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Série Engajados: Dona Uda Gonzaga é uma liderança na autoestima no Monte Serrat

Como professora, Dona Uda formou gerações. Batalhou por escola, parque, água, esgoto, ônibus na comunidade do Maciço e também pelo Carnaval

Aline Torres
Florianópolis
22/12/2016 às 18H41

Variaram os nomes até o morro apinhado de casinhas coloridas, inquietas, de torta métrica e existências sem privilégios, ser batizado Monte Serrat. Homenagem à madona negra encontrada em Barcelona, preta como a terra, santa de pele escura, assim como é Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Pode ser especulação, mas dizem que muito ocupada Nossa Senhora elegeu como substituta Maria da Costa Lourdes Gonzaga.

Ela nasceu no morro. Mas foi o morro que cresceu em torno dela. No rodopiar das suas saias de baiana do carnaval, nas aulas para milhares de crianças, na peregrinação incansável por transformações sociais, na fé que, como o pão, mantém tanta gente.  Aos 78 anos, Dona Uda, como é conhecida, dedicou toda a sua vida aos outros. E se não é a padroeira espiritual da comunidade, é certamente a afetiva.

Veio ao mundo no dia 30 de julho de 1938, no alto do Mont Serrat, um dos braços do Maciço do Morro da Cruz, situado no Centro de Florianópolis. É filha do pedreiro Julio Sebastião da Costa e da lavadeira Angelina Veloso Costa. Das suas raízes se afastou 300 metros. Atualmente vive em uma casa laranja, um pouco mais abaixo. Do morro nunca quis sair. Quiseram por ela. Foi conversa posta fora.

A porta de Dona Uda está sempre aberta a quem precisar de um afago ou contar novidades - Daniel Queiroz/ND
A porta de Dona Uda está sempre aberta a quem precisar de um afago ou para contar novidades - Daniel Queiroz/ND


O Monte Serrat foi um dos primeiros morros a ser povoado na ilha. Primeiro recebeu escravos fugidos e soldados miseráveis no século XIX. Depois ganhou vida com os pobres que foram expulsos nas áreas visíveis de Desterro, com as demolições dos cortiços na década de 20. Seis famílias ergueram os primeiros barracões – os Silva, Veloso, Cardoso, Costa, Almeida e Barbosa – incluindo os pais de Uda, claro.

Da união entre esses desbravadores nasceu grande parte da prole que atualmente habita a região. História resumida por Uda em uma frase, “aqui somos todos parentes”.

Matriarca da favela, a porta de Uda não para fechada. Vizinhos, amigos e crianças interrompem sua rotina para trazer novidades ou simplesmente um afago. “Ela é mais beijada que a pomba do divino”, disse Patrícia, visita constante no lar sempre terno.

Apesar da viuvez de 32 anos, não conheceu a solidão. Quando criança se divertia ao lado das lavadeiras, como sua mãe e a avó Bertolina, que subiam na bica, perto da caixa d’água e faziam músicas das orações.  À noite, desciam com as trouxas limpas na cabeça para distribuírem para as madames do Centro. Ela ia correndo, rindo e atiçando os vira-latas pelo caminho. Quando não estava na presença dos mais velhos, brincava de aulinhas. A lama era a lousa. Os gravetos colhidos no chão a porta para seu mundo dos sonhos, ser professora. Como suas duas madrinhas, outras Marias, mulheres de luta.

Pequena foi matriculada na Escola Diocesana São José, conhecida como a escola dos pobres, que ficava próxima do Clube Lira, na Felipe Schmidt. Mas, o ensino lá servia apenas para alfabetização e Uda queria mais. Aos 13 anos, então, foi para o Instituto de Estadual Educação, a maior escola pública de Santa Catarina, e apesar de Antonieta de Barros ser a diretora foi a primeira aluna negra.

Como foi também a primeira negra a passar no vestibular da UDESC (Universidade de Santa Catarina) para o curso equivalente a pedagogia. Se formou aos 25 anos para alívio de Armandinho, que esperou oito anos pela noiva.

“Eu não queria me casar enquanto não trabalhasse. Quando eu era pequena se pedisse qualquer coisa para minha mãe, ela tinha que antes ver com o meu pai. Achei muito trabalhoso isso, a mulher não ter seu próprio dinheiro”, avalia.

Sonho de uma faculdade no morro

Com diploma em mãos, Uda foi a primeira professora de uma escola isolada criada em Florianópolis. Resumindo, escola de favela. Tinha 12 alunos no primeiro mês. No final do ano, 500 crianças aguardavam uma vaga na Básica Lucia do Livramento Mayvorne.

O jeito foi improvisar. Como o morro e a vida, a escola foi se acomodando na própria desordem. Uda negociou na antiga Legião da Boa Vontade, na Mauro Ramos, o uso de duas salas, outras duas foram enjambradas nos salões da escola de samba Copa Lord, outra na igreja e três nos velhos casebres do Seu Pedro. “O importante era não deixar nenhuma criança sem aula”, lembra.

Na hora do lanche todos se reuniam em frente à igrejinha do Monte Serrat. Dona Angelina preparava as merendas. Somente em 1978 a escola que Uda dedicou três décadas de vida foi ampliada.

Mas é com carinho, não lamento, que recorda de todo o esforço.

“Aprendi a vida inteira com eles. Dei aula para três gerações. Sobretudo procurei alimentá-los com sonhos. Nunca admiti que menosprezassem as crianças daqui. Os negros. Os pobres. Eles podiam ser o que quisessem”.

E foram. Uda guarda orgulhosa uma caixa com convites de diversas formaturas dos ex-alunos. Médicos, enfermeiras, advogados. Ela é inclusive tese de muitos deles, hoje mestres e doutores.

Ela acredita que é uma "referência boa" porque sempre os tratou com respeito. Uda nunca reprendeu suas crianças. “Eu sempre dizia, se um dia botar um aluno para rua, saio da sala”. O princípio reflete na casa cheia.

Gostava tanto de ser professora - bem mais que diretora, cargo que também exerceu por décadas - que se faltasse uma substituta não se fazia de rogada. Incansável trabalhava de manhã e à tarde e a noite alfabetizava voluntariamente os adultos. Numa cooperação tão rara, quanto histórica, policiais militares eram seus braços de apoio. Três soldados e um capitão lecionavam suas disciplinas preferidas.

 Se o lugar de Uda era a sala de aula, o de Armandinho era a Copa Lord.

 “A Copa Lord não era a segunda casa dele. Era a primeira”, se diverte.

Ela conta que teve um casamento feliz porque eram parecidos. “Como não pudemos ter filhos, adotamos a comunidade”, conclui.

 Quem você pensa que é sem a força da mulher

A Copa Lord é a segunda escola de samba mais antiga da cidade, foi fundada em 1966.  Armandinho teve a ideia de comprar um terreno com dinheiro do próprio bolso. Outros 15 homens doaram integralmente seus salários para dar entrada nas terras. E mentiram todos para suas mulheres que o pagamento do mês tinha atrasado. Foram descobertos, obviamente. Mas, jamais perderam as parceiras de batalha.

Esse seria apenas um dos sacrifícios, Armandinho foi presidente por 18 anos da Copa Lord. Um posto que não é para malandros.Quando morreu em 1984, Uda assumiu seu cargo. Foi a única mulher até hoje que geriu uma escola de samba em Florianópolis. Hoje coordena uma ala com 43 baianas. Em 2013 foi homenageada com o samba-enredo “Quem você pensa que é sem a força da mulher”.

Para ela, carnaval não é divertimento. É o laço vital que une o Mont Serrat. “A Copa Lord é para comunidade o que o coração é para um ser humano. Na bateria pulsa a nossa vida”.

Sincrética como o Brasil, quando não está envolvida com o samba, cadente como muitos pontos de macumba, participa dos ritmos da igreja Católica, batiza, celebra casamentos, dá a catequese. Na capela que frequenta está a pequena Nossa Senhora do Monte Serrat.

 Enviada da Espanha, parou brevemente em Santos (SP), e chegou de navio a Florianópolis em 1927. Em procissão foi carregada pelo morro. Rito que se repete a cada 8 de setembro. Evento imperdível para grande mãe negra da favela.

Foi com os fiéis da igreja, com os pais dos seus alunos e com as lavadeiras da bica, que criou o Conselho Comunitário. Foi secretária e tesoureira por 30 anos. Graças às pressões políticas e “muita sola de sapato gasta”, conseguiram asfalto, ônibus e água encanada. Antes quem tinha calçado as ruas com paralelepípedos foi o Armandinho.

Uda tem um orgulho danado do Conselho. E de todas as vitórias, nunca ditas no singular. Apesar da idade e dos joelhos cansados, esses anos de liderança não a permitem parar.  É a madrinha do Grupo da Melhor idade e presidente da Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros.

Diz que já viu muita coisa. Hoje o morro tem escola, centro recreativo, parque.  Mas ainda falta um último desejo.“Antes de morrer quero assistir a inauguração da primeira faculdade no Mont Serrat”.

 A série “Engajados” traz às segundas-feiras histórias de anônimos que mudam o estado das coisas ao seu redor

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