realizar a reforma, assim como os altos valores de impostos pagos pelo proprietário. Entre os argumentos, os proprietários destacam que a intensão, desde a aquisição do imóvel, era de recuperá-lo para que viesse ter função cultural e histórica.

Últimos exemplares da colonização

Com o fim da escravidão em 1888, e a consequente diminuição da mão de obra, a economia da Costa da Lagoa foi passando lentamente da agricultura dos grandes engenhos de cana e mandioca quase que exclusivamente para a pesca. As roças, aos poucos, deram espaço à mata nativa que hoje novamente cobre toda a extensão da comunidade. E a maioria das construções ruiu ao longo da trilha. Estima-se que neste período, o desmatamento tenha consumido até 76% da vegetação da Ilha.

Do processo de colonização, apenas duas edificações resistiram ao tempo na Costa da Lagoa. Além do sobrado Dona Loquinha, moradores se orgulham em manter ainda em atividade o último engenho de farinha do Leste da Ilha com características do século 19, erguido, provavelmente por volta de 1790. Situado também em propriedade privada, o engenho é mantido pela Associação Engenho, que em seu estatuto declara o local com fins culturais e preservacionista.

 “Este engenho tem aproximadamente 150 anos de uso atual. Não sabemos bem ao certo quando ele foi construído e algumas peças devem ter vindo de outros engenhos da região, o que era comum”, aponta Esdras Pio Antunes da Luz, presidente da Associação. Pelo menos uma vez ao ano, a associação promove a chamada “farinhada”, onde reúne a comunidade para resgatar as tradições de seus ancestrais. O evento remonta outro tempo da Costa, ainda viva nos poucos vestígios da ocupação humana, no saber fazer da comunidade que nunca se dissipou daquele canto da Lagoa e na oralidade que passa de pai pra filho.

Engenho da região de Vila Verde é o único no Leste da Ilha com características do Século 19 ainda em funcionamento - Daniel Queiroz/ND
Engenho da região de Vila Verde é o único no Leste da Ilha com características do Século 19 ainda em funcionamento - Daniel Queiroz/ND


Cultura é espelho da comunidade

Quem for à Costa, e tiver sorte, poderá ouvir um pouco da história do sobrado Dona Loquinha a bordo de uma das baleeiras que fazem a travessia desde o centrinho da Lagoa da Conceição até a comunidade. Manoel Bernades, 69, funcionário da Cooperbarcos, diz que assim como os mais antigos da Vila tinha tinham a casa Dona Loquinha como ponto de referência na comunidade:

“Eu ia muito lá quando era criança. Era o lugar onde tinha os casamentos. Ali faziam farinha direto na chapa, torravam café. É um ponto turístico da trilha, mas está fechado”, adianta aos mais entusiasmados para conhecer o lugar.

O sobrado pertenceu a uma das cinco primeiras famílias a se instalar na Costa da Lagoa, provavelmente entre 1750 e 1780. A propriedade foi passando de geração em geração até ser ocupada pelos últimos três moradores, Loquinha, sua filha e um descendente de escravos. Manoel também lembra do marido de Loquinha, ‘seo’ Casimiro, que teria falecido muitos anos antes da esposa. Já o pai de Loquinha, Manuel João, foi um dos últimos da sua geração a ter em seu rancho as tradicionais canoas bordadas, usadas, na época, quase que exclusivamente para pesca da tainha e anchova. Algumas chegaram a ir ao Rio Grande (RS) em busca do pescado.

Em 1974 existiam 382 engenhos de farinha na Ilha de Santa Catarina 

Pesquisadores, como Esdras, que em 2014 defendeu “Na Reversa Do Vento: A Cultura Náutica Da Costa Da Lagoa”, no mestrado em Educação pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), onde estudou a vocação náutica da comuidade, além de manter viva a cultura dos engenhos com a farinhada anual; ou como o cineasta Zeca Pires, que levou a comunidade para as telas do cinema em 2010 com o filme “A Antropóloga”, também têm sua parcela de participação no processo de preservação cultural da Costa da Lagoa ao lado de moradores, pescadores e comerciantes da distinta comunidade.

Costa da Lagoa foi tema de filmes e outras publicações - Daniel Queiroz/ND
Costa da Lagoa foi tema de filmes e outras publicações - Daniel Queiroz/ND



“Quando saiu A Antropóloga foi um furdunço. Fizeram uma sessão lá no centrinho e depois nós fomos assistir também na Lagoa da Conceição”, lembra Manoel. O filme foi inteiramente gravado na comunidade e conta a história de uma antropóloga açoriana que atravessa o Atlântico para descobrir os costumes e os mistérios da cultura ilhéu catarinense.

Tombamento nacional não inclui sobrado

Assim como em 1750, quando foi criada oficialmente a freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, o acesso à Costa da Lagoa continua sendo feito da mesma forma, apenas por trilhas ou de barco, deixando moradores e visitantes mais próximos do que seria a vida ilhéu nos seus primórdios. As tentativas de se construir uma estrada desde o Canto dos Araçás até a Vila da Igreja foram totalmente afastadas com o decreto 274/1986, que sacramentou o tombamento de toda a trilha (8 km), considerando também a cobertura vegetal e as construções históricas como Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do município.

Mesmo assim, moradores e defensores do patrimônio histórico da Costa apontam riscos para a preservação da história ainda ali presente. “O decreto, por exemplo, até hoje não foi regulamentado. O tombamento é importante, mas é preciso pensar toda a região de forma única e não só o engenho ou o casarão da Dona Loquinha de forma isolada”, aponta Esdras Pio, da Associação Engenho.

Entre as propostas já apresentadas pela comunidade, a finalidade mais provável para o sobrado seria a criação de um museu que remontaria o período colonial da Costa da Lagoa, integrado ao Engenho e à trilha num projeto único.

No começo de novembro, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) anunciou o tombamento nacional das freguesias luso-brasileiras localizadas na região da Grande Florianópolis. O tombamento inclui uma lista de imóveis históricos localizados na Lagoa da Conceição, Ribeirão da Ilha, Santo Antônio de Lisboa e Enseada do Brito (Palhoça), no entanto, o sobrado Dona Loquinha não figura na lista e não tem sua preservação garantida pelo Patrimônio Nacional. Mesmo assim, o imóvel continua na lista do Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do município.

Segundo a superintendente do Ipuf, Vanessa Pereira, a situação do sobrado Dona Loquinha será debatida na próxima reunião da Comissão de Patrimônio do município. Caso seja definido que o município assumirá a propriedade, o valor da restauração terá que ser previsto no orçamento do município. “A aceitação do casarão implica na necessidade imediata de recursos para a recuperação, e isso tem que estar no orçamento”, afirma.

Rota Engenho-Casarão Dona Loquinha-Freguesia

Clique no mapa para ver imagens da trilha

Comunidade desperta para o turismo

Tiago Renovaldo Laureano, 28, nasceu em abril de 1988 numa Costa da Lagoa que voltava a se reinventar praticamente um século depois dos tempos áureos, quando a comunidade.Com fim da escravidão  (1888) e a diminuição da mão de obra, lentamente as roças sumiram, as moendas alambiques e engenhos se tornaram inserviveis e a comunidade, basicamente, se voltou para o mar, fazendo da pesca a principal atividade após a regeneração da Mata Atlântica.

Mas ao invés de ver a reabertura de engenhos ou a proliferação das roças morro acima, os novos tempos trouxeram os restaurantes e um número maior ainda de embarcações. Nos idos da década de 1980, o turismo despontava como a mais nova vocação da Costa da Lagoa.

Em junho daquele ano, o pai de Renovaldo trocou a pesca pela cozinha e abriu as portas de um dos primeiros restaurantes da Costa da Lagoa. O patrimônio histórico, as belezas naturais e o visual exuberante da Lagoa da Conceição deram o toque especial que a cada ano atrai milhares de turista para a comunidade.

"O turista que vem quer voltar. Aqui você não vem apenas num restaurante. Aqui as pessoas vêm para passar o dia, aproveitar um banho de lagoa, praticamente dentro do restaurante, as trilhas, a cachoeira e o patrimônio histórico", conta Renovaldo.

O empresário ainda lembra, quando criança, no início da abertura para o turismo, os próprios restaurantes buscavam os clientes de barco, tanto no centrinho da Lagoa como no Rio Vermelho: “Lá do Rio Vermelho, o pessoal soltava um foguete para sabermos que tinha cliente pra vir”, conta. Hoje duas cooperativas de barcos fazem a travessia do espelho d'água, onde mais de uma dezena de famílias servem a culinária tradicional nos restaurantes que margeiam a região da Vila, ou Freguesia.

Barcos fazem a travessia até a Costa - Daniel Queiroz/ND
Barcos fazem a travessia até a Costa - Daniel Queiroz/ND



“No começo, o público era formado por aqueles que vinham fazer algum trabalho aqui ou visitar um parente. Hoje vem gente do mundo todo”, explica Renovaldo, que toca o restaurante da família, o Lagoa Azul, durante todo o ano.

Como chegar à Costa

Trilha canto dos Araçás: 8 quilômetros

Trilha Saco Grande: 11,78 quilômetros

Trilha a partir de Ratone: 1.806 quilômetros

Terminal de Barcos do Rio Vermelho: R$ 7,50

Terminal de Barcos Lagoa da Conceição: R$ 7,50

Gastronomia é carro-chefe dos novos tempos

Ao longo do caminho que leva à Freguesia da Lagoa, os sobrados, engenhos, casarões e ruínas que surgem em meio a mata já não são a principal atração do lugar. Atualmente, a busca pela gastronomia da Costa da Lagoa é considerada o carro chefe do turismo na região, com pratos são preparados ao estilo colonial açoriano de maneira destacada: “É o que atrai a maioria do público. Só aqui você consegue comer, por exemplo, uma carapeva fresca da Lagoda da Conceição. Como tem poucas, as que pegam são comercializadas aqui nos restaurantes mesmo. Posso afirmar que hoje a gastronomia é o que mais chama o turista”, garante Tiago.

No entanto, segundo o empresário, a falta de cuidados com o patrimônio histórico da Costa também afeta o turismo, que poderia ser ainda melhor explorado. “Nós já tentamos uma parceria com a Prefeitura e Secretaria de Turismo para divulgar a Costa, o patrimônio, mas sempre tem um problema. Tudo que existe hoje é feito pela comunidade. Em toda a cidade, só tem uma placa, ali no Rio Vermelho, indicando a Costa como rota turística”, conta.

Gastronomia ilhéu é carro-chefe do turismo na Costa da Lagoa - Daniel Queiroz
Gastronomia ilhéu é carro-chefe do turismo na Costa da Lagoa - Daniel Queiroz/ND