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Tia Teca mantém há 22 anos, em Florianópolis, um lar para crianças recuperarem a infância

A história da mulher que curou a dor da perda do filho com o trabalho na casa lar

Aline Torres, especial para o ND
Florianópolis
22/12/2016 às 18H38

Maria Tereza Barreto Floriani perdeu o filho. Maurício, jovem brilhante. Aos 23 anos, formado em direito pela UFSC e em administração, em um dos melhores cursos do país, a Esag, da Universidade Estadual de Santa Catarina. Perdeu Maurício num acidente de carro. Sem escolha se pôs frente à encruzilhada. Luto?  Luta? Tia Teca, como é conhecida, curou a dor com trabalho. Há 22 anos criou uma casa que abriga crianças, que diferentes dos seus cinco filhos e seis netos, não tiverem infância, até ali.

Tia Teca trabalha para dar um futuro melhor às crianças - Marco Santiago/ND
Tia Teca trabalha para dar um futuro melhor às crianças - Marco Santiago/ND



A Casa Lar Nossa Senhora do Carmo, atualmente situada na rua Vitor Silva, 50, no bairro Coqueiros, em Florianópolis, foi fundada em 1994 por três mulheres. Apenas Tia Teca permanece. Aos 76 anosvai três vezes por semana à instituição “quando não tem muita demanda”. Senão, esquece do próprio endereço.

Católica convicta, até o padre da igreja que frequenta sabe “Quando a Teca morrer o funeral vai sair da Casa Lar”. É que ali está seu ponto de equilíbrio. “O fiel da balança”, como diz.

É o local onde se recupera das perdas. A mais recente foi a do marido, há três anos.

Mas não pense que no santuário de Teca há anjinhos. As vinte crianças que vivem ali foram retiradas dos responsáveis pela Justiça. Estão marcadas por abusos físicos e emocionais. E, na maioria, das vezes se expressam na única linguagem que conheceram. A da violência.

Histórias para encher os olhos de marmanjos não faltam como, o menino de seis anos, que ficou atônito ao ser enlaçado no peito de uma funcionária. “Isso é que é abraço?”, perguntou. Ou a menina de 14 anos que nunca teve uma boneca. As que foram devastadas pela prostituição. O garotinho que justificou a magreza ao contar que o pai não o alimentava porque se fosse preso e não voltasse para casa, ele poderia sair pela grade da janela.

Na nova morada elas aprendem a comer, a dormir, a brincar.  E tecem relações de respeito eafeto, consigo e seus semelhantes. E talvez tudo isso soe como poesia, mas é preciso, sobretudo, tenacidade para lidar com as exigências do amor real.

“Aqui elas chegam em estado bruto. Mas logo a casca cai. São apenas crianças, com as mesmas necessidades de quaisquer outras”, fala Teca.

A diferença é que antes os abrigados na Casa Lar eram, na maioria dos casos, filhos de pais com HIV, que apesar da doença lutavam pelas suas guardas. Atualmente são “filhos do crack” e como diz Tia Teca “a droga ganhou faz tempo”.

E vai longe aconsequência da epidemia do crack. “Alguns chegam com o cérebro torrado”. São os chamados infradotados, com um ciclo de aprendizado mais lento, conseqüência do vício materno e da negligência que cerca a dependência química, falta de estímulos, de alimentos.

Esse déficit fez com que duas crianças fossem devolvidas recentemente, mesmo os adotantes tendo plena ciência das dificuldades. “Uma menina após um ano, outra depois de um ano e meio. O motivo? Foram chamadas de burras porque não aprenderam na mesma velocidade que os filhos biológicos. Isso acaba comigo. Não se devolve nem um cachorro”.

Mas o segundo abandono é mais normal do que deveria. Segundo a Comissão Estadual Judiciária de Adoção, três de cada dez crianças e adolescentes que estão em abrigos de Santa Catarina foram devolvidos ao menos uma vez.

Para remediar os abismos de uma existência dura para gente tão pequena, a Casa Lar foi fortalecida com uma equipe de dez funcionários, psicólogos, assistentes sociais, além de 30 voluntários, inclusive, Tia Teca, que nunca ganhou um centavo pelas duas décadas de labuta e sua sobrinha, Regina Floriani Petry, 55 anos, que assumiu há quatro anos a presidência.

Como os convênios públicos não são suficientes para manter as portas abertas, elas correm atrás, desatam burocracias, batalham por parcerias e, quando falta, pedem ajuda – e recebem.

A Casa Lar tem boa reputação. Foi a quarta instituição criada para amparar menores na Capital. “E nunca deixou ninguém a Deus-dará”. Os ex-moradores visitam Tia Teca para contar as boas coisas que acontecem. A aquisição da primeira casa, um bom trabalho, casamentos.

São eles as provas de que sua tese é certeira. “Se você vive uma boa infância a vida tá ganha”.

A infância feliz é a grande missão da Casa Lar. Construir sob lembranças tristes, memórias doces. As festas, os passeios no parque, as idas ao cinema, os muitos beijos, abraços, os colinhos. Um banho gostoso, comida quentinha, roupas novas, histórias para dormir, conversas fiadas, risadas sem motivos. Os sonhos, que antes afogados, passam a voar alto.

“Vi que era meu destino quando quis que os outros tivessem as oportunidades que eu tive”.

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