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Pinheiro que espetava e velas que queimavam a cortina fazem parte das 'histórias de Natal'

Moradora de Joinville, Ingrid Moeller Wetzel, 72 anos, é apaixonada pelo Natal

Debora Sabino Ramon, Especial ND
Joinville
24/12/2016 às 12H45

Ingrid Moeller Wetzel, 72 anos, é apaixonada pelo Natal desde que se lembra por gente. Ela traz muitas recordações da data durante a infância. “Minha maior lembrança é da árvore de Natal. Eram utilizados aqueles pinheiros que espetavam, como doía se encostássemos...” Conta que quando os pais iam montar a árvore colocavam algodão na fechadura, para os filhos não verem o que estavam fazendo. A curiosidade fazia com que tentassem espiar.

O pinheiro natural era enfeitado com bolas grandes e brilhantes, além de velas de verdade. Em sua casa era tradição rezar e acender uma vela a cada domingo do advento, quando antecedia a celebração do Natal. “Lembro que em um Natal, a vela caiu e pegou fogo na cortina. Foi uma correria!”. Além da árvore enfeitada dentro de casa, a família também preparava o jardim com lâmpadas coloridas. Quando chovia, a iluminação elétrica dava curto, o que causava transtornos, mas nada grave.

Ingrid Moeller Wetzel, 72 anos, é apaixonada pelo Natal desde que se lembra por gente - Carlos Junior/ND
Ingrid Moeller Wetzel, 72 anos, é apaixonada pelo Natal desde que se lembra por gente - Carlos Junior/ND


A família também preparava as tradicionais bolachas alemãs, confeitadas. Ela, pequena, ajudava nos confeitos ao som de discos de Natal – repertório durante todo o mês de dezembro. “Tentava ajudar a mãe, mas mais atrapalhava...”, diverte-se.

Quando criança, ela acreditava no Papai Noel e esperava, a cada ano, seu presente. Geralmente, uma boneca. Os brinquedos já eram fabricados no Brasil. Lá pelos dez anos, relembra dona Ingrid, ela começou a perceber que o pai saía e depois retornava. Foi então que percebeu que o Papai Noel não existia.

Outro costume da noite era de, antes dos presentes, a família servir a ceia, com peru, maionese e chocolates, sem exagero. No dia seguinte ao Natal, a família ia à missa bem cedo e depois os amigos da rua se encontravam para mostrar o que tinham ganhado e brincar. “Quem ganhava uma bicicleta era ‘top’”, destaca. Mal acabava um Natal, ela já estava esperando por outro.

Seguindo os costumes da família

Por sempre se encantar com o Natal, ela procurou seguir os costumes da família com dedicação. A casa sempre foi muito enfeitada. Ela não sabe contabilizar quantos papais noéis tem. Hoje não decora mais o apartamento de Joinville e sim a casa de praia em Piçarras, onde a família celebra as festas. “Naquele tempo, não havia enfeites maravilhosos como temos hoje”.

Um dos natais mais marcantes, depois de casada, foi quando passou por uma enchente, um dia antes da data. “Foi em 1973. Houve uma grande enchente em Joinville. Eu morava na rua da maternidade. Não sabia onde colocar as coisas de Natal, os presentes comprados, tudo ficou sujo de lama.”

Após o Natal, começavam os preparos para o Ano Novo. Ela e o marido passavam a virada nos tradicionais bailes da Sociedade Harmonia-Lyra. Os homens vestiam smokings e as mulheres, longos de luxo. Ingrid relembra que fez o vestido de casamento já pensando no Réveillon. Após casar, em setembro, levou o vestido na costureira novamente, para decotar e aplicar novos bordados. Mas o Ano Novo é outra história...

Dona Ingrid, em foto de data desconhecida, mas de tradicional comemoração natalina - Álbum da Família/Divulgação/ND
Dona Ingrid, em foto de data desconhecida, mas de tradicional comemoração natalina - Álbum da Família/Divulgação/ND

 

Pinheirinho é uma das heranças germânicas

Segundo o historiador Dilney Cunha, uma das tradições mais conhecidas e praticadas ainda hoje e que os imigrantes germânicos popularizaram no Brasil foi a árvore natalina: enquanto na Europa usava-se o pinheiro (Tannenbaum) ou cipreste, aqui era comum o uso de alguma árvore nativa, como o pinheiro araucária. Outras heranças são a comemoração do advento e a confecção da coroa (de advento) – costume entre os alemães, especialmente os evangélicos – e a comemoração da Noite de Natal no dia 24 de dezembro ao invés do dia 6 de dezembro, como era mais comum entre os católicos. “Creio que absorvemos muita coisa, muitos elementos, sobretudo da cultura germânica e portuguesa no que diz respeito ao Natal. A influência da cultura anglo-americana também é nítida, principalmente no aspecto comercial da festa”, explica.

Para ele, tanto a maioria dos colonos europeus como a população brasileira estabelecida na região de Joinville tinham fortes crenças e uma religiosidade arraigada, oriundas das suas culturas de origem. E estas tradições, aliadas ao aspecto comercial, continuam com práticas seculares, como a montagem e enfeite da árvore natalina, os presentes, a ceia e os cultos de Advento e Natal.

Velinhas davam luz ao pinheirinho antes da chegada dos
Velinhas davam luz ao pinheirinho antes da chegada dos "piscas" - Divulgação/ND


Mudança de data

No livro “Memórias de um menino de dez anos”, Adolfo Bernardo Schneider fala um pouco da tradição comemorada no dia 6 de janeiro, que aos poucos foi mudando para a noite de 24 de dezembro. Schneider nasceu justo no dia 6 de janeiro, o “Dia de Reis”, no ano de 1906. Ele conta que a data era o feriado mais festejado no Brasil.

Naquela época, os feriados eram apenas o do Descobrimento do Brasil (22 de abril), Independência (7 de setembro) e Proclamação da República (15 de novembro). E aquela data era a mais aguardada, especialmente pelas crianças. Festejava-se os Três Reis Magos e era o verdadeiro dia de Natal. “Mas a presença maciça aqui, de alemães e ainda por cima protestantes, foi aos poucos mudando este costume. Os alemães, tanto protestantes como também católicos davam os presentes já no dia 24 de dezembro, armando ali, inclusive, uma árvore de Natal”,  narra o escritor.

O costume dos alemães influenciou aqueles de famílias portuguesas, católicas, que, antes de assistirem à Missa do Galo, passaram a andar pelas ruas de Joinville para verem as árvores de Natal com velas acesas. Para Schneider, a transferência da data de comemoração do Natal no Brasil se deve aos alemães.

Segundo Adolfo Schneider conta de suas memórias, a data de seis de janeiro era de muita comemoração para os católicos em Joinville: missa solene, foguetório e não poderia faltar as apresentações do Bumba Meu Boi. Na véspera, grupos de cantadores percorriam as ruas da cidade, parando em frente àqueles que estavam com a luz acessa (à querosene – a luz elétrica só chegaria em 1909), a fim de ouvir as canções.

Mais tarde, já com a data definida do Natal, os alemães implantaram, ainda, os três dias de feriado. Nesta época, ninguém trabalhava. Eram as férias. Passavam os três dias comendo e bebendo o que tinham de melhor. Muitos, cervejas de fábricas artesanais. Para que estivessem geladas, o irmãos Lepper instalaram uma fábrica de gelo (também ainda não havia a fábrica de geladeira) e levavam aos assinantes. Alguns ainda bebiam vinhos importados da Alemanha.

Outra tradição da época, para celebrar a data, foram as domingueiras.  No livro Schneider conta que os bailes eram com música ao vivo em famosos salões de baile na cidade, como o Berner (Rua Nove de Março) e o Fischer (15 de Novembro) ou em áreas rurais. Lá pelo terceiro dia, algum dono de oficina voltava ao trabalho, porém de portas fechadas, “respeitando” a lei.

Livro “Memórias de um menino de dez anos”, de Adolfo Bernardo Schneider - Divulgação/ND
Livro “Memórias de um menino de dez anos”, de Adolfo Bernardo Schneider - Divulgação/ND


Brinquedos

No início do século não existiam fábricas de brinquedos no Brasil. No Natal, quase todos eram importados da Alemanha. Soldadinhos de chumbo, cavalaria, canhões, armas, pequenas rodas d’água, locomotivas puxando trens inteiros pelos trilhos. Esses são alguns dos brinquedos para meninos, através das recordações de Adolfo Schneider. Mas um deles chamou a atenção: um urso de pelúcia “Knopf im Ohr (Botão na Orelha)”, com um metal em uma das orelhas (garantia de qualidade). O urso foi seu companheiro de muitas brincadeiras, tendo desaparecido em 1930, quando retornou da Alemanha, já com uma filha de dois anos.

 

Arrecadação de Brinquedos

No Jornal do Commercio, em 1907, tem-se referência, pela primeira vez, de ações para arrecadação de brinquedos à crianças carentes. Na época, o juiz ordenou que fosse formada uma comissão de “senhoritas e cavalheiros” para organizar uma cerimônia de Natal dedicada aos “’órfãos pobres”.

Posteriormente foi solicitado que os presentes fossem deixados na casa de Gustavo Richlin, na Rua do Príncipe. O evento aconteceu no dia 25 de dezembro, no salão Mayerle, com árvore de Natal, presentes e “diversão”.

Visitação à Rua do Papai Noel em 2015 - Arquivo/ND
Visitação à Rua do Papai Noel em 2015 - Arquivo/ND


Atração Nacional

Através da herança germânica, Joinville foi comemorando seus natais, ano a ano. Tradições como enfeites, luzes, bolachas, presentes, ceia de Natal e a espiritualidade perduraram e passam de geração em geração.

Com a permanência destas tradições, surgiu, na década de 80, em Joinville, a “Rua do Papai Noel”. No bairro Atiradores, na rua Braço do Norte, moradores começaram a enfeitar suas casas para comemorar a data. E a rua acabou se transformando em um ponto turístico. Ano a ano, cada morador passou a caprichar mais na decoração. Curiosos chegavam a fazer filas para conhecer as atrações de Natal da rua, causando, por vezes, grandes congestionamentos. Muitos dos moradores chegavam a receber visitantes na parte interna das casas.

Com o passar dos anos, as atrações foram incrementadas com apoio da prefeitura e iniciativa privada: apresentações de corais, shows de fogos de artifícios e a presença do Papai Noel chegam a reunir mais de cem mil pessoas por edição. A rua reúne público não só de Joinville, mas também de outras cidades do país, que se encantam e emocionam com o capricho dos moradores.

Em 1996, a Expoville quis transformar o Natal em Joinville em atração nacional, com o evento “Feliz Natal Joinville” que durou três dias, reunindo corais, decoração, grupos de dança outras atrações culturais voltadas ao tema. Porém, a iniciativa não perdurou. A cidade continua se preparando para o Natal de diversas formas, com atrações em igrejas,  shoppings, clubes e em bairros de Joinville. Cada qual do seu jeito, esperando a data deixada como herança pelos primeiros imigrantes  alemães.

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