Publicidade
Terça-Feira, 11 de Dezembro de 2018
Descrição do tempo
  • 30º C
  • 20º C

Em oito décadas, o Círculo Operário de Joinville passou por diversas fases

Entidade passou por diversas etapas ao longo de 81 anos de existência.

Roberto Szabunia
Joinville

Do tradicional movimento católico operário do início do século passado, ao vibrante, ecumênico e genérico centro profissionalizante de hoje, o Círculo Operário de Joinville passou por diversas etapas ao longo de 81 anos de existência. Hoje, o esforço da entidade mira a modernização e ampliação, tanto física quanto no foco educacional/profissionalizante.

“Vamos construir um prédio adequado às necessidades dos cursos, já pensando também em montar polos nos bairros, pois hoje o Círculo atrai interessados de toda Joinville e até de outras cidades”, diz o atual presidente, Djeverson de Souza, o “Preto” – ele mesmo ex-aluno de datilografia do COJ, onde sua mãe foi professora dos cursos de manicure e cabeleireiro.

 

Padre Kolb e a ideologia trabalhista

Ao ser fundado, em 1935, o Círculo Operário de Joinville seguia as diretrizes do movimento operário católico brasileiro. O padre Alberto Kolb, fundador da entidade, se dizia um “representante do operariado de Joinville”. Anticomunista ferrenho, o clérigo participou inclusive da fundação do diretório local do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro).

Reprodução Luciano Moraes/arquivo/ND
Prédio onde funciona a sede do Círculo até hoje sendo construída

 

Tais informações, assim como a maior parte do relatado nesta reportagem, estão no trabalho intitulado Igreja e Política: o papel do Círculo Operário Católico em Joinville, resultado da tese de mestrado em história de Daniely Wendland, graduada e mestre pela UFSC. Sua pesquisa abrange o período inicial do Círculo, de 1935 a 1947, ano do falecimento do padre Alberto Kolb.

Outra fonte de informações é o livro “Círculos Operários: a Igreja Católica e o Mundo do Trabalho no Brasil”, da historiadora Jessie Jane Vieira.

Já no seu trabalho de conclusão do curso de graduação, “Joinville: política e mobilização social no após-guerra, 1945-1947”, Daniely Wendland abordava o período de redemocratização política em Joinville, após o fim do governo Vargas, em 1945. A pesquisa resultou no seu trabalho de conclusão de curso na Universidade Federal de Santa Catarina, intitulado “Joinville: política e mobilização social no após-guerra, 1945-1947”. Ali, contava como “...um padre revelava-se presente nos principais debates que envolviam a política da cidade, não como candidato a cargos eletivos, mas como fundador do Círculo Operário, ou, como gostava de ser lembrado, ‘representante do operariado de Joinville’”.

O padre Alberto Kolb permaneceu como diretor do Círculo da fundação, em 1935, até 1947, quando faleceu. Nesse período, deixou registrada em diários, correspondências e atas sua atuação no comando da instituição. “Também demonstrou – escreve Daniely Wendland – uma admirável habilidade no trato com lideranças de diferentes orientações partidárias, conseguindo, graças a sua rede de sociabilidade, um expressivo sucesso material para o Círculo Operário de Joinville”.

 

O início do Círculo

 

Alberto Kolb nasceu na Alsacia-Lorena, Alemanha, em 1898, chegando ao Brasil dez anos depois. Os estudos eclesiásticos foram iniciados na cidade de Diamantina, em Minas Gerais, e em 1926 Kolb se sagrava sacerdote. Exerceu a missão sacerdotal por diversas paróquias, principalmente em Goiás e na Bahia. Em 1934 foi transferido para a Diocese de Joinville, onde por três anos atuou como secretário do Bispado.

A explicação para a criação do Círculo de Joinville, retirada de um dos livros de anotações do padre, difere da implantação da maior parte dos Círculos Operários – entre eles o pioneiro, de Pelotas (RS). Jessie Jane Vieira de Souza esclarece em seu livro: “O movimento circulista normalmente seguia uma espécie de metodologia, em que a comunidade escolhida para a instalação era analisada, observando seus problemas, a existência de associações ou sindicatos, a presença de líderes, o ambiente religioso, político, cultural e socioprofissional. Somente após a análise desses dados, o Círculo era instalado com um discurso apropriado à região”.

Kolb chegava a exagerar nos predicados da entidade que fundara, como neste trecho de sua biografia: “Em 1938, Kolb declarou ao jornal A Notícia que a entidade teria ‘aproximadamente 1.000 sócios’, mas em uma carta enviada ao interventor Nereu Ramos, em 1940, o padre afirmava ter ‘510 sócios efetivos, em dia com a mensalidade’. O Boletim do Círculo Operário de Joinville, jornal mensal da entidade, teve tiragem de 1.000 exemplares no ano de 1938. Se em 1940, o Círculo contava com aproximadamente 500 sócios e os jornais dessa época apontavam para uma população operária de aproximadamente 5.000 pessoas na cidade, pode-se inferir que a penetração do Círculo estava próxima a 10% do total de trabalhadores fabris.

Num tempo em que as redes sociais se formavam no corpo a corpo, o padre consolidou em pouco tempo um patrimônio respeitável para o Círculo. Nas “Reminiscências para a história do COJ”, título dado pelo fundador a um conjunto de cadernos redigidos basicamente por relatos de cerimônias, eventos, discursos e correspondências, há alguns detalhes sobre a obtenção de recursos, basicamente via doações.

 

Amplo atendimento ao operário

 

A Creche Conde Modesto Leal, também criada pelo padre Alberto, atendia crianças órfãs e filhos de operários em período integral. Integrada ao cotidiano do Círculo, a creche promovia excursões de lancha à ilha de São Francisco do Sul nos finais de semana, patrocinadas por empresas.

Luciano Moraes/ND
Sede atual, na esquina das ruas Inácio Bastos e São Paulo

 

O Círculo, em seu amplo espectro social, prestava assistência médica gratuita aos associados na sede, concedia auxílio-funeral, dava cursos noturnos de alfabetização, aulas de corte e costura, mantinha grupo de escoteiros, juventude operária equipada com orquestra, jogos de futebol, bar equipado com rádio, sapataria e alfaiataria.

A Juventude Operáriaera a chamada “Seção Juvenil do Círculo Operário”. Há poucas informações quanto ao número de participantes, mas as reuniões aconteciam uma vez por semana e visavam a organizar passeios a empresas de outras cidades, oferecer palestras, aulas de ginástica, esportes e jogos.

O Círculo acolhia a família operária desde a infância, quando a criança era matriculada na Creche Conde Modesto Leal, passando pelo jovem que poderia participar da Juventude Operária, até o casal que se envolvia nas atividades diversas e nos cursos profissionalizantes.

A estrutura tinha um salão para festas e bailes, animados pela banda de música dos operários e um cinema com 1.000 cadeiras. aviaHaHavia um projeto de construção de uma vila nas proximidades da sede, incluindo maternidade e hospital. Não foram encontrados registros que indicassem a concretização do projeto da vila, mas teve até lançamento da pedra fundamental da chamada “Casa do Operariado Joinvilense”.

 

Rixa política

Anticomunista ferrenho, o padre Kolb se opunha ao prefeito integralista Aristides Largura (1936-1938). Além de fechar a escola noturna para operários, o prefeito, acusava Kolb, não teria repassado nenhum tipo de subsídio ao Círculo. Em seu caderno de reminiscências, o clérigo se queixava: “Na gestão do Sr. Max Colin foi fundada a Escola Municipal Noturna para o Círculo Operário e outros favores muitos recebemos do coração magnânimo do então prefeito, de quem guardo a mais grata recordação. Seu sucessor, Aristides Largura, fechou para os operários esta escola, e durante sua gestão na Prefeitura, nem nosso guarda-livros nem nosso tesoureiro tiveram trabalho de escriturar e recolher subvenção alguma. Ao Círculo tudo foi negado”. Na oposição, Kolb participou da fundação do Partido Trabalhista Brasileiro de Joinville.

A despeito do pouco apoio oficial, a obra de Kolb teve sucesso. Dois anos após a criação, o Círculo já tinha sede própria e o prédio da creche, ambos construídos com o auxílio exclusivo de doações. O padre criou uma rede de doadores bastante diversificada, que incluía o bispo dom Pio de Freitas, políticos de diferentes orientações partidárias, empresários influentes, além dos próprios operários, contribuintes com mensalidades.

O padre chegou a ir ao Rio de Janeiro pedir apoio ao então presidente Getúlio Vargas. Também foi a Florianópolis, onde encontrou o interventor Nereu Ramos em busca de subsídios fiscais. Oito anos após a fundação, a entidade já era proprietária de nove prédios.

Kolb morreu em 1947, mesmo período no qual se verificou uma fase de recrudescimento do movimento circulista nacional.

O Círculo hoje e amanhã

Depois de anos de um certo encolhimento, hoje o Círculo Operário de Joinville volta a ganhar notoriedade, num esforço de modernização. “Sem a ideologia puramente operária e católica da época da fundação, o Círculo quer ser uma opção na oferta de cursos profissionalizantes, a custo reduzido”, diz o atual presidente, Djeverson de Souza, conhecido como “Preto”. Um choque de gestão vem sendo aplicado pela atual diretoria, renovando, modernizando e ampliando. O COJ está presente na mídia e tem planos ambiciosos – aí sim, mantendo o espírito do fundador.

Nascido em 1974 em Joinville, empresário no ramo de equipamentos para suinocultura, Preto está no primeiro ano da segunda gestão. É ex-aluno do curso de datilografia no Círculo, e sua mãe Doroti foi professora dos cursos de manicure e cabeleireiro. “Quando assumi em 2013 – conta o presidente – estava meio parado, havia só alguns cursos e pouco se ouvia falar do Círculo. Implantamos mais cursos e investimos na divulgação. A ideia é fazer do Círculo Operário o que ele era antes, sem traços ideológicos. Todos são bem-vindos, de qualquer religião, profissão ou classe social.”

O Círculo vendeu recentemente um terreno, na esquina da rua São Paulo com a Padre Kolb. Esses recursos serão investidos na construção de um prédio de seis andares numa área ao lado, também propriedade da entidade. Hoje, informa Preto, a maior parte dos recursos vem dos aluguéis, já que as mensalidades dos cursos têm valores populares. “Ali onde está a lanchonete Dryville – exemplifica, referindo-se à esquina das ruas São Paulo e Inácio Bastos – também é do Círculo e rende aluguel.”

O prédio a ser erguido terá oito pavimentos, inclusive com subsolo para estacionamento. “Vamos ter espaço para as salas de aula e ainda poder alugar salas comerciais, aumentando o rendimento mensal e possibilitando investir mais. Assim que o novo prédio ficar pronto, vamos investir neste espaço atual, abrindo um museu, um anfiteatro e outras instalações, para preservar o imóvel, que tem grande significado histórico”, detalha.

A grande meta é tornar o Círculo autossustentável, capaz de oferecer mais e melhores cursos, profissionalizantes, culturais e também de graduação, em parceria com outras instituições de ensino. Mais tarde, ter polos nos bairros. “Hoje temos alunos de diversos bairros e também de Barra do Sul, Barra Velha e Garuva”, acrescenta.

No corpo docente há professores que são funcionários, mas a maioria trabalha em sistema de parceria, como Valmir Neitsch, o Capim, no curso de teatro e Roiter Neves no de circo. Há cerca de 200 alunos matriculados nos cursos de cabeleireiro, corte e costura, informática, inclusão digital para 3ª Idade, manicure, pintura em tecido, tricô e crochê e violão. Também há um grupo de convivência da terceira idade.

 

Pesquisa de conexões


Daniely Wendland, a autora do trabalho sobre o Círculo, é professora licenciada da rede municipal de ensino e gerencia a loja da rua 15 de Novembro da tradicional Tabacaria Sobradinho, empreendimento fundado por seu pai. A seguir, seu depoimento.

“Durante o mestrado, meu interesse era investigar a história política de Joinville durante as décadas de 1930 e 1940, mais precisamente a formação dos partidos, dos sindicatos e do Círculo Operário Católico, organizações que estavam estreitamente relacionadas. Abordar partidos, sindicatos e também o Círculo Operário durante duas décadas estenderia, sobremaneira, a pesquisa. Porém, as conexões entre as três organizações não poderiam ser ignoradas para compreender a conjuntura política da cidade de Joinville na metade do século 20.

Nesse contexto, a figura do padre Kolb, fundador do Círculo Operário de Joinville, constituía-se também como elemento central para entender o período abordado. Além do Círculo, ele criou a Creche Conde Modesto Leal e participava ativamente da vida política da cidade, assim como dos sindicatos que estavam sendo formados naquele momento. Encontrei cadernos de anotações, recortes de jornais que ele mesmo organizava, além de livros e outros documentos do Círculo Operário.

A atuação da Ação Integralista Brasileira em Joinville, que elegeu o prefeito Aristides Largura, também fez parte da pesquisa. Para uma pesquisa acadêmica que deve obedecer aos rigores do método, como é um mestrado, são necessárias fontes e referências bibliográficas diversas. Além dos documentos do Círculo, também pesquisei em jornais publicados naquele período e em outros documentos encontrados no Arquivo Histórico de Joinville, que possui um acervo muito rico, e é referência no país. 

Quanto às referências bibliográficas, no contexto nacional temos muitas publicações sobre os temas abordados, mas em Santa Catarina e em Joinville, especificamente sobre aquelas décadas, ainda não temos muitos trabalhos publicados. Acredito que a escassez de publicações que compreendem o tema e período em questão tenha sido uma das principais dificuldades do trabalho. Também encontramos dificuldades nas fontes do período, porque muitos números de jornais e outros documentos referentes ao regime do Estado Novo desapareceram dos acervos, assim como uma significativa parte dos documentos ligados à Ação Integralista Brasileira. 

Entretanto, apesar das dificuldades inerentes ao ofício do historiador, foi gratificante poder contribuir com a reconstrução da história de Joinville e de Santa Catarina, apesar da certeza de que ainda há muito para ser escrito sobre a história de Joinville nos anos 30 e 40 do século 20.”

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade