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Obras atrasadas e recursos que não chegam prejudicam a competitividade de Santa Catarina

Série especial do Notícias do Dia apresenta os principais gargalos da infraestrutura catarinense

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
01/11/2017 às 11H40

Quando o deputado Milton Hobus (PSD) disse, após reunião da Comissão de Transportes e Desenvolvimento Urbano da Assembleia Legislativa, em setembro de 2016, que o modelo econômico catarinense poderia ruir caso não aumentassem os investimentos federais no Estado, houve quem considerasse temerário elevar a questão a tal nível de gravidade. Agora, um ano depois, o presidente da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado), Glauco José Côrte, admite que os problemas de infraestrutura podem de fato levar grandes empresas, sobretudo na área da agroindústria, a transferirem suas plantas para onde estão os insumos e o mercado consumidor, sem depender tanto de rodovias duplicadas e ferrovias para se abastecer e colocar sua produção nos pontos de venda.

Com cinco terminais portuários, Santa Catarina luta para se livrar da ameaça de perder esse filão por causa das deficiências de infraestrutura rodoviária - Marco Santiago/ND
Com cinco terminais portuários, Santa Catarina luta para se livrar da ameaça de perder esse filão por causa das deficiências de infraestrutura rodoviária - Marco Santiago/ND



“Cooperativas fortes e um sistema consolidado de integração entre indústria e criadores retêm as empresas aqui, mas não sabemos até quando elas vão suportar as deficiências de transporte”, afirmou Côrte após uma reunião recente da Câmara para Assuntos de Transporte e Logística da Fiesc, em Florianópolis. A federação tem feito insistentes alertas sobre a defasagem entre a estrutura existente e aquela que o Estado demanda, especialmente em relação à situação das estradas. Com R$ 14 milhões, estima a indústria, seria possível reparar os trechos mais perigosos e humanizar a malha atual, intervindo nas vias estaduais (R$ 7,3 milhões) e federais (R$ 6,7 milhões), mas para chegar ao quadro ideal – comportando também os modais ferroviário, aquaviário e portuário, além de obras de contenção das cheias e maior cobertura de saneamento, que aumentariam a competitividade das empresas – seria preciso investir mais de R$ 7 bilhões.

A federação acompanha 116 obras no Estado e atualiza as informações no site Monitora Fiesc. No total, elas estão orçadas em R$ 7,51 bilhões, mas apenas 22,4% foram concluídas – as demais estão em andamento, têm o prazo expirado ou a execução comprometida.

Concessões e parcerias

De onde viria o aporte bilionário para resolver os problemas de infraestrutura em Santa Catarina? O governo federal administra uma infindável crise política e corta recursos de programas de investimento para perseguir um equilíbrio fiscal cada vez mais improvável. O Estado faz o que pode com as verbas que tem, também premido pela queda na arrecadação de impostos que decorre da recessão recalcitrante. “As concessões e parcerias público-provadas não são o melhor, são o único caminho para viabilizar essas obras”, ressalta o presidente da Fiesc, Glauco Côrte.

As rodovias catarinenses, como é o caso da BR-470, não atendem mais a demanda logística das empresas - Marco Santiago/ND
As rodovias catarinenses, como é o caso da BR-470, não atendem mais a demanda logística das empresas - Marco Santiago/ND



A única rodovia duplicada em Santa Catarina é a BR-101, mas ela não atende alguns dos principais polos industriais do Estado. As grandes vias de escoamento são as BR-282, 470 e 280, repletas de curvas, serras sem terceira faixa, passagens urbanas e com manutenção deficiente. Por isso, a logística tem um peso de 14% para quem produz e exporta, contra 12% no Paraná, por exemplo. Um projeto em estudo em Brasília prevê a duplicação da BR-282 até o entroncamento com a BR-153, e dali para a região de Curitiba, desviando as cargas para o porto de Paranaguá. Com cinco terminais portuários, Santa Catarina luta para se livrar da ameaça de perder esse filão por causa das deficiências de infraestrutura rodoviária.

Se as estradas não dão conta do papel de entregar as cargas nos portos no tempo devido, as ferrovias planejadas para o Estado parecem uma miragem projetada no horizonte. A Ferrovia Litorânea, unindo todos os terminais de Santa Catarina, empacou no imbróglio da licença no Morro dos Cavalos, em Palhoça. A Ferrovia de Integração Leste-Oeste (também chamada de Ferrovia do Frango) avançou apenas 4% do previsto no projeto inicial. E há os contornos ferroviários de São Francisco do Sul, Joinville e Jaraguá do Sul, todos com óbices que forçaram a prorrogação dos cronogramas de execução e sem prazos para conclusão.

Feitas todas as contas, o governo federal programou investimentos de R$ 12,5 bilhões entre 2010 e 2016 em Santa Catarina, mas menos da metade saiu do papel, ou seja, R$ 5,7 bilhões.

PROJETOS MONITORADOS

Setor   Obras  R$

Rodoviário      35        4,9 bilhões

Enchentes       32        439 milhões

Saneamento    26        648 milhões

Aeroviário       9          974 milhões

Aquaviário      8          420 milhões

Ferroviário      6          134 milhões

Fonte: Monitora Fiesc

STATUS DAS OBRAS

Situação          Obras  %

Prazo expirado           45        38,8

Obra concluída           26        22,4

Andamento comprometido    25        21,6

Em andamento           20        17,2

Fonte: Monitora Fiesc

Os projetos estruturantes

Enquanto aguardam pelo básico para continuar produzindo e exportando, os empresários projetam o que será preciso fazer mais adiante, como os rodoaneis de Itajaí e Balneário Camboriú, a via de contorno viário entre Navegantes e Itapema (que futuramente seria interligada ao contorno da Grande Florianópolis, em execução) e uma nova rodovia, paralela à BR-101, no Norte do Estado. A Fetransesc (Federação das Empresas de Transporte de Cargas e Logística de SC) estima que seria preciso investir R$ 3,5 bilhões entre Curitiba e Palhoça. São planos que esbarram na convicção de Brasília de que Santa Catarina é um oásis de riqueza, autossuficiente a ponto de dar conta sozinha dessas demandas.

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