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Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2018
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O canoeiro da Vila da Glória

Popular. Seu Belo é conhecido por suas histórias e por dedicar sua via a transformar troncos de árvores em verdadeiras obras de arte

Redação ND
Joinville

Rogério Souza Jr./ND
Requisitado. Seu Belo já fez canoa até para o Museu Nacional do Mar

Cabelos brancos, andar manso e bom de papo. Assim é o aposentado Berlamindo de Borba, de 80 anos. As mãos calejadas e problemas respiratórios são as marcas de uma vida dedicada ao ofício de transformar troncos de árvores em verdadeiras obras de arte. Seu Belo, como é conhecido na Vila da Glória, parte continental de São Francisco do Sul, é o mais famoso canoeiro da região.

Seu talento ainda é requisitado, apesar dele não ter mais saúde para passar os dias na mata fechada talhando a madeira. Seu Belo já fez canoa até para o Museu Nacional do Mar. O ofício, ele conta, aprendeu sozinho e por necessidade. “Eu não tinha canoa para pescar e um dia um vizinho, que tinha derrubado um tronco, me pediu para fazer uma canoa. Nunca tinha feito isso na vida. Saiu uma canoa feinha e meio tortinha, mas serviu para ir para baia (Baia Babitonga) matar uns peixinhos”, contou seu Belo.

À época com 25 anos, pai de família, o pescador descobriu o talento para a confecção de canoas de tronco inteiro. Ele jura que é capaz de ver as canoas dentro das árvores. “Você olha para o tronco e já vê se ali tem uma ou duas canoas. Depois, é só derrubar e começar a dar forma”, explica o canoeiro, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Segundo ele, um tronco de guapuruvu com 22 metros de altura pode render até três canoas de um metro de abertura.

Era um trabalho árduo

Seu Belo passava mais de uma semana na mata modelando o tronco. “Eu levava comida, roupa, fazia uma mudança para o mato. E depois era uma trabalheira para trazer a canoa. Precisava abrir caminho no mato para as juntas de bois puxarem”, recorda. Foram os anos exposto às noites geladas e aos dias chuvosos que comprometeram a saúde de seu Belo.

Ele não recorda quantas canoas fez ao longo de mais de cinco décadas como canoeiro. Mas lembra da maior. Foi entre os anos 60 e 70. Era uma canoa de 1,55 metros de boca e 12,35 metros de largura com capacidade para transportar 50 sacas de arroz.

O trabalho com a madeira sempre fascinou o canoeiro. Em casa, ele guarda uma das suas canoas de tronco inteiro. Mas, agora, é um vizinho quem a utiliza. “A saúde não deixa mais eu fazer canoa, mas ainda faço alguns consertos quando as pessoas pedem”, lamentou seu Belo.

O canoeiro também é figura tradicional da Vila da Glória e guardião de muitas histórias da região. A Vila é cerca de lendas e misticismo, que seu Belo jura serem estórias, mas confessa que já teve algumas experiências sobrenaturais. “Uma noite, eu ouvi um barulho lá no engenho e, de repente, o moedor de mandioca começou a funcionar sozinho”, contou, com um sorriso maroto. Os causos podem prender a atenção dos ouvintes por horas. E ele gosta de uma boa prosa.

Rogério Souza Jr./ND
Relíquia. Em casa, seu Belo guarda uma canoa de tronco inteiro

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