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Sábado, 20 de Outubro de 2018
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O presidente de clube que bate pênalti

Anelísio Machado realiza sonhos na profissão e no futebol

Roberto Szabunia
Joinville

Anelísio Machado ganhou espaço no noticiário esportivo há cerca de um mês, quando converteu um pênalti a favor do seu time, o Fluminense de Joinville, contra o Imbituba pelo Campeonato Catarinense da terceira divisão. Nada seria tão digno de nota se o autor da façanha não fosse o presidente do clube. E mais: aos 51 anos de idade. “Saí do banco só pra bater o pênalti. Foi a realização de um sonho!”, orgulha-se Anelísio, empreendedor no segmento educacional e apaixonado por futebol. Sua história, até aquela penalidade consagradora, é de um jogo difícil e cheio de desafios ao longo da vida.

 

Fabrício Porto/ND
Anelísio é empreendedor no segmento educacional e apaixonado por futebol.

 

Nascido em 1965 na cidade de Vidal Ramos, no Alto Vale do Itajaí, ainda menino Anelísio integrou a mão de obra na olaria do pai, conciliando com o estudo regular. “Gente pra trabalhar não faltava, pois em dois casamentos meu pai teve 25 filhos. Teófilo Machado era um homem de muita fé e trabalhador, exigente com os filhos. Levar uns tapas na bunda e trabalhar na olaria não me prejudicou, pelo contrário, me ensinou a enfrentar os desafios da vida.”

Anelísio tinha 10 anos quando a família se mudou para Joinville, acompanhando alguns filhos já instalados na cidade. Aqui, morando no Iririú e depois no Aventureiro, concluiu os estudos e decidiu o que queria ser na vida. “Tinha o sonho de ser professor. Estudei nos colégios Léa Lepper e Jandira D’Ávila, onde fui da primeira turma do ginásio. Junto, fiz o curso de torneiro mecânico no Senai. Em 1980 fui pra Tupy, como aprendiz.

Despertou então a vocação: “Quando a gente vem da roça, o maior sonho é concluir os estudos. Depois, estudar mais. Fiz minha vida degrau a degrau, as condições familiares não permitiam um planejamento de longo prazo. Eu me dedicava a cada dia àquilo que estava fazendo no momento, buscando uma construção contínua, tijolo a tijolo. Às vezes você precisa descer um degrau, mas depois sobe dois”.

Sonho de ser instrutor

Um dia, durante a aula no Senai, alguém perguntou ao professor o que era necessário para ser instrutor. “Ter o ensino médio completo e cinco anos de experiência na área; ou um curso técnico e dois anos de experiência na profissão”, respondeu o mestre. Aquilo chamou a atenção de Anelísio, que então se viu um dia como instrutor ali mesmo. “Ser aluno do Senai já era motivo de orgulho; imagine ser professor!” Concluído o curso técnico, fez o que restava do então segundo grau no Colégio Técnico Joinvilense e procurou ser o melhor torneiro mecânico da Tupy. No Técnico, mirando-se no exemplo da professora Teresinha, optou pelo magistério. “Nessa época meu pai faleceu e eu desanimei, abandonei o colégio. A irmã Teresinha conversou comigo e me convenceu a voltar, prevendo que eu poderia ser um bom professor. Ela ficou como um exemplo pra mim.”

Encerrado o magistério, vinha outro degrau: mais um curso técnico. E Anelísio vestiu o invejado uniforme da Escola Técnica Tupy. “Eu trabalhava das 5 e meia às 3 da tarde, aí tomava banho no colégio e ficava na biblioteca até a hora da aula no Técnico Mecânico. Não foram poucas as vezes em que a bibliotecária precisava me acordar, o sinal batendo.” A dura jornada semanal era aliviada nos finais de semana, com namoro, cinema, balada, futebol...

Formou-se técnico mecânico em 1986, a essa altura trabalhando numa pequena ferramentaria. No ano seguinte, com mais de 21 anos, curso técnico e experiência no currículo, fez teste para ser instrutor no Senai. “Passei em primeiro lugar! Realizei o sonho de ser professor, melhorei o salário, casei-me, tive uma filha... Subi vários degraus.”

Do Senai foi para a Sociesc, iniciou a faculdade de Engenharia, interrompeu-a por absoluta falta de tempo para se dedicar, trocou-a por Administração e finalmente por Pedagogia, num curso à distância.

Empreendedor na área educacional

Anelísio Machado estava novamente no Senai quando, em 1998, mirou novo degrau. “Vi que faltava assessoria na área de medição nas ferramentarias. Amigos me convenceram a abrir um curso nessa área, e aí deixei a cátedra para ser empreendedor.” Surgiu então a Assessoritec, nome baseado na missão de assessorar tecnicamente. “Pensava em ajudar os alunos a aprender e resolver problemas. Iniciei com uma sala, no piso térreo da minha casa, no Aventureiro. Eram cursos básicos, dando aulas de metrologia, desenho... Aí o pessoal das ferramentarias me pediu para bolar projetos, treinar os funcionários. A parte prática eu fazia na empresa de um amigo, à noite. Num final de semana, levei alguns alunos e demos uma geral na oficina, dando um padrão 5S ao local. Até o dono se surpreendeu quando chegou na segunda-feira.”

Lá pelo final do século passado, enfim, Anelísio deu um salto de vários degraus, abrindo um supletivo do ensino médio. “Enfrentei muitas dificuldades aqui no Estado, e só consegui uma licença na Secretaria de Educação do Paraná. Dava as aulas aqui e levava os alunos pra fazer provas em Curitiba. Chegamos a fazer comboios de 20 a 30 ônibus serra acima. E os alunos precisavam estudar geografia e história do Paraná.”

Em 2003, finalmente Anelísio “transferiu” a Assessoritec para Joinville. Hoje os cursos técnicos se espalham por sete unidades, inclusive em outras cidades, e um curso superior funciona na sede, no Iririú. “Quero dar acesso ao estudo a todas as classes sociais, por isso a mensalidade é flutuante, de acordo com as condições de cada aluno. E há bolsas, de 20 a 40% do custo, representando hoje uns R$ 40 mil por mês. Ninguém fica sem estudo aqui, por falta de dinheiro. Minha maior motivação é quando alguém me encontra por aí e diz que cresceu na vida graças ao curso que fez aqui.”

Aficionado por futebol

Torcedor do JEC e do carioca Fluminense, Anelísio já sonhou em ser jogador de futebol profissional. “Desde os 15 anos, quando jogava nos campos do aeroporto e do Aventureiro, pensava em ser um ídolo. Cheguei a fazer a escolinha do JEC, na Tigre, mas desisti por excesso de concorrência e pelo gosto de estudar.”

Na várzea, Anelísio era o atacante Lio, estreando em campeonatos oficiais pelo Duque de Caxias. “Como os estudos e o trabalho eram prioritários, desisti das competições da Liga e fui disputar os chamados ‘torneios de porco’, daqueles que duravam um dia inteiro, com dezenas de jogos de 30 minutos. Até que um dia levei uma entrada mais forte no joelho, aí me casei e o futebol ficou só na torcida e nos jogos casados x solteiros.”

A volta para valer ao futebol só veio aos 35 anos, visando mais manter a forma. “Voltei na terceirona, com o time da Assessoritec, como presidente e jogador. Mas o time era basicamente formado por garotos. Três anos depois, em parceria com a Minerasil, subimos pra segundona. Num jogo contra o União Timbé nosso time estava perdendo o jogo e um caminhão de gols, quando pedi ao técnico para entrar. Com 47 anos de idade, aos 47 do segundo, realizei outro sonho: fiz meu primeiro gol por uma competição oficial. Vibrei como um garoto!”

Mais dois anos e o time, já em parceria com o Santos Dumont, subiu para a ambicionada Primeirona. E então, novamente contra o união Timbé, Lio marcou um gol. “Com isso, imaginei ter atingido tudo que ambicionava no futebol. Afinal, fazer gol numa competição tão disputada como a Primeirona joinvilense, com quase 50 anos de idade, era uma façanha”, admite Anelísio.

Só que, em 2013, João Gaspar Rosa, presidente do Fluminense do Itaum, veio conversar com Anelísio. “Ele me provocou pra tocar o Fluminense. Pedi pra pensar. Como já estava separado e com tempo nos finais de semana, topei, mas com a condição de colocar o clube no futebol profissional, nada de começar de novo na Terceirona. Gaspar quase chorou de emoção.”

Assim, em 2014 Anelísio Machado presidia o Fluminense no Campeonato Catarinense da Série C. “Queríamos só pegar experiência, mas no ano passado montamos time pra ser campeão. Só que começamos mal, e quando entramos na briga pelo título, perdemos um jogo para o Santa Catarina em casa. No dia seguinte o treinador só veio me avisar que estava de malas prontas pra Nigéria. E mais: levou sete jogadores junto, com a promessa de ganhar US$ 5 mil por mês. Foi uma confusão, mas no final acabei liberando todos sem multa, apenas alertando para a burrice que estavam cometendo. Hoje, só o técnico e um jogador ainda estão na Nigéria, sei lá em que condições.”

Neste ano, o Fluminense vem bem na C, pensando em título. Porém, mesmo que o caneco não venha, Anelísio já tem o que comemorar: contra o Imbituba, na terceira rodada, em plena Arena Joinville, fez seu primeiro gol como profissional, batendo pênalti, e virou notícia nacional. “Quem manda no time é o treinador, e naquele dia ele me mandou entrar, pois sabia que eu treinava e batia bem pênalti. Concentrei-me, pedi a ajuda divina, vi que o goleiro fez um movimento e bati no outro canto. Foi o segundo gol, que sacramentou nossa vitória. E uma alegria que não posso descrever!”

Até a quarta rodada, o time havia vencido todas, liderando o campeonato. Neste domingo o jogo foi em Paulo Lopes, contra o Curitibanos e domingo que vem, dia 17, Anelísio e a família tricolor cumprem outra meta: o jogo contra o Maga, abrindo o returno, será no Caldeirão, às 10 da manhã. “A partir de agora, jogaremos na nossa casa!”, comemora o presidente-batedor de pênalti-professor-empreendedor.

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