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Voluntário de Florianópolis celebra natal com moradores de rua

Augusto Blasi e sua companheira Ana prepararam carinhosamente o cardápio daqueles que passariam a data santa de estômago vazio

Aline Torres, especial para o ND
Florianópolis
23/12/2016 às 18H58

Nesse Natal, os brasileiros consumiram cerca de 300 mil toneladas de peru, 500 mil toneladas de panetone, estouraram 50 milhões de garrafas de espumantes e acenderam tantos piscas, que a conta de luz subiu em média 5% em cada um dos 60 milhões de domicílios. Para celebrar o nascimento do menino Jesus não teve crise. Só que esse padrão nacional de exagero é visto como uma afronta para Augusto Blasi, 36 anos.

Ele também já teve o excesso à mesa, mas repensou suas crenças e há quatro anos passa o 24 de dezembro nas ruas. Nesse ano, ao lado dos sem-teto da cracolândia do Monte Cristo, em Florianópolis. Na confraternização teve risoto de lombinho canadense, refrigerante e bombons de sobremesa. Augusto e sua companheira Ana prepararam carinhosamente o cardápio daqueles que passariam a data santa de estômago vazio.

Augusto faz questão de ajudar aqueles que passam os dias nas ruas - Flávio Tin/ND
Augusto faz questão de ajudar aqueles que passam os dias nas ruas - Flávio Tin/ND



Mas, essa mudança na vida familiar não foi repentina. Sem contar que teve um empurrãozinho do plano superior. Augusto é médium. Aos cinco anos começou a ver espíritos.  Os pais, extremamente católicos, reprimiram o que entendiam como maluquice de menino.

Aos 11 anos, no entanto, não conseguiram mais sufocar sua natureza. Augusto não só via, como falava e psicografava mensagens de desencarnados. Seu avô por desconhecer a doutrina propôs tratamento psiquiátrico. A mãe teve outra abordagem. Levou Augusto para Uberaba, na casa do médium mineiro Chico Xavier. Lá ela aprendeu a lidar com o filho.

Na volta para Florianópolis, ele iniciou seus estudos mediúnicos na Serte (Sociedade Espírita de Recuperação, Trabalho e Educação) e, em 2012, depois de acordar de um exaustivo plantão de 12 horas noturnas na emergência do Hospital Regional de São José, onde trabalha como técnico de Enfermagem, recebeu uma mensagem psicografada que redirecionou sua conduta.

Era Rosália, uma freirinha que atua no hospital espiritual Maria de Nazaré e se comunica com o médium através de cartas. A irmã o orientou a combater a miséria com o antídoto mais eficaz. A cidadania que sai da poltrona, que para de pregar o bem nos altares, palanques, nas redes sociais. A cidadania real, aquela que age.

Após dois natais com os moradores de rua, Augusto fundou em conjunto com dezenas de outras pessoas numa kitnet emprestada por uma médium da Serte o Centro Espírita Caravaneiros de Maria. Fica em São José, no bairro Campinas. Com a ajuda de alguns frequentadores e espíritas de outras casas, no total 12 voluntários, foi criada a Marmita Solidária e o Sopão de Inverno.

Duas vezes por mês, eles se reúnem para cozinhar. O menu é vasto. Frango assado, arroz, feijão, farofa. Macarrão com salsinha. Risotos. Sanduíches. O que tiver é preparado com carinho. Sobrevivem de doações. E como disse Augusto, “a marmita é um pretexto”.

“Compartilhar o alimento é ter acesso as emoções dos outros. Quando levamos bolos eles ficam infantis. Lembram das mães, avós, tias. Choram, lambem os dedos, raspam as formas. Quando a sopa é servida se sentem acalentados, protegidos. A comida tem seus milagres” conta.

Para distribuir as marmitas eles percorrem o Centro de Florianópolis - Praça 15, Supermercado Xandi, Tribunal de Contas, Correios e também a Chico Mendes.

São distribuídas cem marmitas. Sempre falta e alguém fica com fome. Mas, há quem desfrute do saboroso gosto do amor dado de graça, como o menino que Augusto não esquece.

“Ele fez do cobertor um casulo. Cobriu até a cabeça. Toquei nele e ofereci a refeição. Ele me olhou e disse ‘eu tava rezando para não dormir com fome essa noite’”.

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