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Grupos investigaram e deram publicidade a dados sobre a ditadura em SC e no Brasil

O Acervo da Ditadura, doado pelo Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça revela histórias de assassinados e desaparecidos durante o regime no Brasil

PAULO CLÓVIS SCHMITZ
Florianópolis
15/07/2017 às 12H20

As histórias do ex-deputado Paulo Stuart Wright, desaparecido em 1973 em São Paulo, e do primeiro prefeito de Balneário Camboriú, Higino João Pio, morto em 1969 numa cela da Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Florianópolis, são as mais conhecidas envolvendo catarinenses vitimados pela ditadura, mas o período dos militares no poder fez muitos outros estragos.

O Acervo da Ditadura, doado em junho pelo Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça ao IDCH (Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas), vinculado à Faed/Udesc, em Florianópolis, contém material sobre outros seis assassinados – Arno Preis, Frederico Eduardo Mayr, Hamilton Fernando Cunha, Luiz Eurico Tejera Lisboa, Rui Osvaldo Pfutzenreuter e Wânio José de Matos – e dois desaparecidos – Divo Fernandes de Oliveira e João Batista Rita – que pagaram caro por externar convicções políticas contrárias às do regime.

Projeto revela novos detalhes da ditadura, como prisão e morte de Paulo Stuart Wright

Thais Lippel, coordena o trabalho do Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça  - Daniel Queiroz/ND
Thais Lippel, coordena o trabalho do Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça  - Daniel Queiroz/ND


O coletivo é uma das iniciativas de resistência que surgiram para esclarecer as violações de direitos humanos praticadas por motivação política. A Comissão Estadual da Verdade, criada para auxiliar a comissão nacional vinculada ao Ministério da Justiça, também fez um trabalho que identificou crimes, torturas e desmandos em diferentes regiões de Santa Catarina.

Batizada com o nome de Paulo Stuart Wright e instalada nas dependências da Assembleia Legislativa, ela fez uso de pesquisa documental, depoimentos pessoais e perícias técnicas para apurar que 702 pessoas foram detidas no Estado durante a ditadura, entre 1964 e 1985, incluindo trabalhadores urbanos, camponeses, sindicalistas, advogados e outros profissionais liberais.

>> Projeto revela novos detalhes da ditadura, como prisão e morte de Paulo Stuart Wright

O açoitamento de agricultores integrantes do chamado Grupo dos Onze, em Joaçaba, Catanduvas e outros municípios do Oeste e Meio-oeste, foi objeto de pesquisa e denúncia de tortura que a Comissão da Verdade abarcou. O mesmo ocorreu com a Operação Barriga Verde, que infringiu maus tratos a cerca de 50 presos políticos nas dependências da sede da Delegacia da Polícia Federal em Santa Catarina, na Capital, em 1975.

Antes disso, em 1968, durante uma visita do presidente Artur da Costa e Silva ao Estado, a Secretaria de Segurança Pública sequestrou e manteve presos na cadeia pública de Biguaçu, sem justificativa formal e interrogatório, estudantes da região da Capital. Entre eles estavam a professora Derlei Catarina de Luca (que depois foi presa e torturada em São Paulo e se tornou membro da Comissão Estadual da Verdade), o médico Rômulo Coutinho de Azevedo (que morreu em 1980 no acidente com o avião da Transbrasil no morro da Virgínia, na Ilha) e o chargista Sérgio Luiz Bonson.

Informações num acervo nacional

O material reunido pelo Coletivo Memória, Verdade e Justiça vai fazer parte de uma pasta no Arquivo Nacional, que já tem 24 milhões de páginas de documentos textuais, além de fotografias, mapas e filmes, sobre as atividades de repressão política no Brasil. Coordenado em Santa Catarina por Thais Lippel, médica que atua como assistente técnica do Ministério Público do Trabalho, o Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil – Memórias Reveladas, criado em 2009 pela Casa Civil da presidência da República, reúne 65 instituições que, sob o guarda-chuva do Arquivo Nacional, disponibilizam informações para todos os interessados no assunto no portal memoriasreveladas.gov.br. Os acervos integrados ao centro foram nominados como “patrimônio mundial da humanidade” pela ONU.

Com a assinatura do termo com o Arquivo Nacional, em 27 de junho, todas as informações reunidas sobre a ditadura em Santa Catarina passam a constar de um acervo maior, de âmbito nacional. “A comissão já se extinguiu, prestando contas de seu papel, mas os coletivos continuam trabalhando, denunciando as ações de violência que o Estado continua praticando”, diz Thais.

Para Derlei de Luca, que há mais de 40 anos pesquisa o tema dos perseguidos políticos, a luta de quem resiste só deveria acabar quando todos os corpos dos desaparecidos forem descobertos e tiverem um enterro digno. Torturada, ela própria precisou de acompanhamento psiquiátrico, mas mantém o compromisso de ir até o fim. “Se eu fosse assassinada, queria que meu filho [José Paulo] soubesse por quê”, afirma. “Como sobrevivi, tenho o dever de esclarecer os outros sobre o assunto”.

Os números da Comissão da Verdade

  •  436 pessoas mortas
  • 140 desaparecidos políticos
  • 10.034 pessoas submetidas a inquérito
  • 7.376 indiciadas por crimes políticos
  • 130 banidos
  • 4.862 cassados
  • Presos 6.952 militares, 1.196 camponeses e apoiadores e 8.350 indígenas (de dez etnias pesquisadas pela Comissão Nacional da Verdade)

Fonte: Dossiê da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos

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