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Atleta transforma casa em tatame para ensinar jiu-jitsu a crianças do Morro do 25

Série Engajados conta a história de Rodrigo Moreno, líder do projeto social Amor à Arte

Aline Torres, especial para o ND
Florianópolis
22/12/2016 às 18H30

No Morro do 25 há um rito que quem está do outro lado da muralha invisível, que separa cidade de periferia, não vê. Nos finais de tarde, de segunda a sexta, sessenta crianças e adolescentes saem de casa vestidos com seus quimonos azuis e brancos. Cruzam as vielas de uma das comunidades mais empobrecidas de Florianópolis, são cumprimentados pelos bêbados, pelos traficantes. Não param. Não até descalçarem seus chinelos e pisarem no tatame. Santuário dos alunos de jiu-jitsu do projeto Amor à Arte, futuros campeões nacionais, que apesar de treinarem há dois anos têm pouco pescoço para tantas medalhas.

Projeto Amor à Arte, conduzido por Rodrigo Moreno e voluntários, oferece modalidade e outras atividades para os participantes - Melanie Gabilan/Divulgação/ND
Projeto Amor à Arte, conduzido por Rodrigo Moreno e voluntários, oferece modalidade e outras atividades para os participantes - Melanie Gabilan/Divulgação/ND



O ponto de encontro é a servidão Antonio Monteiro, que não está no mapa do Google. Mesmo que as pesquisas no site de busca encontrem o endereço em matérias relacionadas com mortes no tráfico.

Onde hoje há um tatame, antes era a sala e a cozinha de Rodrigo Moreno, 35. Ele abdicou do conforto pessoal para que as crianças “tenham acesso a outras possibilidades”.

Em algumas noites, Rodrigo conseguia se conectar com o sagrado. Em outras, a meditação era cortada. Tiros. Gritos. Sirenes. Silêncio de menino já sem vida, estatelado no asfalto. Um alívio para quem, no dia seguinte, assistia a TV na hora do almoço, vomitava que “bandido bom é bandido morto” e voltava a comer. Diferente de Rodrigo, que havia passado a noite em claro, angustiado. Rodrigo não trafica, não consome, mas como sua mãe, nasceu no 25 e, por isso, sabe que poderia ter sido o entretenimento do noticiário familiar.

Seu pai morreu quando ele tinha dois anos, a mãe só passou perrengue, mas foi quando ela reencontrou o amor, que a vida de Rodrigo mudou. No início da adolescência, o padrasto o presenteou com uma prancha. O mar definiu seu caminho.

“O esporte é uma grande ferramenta para meninos, como eu fui, que não têm grandes perspectivas, por que desenvolve o físico e o mental e só trás coisas boas, pensamentos positivos, amigos positivos”.

Rodrigo se formou em educação física na Udesc (Universidade de Santa Catarina), pratica surfe, yoga, artes marciais, é professor do Sesc e personal trainer.

Apesar de ter a vida que quis, a aflição interna não foi curada. Queria respostas. E teve em uma noite em 2014. Enquanto exercitava o jiu-jitsu, viu seis crianças o espiando pela janela. Abriu o vidro e perguntou se queriam treinar. No dia seguinte, vieram oito. O número não parou de crescer. Foi preciso demolir os cômodos da casa, se desfazer da mobília, mas como ele diz “ali se reparte o último pão”. Um sonho novo redefiniu seu caminho.

Rodrigo, o mestre faixa-preta Gustavo Santiago, e outros cinco voluntários trabalham para criarem células do projeto em todo o Maciço do Morro da Cruz, dividido em 17 comunidades.

Tanto esforço sem nenhuma remuneração é a prova na crença de que o esporte, antes de formar atletas, forma gente. “O reequilíbrio é completo. Se aprende a disciplina, a convivência sadia, a concentração, a consciência corporal e o desenvolvimento emocional. Ainda tem uma particularidade. O jiu-jitsu exige intimidade e nós dá uma chance de reflexão sobre gêneros. Meninos e meninas lutam juntos porque desenvolveram o respeito. Isso não se apaga”.

Mesmo sem fazer pouco, os voluntários desejavam fazer mais. Eles não só exigem que as crianças e jovens estejam matriculados na escola, como atualmente participam de reuniões com os professores e, em caso de deficiência no aprendizado, dão aulas de reforço.

A sexta-feira é pedagógica. Quando não são revistos conteúdos de sala de aula, são debatidas questões filosóficas, como a ética e a cidadania. Antes, para entrarem no clima, todos fazem exercícios de respiração e conseguem se concentrar mesmo de barriga vazia.

Rodrigo lamenta não servir lanches para os alunos. As únicas doações que recebem é de dois mercadinhos que entregam bombas de 20 litros de água uma vez por semana.

“Nós tentamos compensar a falta de valores monetários com valores humanos. Não é fácil, mas ninguém aqui foi criado com facilidades”, disse.

A maioria dos pequenos lutadores enfrenta batalhas mais duras na vida real. Pais presos, viciados em crack ou exaustos pela rotina dilaceradora de trabalhos mal remunerados.

As primeiras casas foram erguidas em torno da antiga Penitenciária da Pedra Grande, na década de 30, justamente, para facilitar a proximidade com os familiares encarcerados. Realidade que se repete, geração após geração, há mais de 80 anos por matemática ruim.

O Estado gasta R$ 60 milhões por ano com as 1,6 mil pessoas presas no Complexo Penitenciário da Agronômica, onde era a Pedra Branca. 70% dos casos são por vendas de drogas. Na outra ponta, a Prefeitura, libera uma verba de R$ 24 milhões anuais para apoiar as ONG’S que abrigam 2,6 mil menores retirados dos pais pela Justiça. Crianças maltratadas, principalmente, por viciados. O projeto Amor à Arte resgata do crime e do vício e não recebe nenhum real. E há ainda as pessoas que reclamam da violência. Em frente à TV.

“Acho que o mais fundamental na minha vida foi perceber que sou responsável por essas crianças, todos são. Por que se queremos transformação social temos que agir. E então, quando elas crescerem, ao invés de sons de tiros, poderemos ouvir histórias das suas vitórias”.

 A série “Engajados” traz às segundas-feiras histórias de anônimos que mudam o estado das coisas ao seu redor

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