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Padre Vilson completa 35 anos de trabalho e mantém viva a Teologia da Libertação

Conhecido pelo engajamento nas periferias, ele é referência em ações sociais de Florianópolis

Aline Torres, especial para o Notícias do Dia
Florianópolis
22/12/2016 às 18H22

O telefone tocou às 2h da manhã, dona Tereza comunicou o assassinato do neto. 20 anos. Do outro lado da linha, padre Vilson Groh, 62, tentou consola-la. Juntos buscaram outros caminhos para o jovem. Mas, o tráfico não só seduz, como amarra. Foi sepultado na quinta, dia 8.

Dois dias depois, na pequena igrejinha do Mont Serrat, situada dez degraus abaixo da casa onde mora, o padre celebrou com missa seus 35 anos de trabalho nas periferias. Muitos meninos foram mortos nessas últimas três décadas. Perdeu a conta das funerais. 80 num só ano. Mas em nome deles, tantos outros se salvaram. Não dá para listar o número de projetos sociais que o padre abarca. Resumidos em um relatório de letras miúdas somam 58 páginas de ações.

Padre Vilson completou 35 anos de serviço nas comunidades de Florianópolis - Marco Santiago/ND
Padre Vilson completou 35 anos de serviço nas comunidades de Florianópolis - Marco Santiago/ND


O fato é que sua obra é mais significativa em volumes e resultados que muitas gestões públicas. Ele beneficia diretamente cinco mil pessoas. De crianças de 2 anos a adultos.

O Instituto Padre Vilson Groh é formado por sete organizações que se desdobram em dezenas de projetos. O Centro Cultural Escrava Anastácia, por exemplo, se subdivide entre o Programa Jovem Aprendiz, com ofertas de cursos e inserção no mercado de trabalho; o Grupo da Terceira Idade Rosário da Luz; os Almoços de Domingo para População de Rua; a Casa de Acolhimento para a mesma população; a República para os moradores de rua em processo de reintegração; o Centro de Direitos Humanos de Lages e Joinville, com 375 atendimentos jurídicos, sociais e psicológicos para pessoas em vulnerabilidade; o Programa a Vítimas e Testemunhas ameaçadas pelo crime organizado; o Procurando Caminho, que resgata jovens do narcotráfico e a Casa de Acolhimento Darcy Vitória de Brito, lar para crianças retiradas dos pais pela Justiça.

Todas essas atividades, que falta fôlego para descrever, custam R$18 milhões por ano. Metade do que a prefeitura gasta anualmente com 25% de funcionários comissionados e terceirizados.

O principal confronto de Vilson é com a gestão pública, considerada por ele medíocre:“Temos que ser ousados e rediscutir a estrutura política do país, rediscutir os privilégios. O legado de um governo tem que ser mais do que preencher folhas de pagamento”.

Essa postura do padre não é apenas uma característica pessoal, está enraizada em uma filosofia defendida por alguns, demonizadas por outros, principalmente, pelas linhas conservadoras da Igreja Católica, como a Opus Dei. Tem até quem a julgue extinta. Não conhecem Vilson.

A Teologia da Libertação é uma corrente cristã da América Latina, nascida no endurecimento da ditadura brasileira, em 1968, após uma conferência de bispos em Medellín, na Colômbia.

Seus principais expoentes no país são Paulo Freire, Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Evaristo Arns e o franciscano expulso pelo Vaticano Leonardo Boff.

Esses homens de Deus interpretam o Evangelho na busca de justiça social e para alcança-la interferem politicamente. Afinal, não seria Jesus um revolucionário pobre, que lutou pelos oprimidos e morreu em consequência de suas opções libertárias?

Sem paternalismos ou subjugações, essa corrente vê o pobre como o sujeito de sua libertação. Aquele que tem força histórica para mudar o sistema de dominação por outro mais igualitário. Somente dessa forma poderão ser postas em práticas as leis de Cristo, no cerne, leis de amor.

A libertação só será possível, no entanto, se os ricos se aliaram à causa. Essa ponte invisível entre cidade e periferia é a construção de Vilson. E apesar de ser um padre de esquerda em uma cidade historicamente conservadora, ele tem forte apoio do empresariado.

“É irresistível o poder de atração que uma mudança social exerce. Os empresários se fascinam com os resultados positivos e desejam participar desse processo. É essencial exercitar a pluralidade, compreender e colaborar com a vida do outro. Vivemos em rede”, disse.

A empatia que desperta é também a que carrega. Na parede de sua sala, estão penduradas as imagens de um preto velho, Zumbi dos Palmares, escrava Anastácia e Ogun, orixá da luta.

“Quando eu era estudante de teologia fui morar no Morro do Mocotó e a primeira pessoa que me acolheu foi uma mãe de santo, a Claudete, amiga querida até hoje. Foi grandioso enxergar o morro através dos olhos de uma mulher negra, a sacerdotisa da periferia. Ele diz que sou filho de Ogun, que é São Jorge na Igreja. Por coincidência faço aniversário um dia depois do santo”.

Na dualidade da umbanda, o espírito feminino que protege o padre é Iansã. “Ela é Santa Bárbara e acalma as ventanias. Vejo como um bom símbolo da minha mediação no trabalho social”.

Com vocação para o diálogo, o padre Vilson celebrou no dia 19 de novembro a Missa Afro. Os ritos católicos se mesclaram aos versos do Alcorão lido por um senegalês muçulmano, às ialorixás com seus atabaques, ervas santas, aos discursos de líderes comunitárias, às negras com turbantes e poesias e às crianças cantando Clara Nunes, outra “filha de Ogun com Iansã”.

“Somos todos da mesma família, a humana. É importante seguirmos pelo caminho da tolerância. Mas ainda é meio caminho. Temos que abrir nossas portas para o convívio com as diferenças e aprender a beber do sagrado do outro”, disse.

Filho de operários

Vilson nasceu em Brusque em 1954. Seus pais eram operários da indústria têxtil. A mãe parou de trabalhar para cuidar dos 11 filhos. Apesar da pobreza, a família esteve ligada à comunidade e à igreja. Aos 19 anos, ele decidiu seguir a vida religiosa. Foi morar em Florianópolis.

No seminário lia Abbé Pierre, o padre francês conhecido como o “defensor dos pobres” e os documentos das igrejas latinas, que originaram a Teologia da Libertação.

Nos textos sagrados, encontrou em Mateus a provocação que precisava para traçar seu destino. “Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes (25:31-46)”.

Após professar os votos, optou por deixar a vida na Catedral Metropolitana para criar uma comunidade eclesiástica de base. Apoiou sem-tetos, discutiu a violência policial nos morros, interagiu com o movimento estudantil nos anos de chumbo. Foi radical quando preciso.

Como no dia que organizou um protesto com 50 mulheres. O Mont Serrat estava sem água há dias. O poder público ignorava. Com trouxas na cabeça, elas cruzaram a rua Anita Garibaldi e lavaram as roupas sujas no chafariz da Câmara dos Vereadores. Uma ironia. Já que no bairro foi construída a primeira caixa d’água para abastecer Desterro, isso em 1910.

O empenho de Vilson agora é justamente transformar o antigo espaço da caixa d´água, que está abandonado, em roteiro gastronômico. O que geraria renda para as famílias, que ganham atualmente em torno de R$ 1,3 mil, e aproximaria de vez cidade e periferia.

Seria o último nó de uma longa trama que começou no seu primeiro ano como padre.

“Uma mulher pariu o filho na rua, na calçada. Me avisaram e a acolhi por seis meses. Aprendi a trocar fraldas, dar mamadeira, fazer o menino dormir. Foi ali que entendi, na prática, que a vida é um grande ato de gratuidade”.

Organizações Instituto Padre Vilson Groh

1. Associação João Paulo II, Fundado em 1980 (Comunidade da Praia, Palhoça)

2.Centro de Educação e Evangelização Popular, em 1987 (Monte Cristo, Florianópolis)

3. Associação Amigos Casa da Criança e do Adolescente Morro do Mocotó, em 1995 (Florianópolis)

4. Centro Educacional Marista São José, de 1996 (Serraria e Jardim Zanellato, São José)

5. Centro Cultural Escrava Anastácia, em 1998 (Florianópolis, Timbó, Porto Belo, Lages e Joinville)

6. Centro Educacional Marista Lucia Mayvorne, de 1999 (Mont Serrat, Florianópolis)

7. Centro social Elisabeth Sarkamp, 2004 (Alto da Caieira, Florianópolis)

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