Publicidade
Domingo, 23 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 27º C
  • 18º C

A costureira catarinense que arrecada toneladas de doações para os extremamente pobres

Liane vive em uma casa em São José, de lá, ela arrecada roupas e outras doações para quem mais precisa

Aline Torres, especial para o ND
Florianópolis
22/12/2016 às 18H27

No mês mais frio do inverno, Liane dos Santos foi com o marido Adão e o filho passear em Anita Garibaldi, na região Serrana. Quando cruzavam as estradas de chão, deixavam para trás as crianças da lavoura. Sujas e cansadas. Com as calças tão curtas quanto as possibilidades.

Nesse momento, Liane se viu. Foram os pequenos maltrapilhos que reacenderam doloridas lembranças e, com elas, uma vontade nova de aliviar a dor dos outros. Surgiu, no improviso, um projeto que atualmente, após quatro anos, é conhecido como Amigo Solidário São José.

Liane vive em uma casa em São José, de lá, ela arrecada roupas e outras doações para quem mais precisa - Flávio Tin/ND
Liane vive em uma casa em São José, de lá, ela arrecada roupas e outras doações para quem mais precisa - Flávio Tin/ND



O casal mapeia cidades onde há pobreza extrema e distribui todos os tipos de presentes. A primeira televisão de um velho agricultor. Roupas limpinhas. Sapatos sem furos. Eletrodomésticos, louças, potes. Bicicletas, computadores. Um urso de pelúcia para a moça que não pôde ser criança. Já foram entregues 15 toneladas. Mas, o bem feito não pode ser quantificado. O bem de levar aos esquecidos a sensação de que são queridos.

Para um catarinense padrão, as limitações da vida na roça são inimagináveis.  É bonito de ouvir que o Estado tem a menor taxa de pobreza extrema do Brasil. Mas, quando os números se transformam em gente a beleza se esgota. Não são poucos os sem pão.

Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) cerca de 100 mil catarinenses sobrevivem com ¼ de salário mínimo. Se formassem uma única cidade de miseráveis, estariam entre as 13 maiores, a frente de 282 municípios.

Na roça se vive, principalmente, em casas de madeiras com frestas, onde os que mais festejam são os ratos, telhados de amianto, fáceis de serem levados pelo vento e fogões à lenha.

Não são poucos os agricultores que trabalham com sol a pino, todos os dias, sem nunca terem tomado uma água gelada. Eletrodomésticos são seus sonhos distantes.

 

Essa origem de excesso de trabalho e ausência de dinheiro é a origem de Liane.

“Era eu ali, tocando gado, ajudando na lida. Sem nada. Vim da roça. Sei bem o que é sofrer”.

Liane deixou a cidade natal, Xaxim , no Oeste Catarinense, aos 24 anos. Foi “morar em casa de família”, ficou 11 meses na primeira. Não foi bem tratada. Foi para a segunda. Ficou quatro anos no trabalho de doméstica, até que conheceu Adão. Juntos decidiram que ela faria um curso de costureira, profissão que exerceu até o ano passado.

Hoje a família vive em uma casa boa, no bairro Areias, em São José. Mas cada tijolo foi comprado com suor. Liane trabalhou tanto, que se entristece por ter perdido momentos únicos no crescimento do filho, hoje com 18 anos.

“Eu levava ele de manhã cedo pra casa da vizinha e pegava à noite, de banho tomado. Era só dar a comida e pôr pra dormir. Ela foi muito boa para meu filho, a segunda mãe”, conta.

Depois da batalha, Liane imaginava que viveria o sossego com a família. Mas, a vida real não é roteiro de novela. Veio mais trabalho.

O primeiro empenho do casal é arrecadar donativos. Ajudam os fiéis da igreja Batista que frequentam, os clientes de Adão, que depois de muito ralar abriu uma assistência técnica para consertar máquinas de roupas, louças e microondas e os vizinhos.

O segundo passo é a triagem. Liane separa as roupas em femininas, masculinas e infantis. Se tiverem defeitos de costura, conserta. Também testa para ver se os eletrodomésticos funcionam. Ao contrário, Adão dá um jeito nos intervalos da empresa.

Nos fundos da casa, eles armazenam ordenadamente os objetos, por cerca de seis meses, até somarem o suficiente para encher o caminhão. Em seguida, escolhem a cidade e entram em contato ou com uma paróquia ou com a assistência social. Organizam a visita.

Por fim, a pior parte para Liane. Pedir dinheiro para o caminhão. No dia 12 de dezembro, por exemplo, eles voltarão à cidade que despertou a ideia do projeto – Anita Garibaldi – com duas toneladas de bens. Mas, ainda estão sem dinheiro para o transporte, que deve custar em torno de R$1200. O que sobra vira lanche.

“Fazendo a gente percebe as necessidades. Pensei em algo para oferecer e perguntei para um menino se ele gostava de cachorro-quente. Ele me disse: o que é isso?”.

 

Além de Anita, e do distrito de Lagoa da Estiva, eles já estiveram em Cerro Negro, Celso Ramos, Alfredo Wagner, Correia Pinto, Campo Belo do Sul, São Joaquim e São José do Cerrito.

Questionada sobre a possibilidade de uma cidade mais próxima, Liane é taxativa. “A pobreza na Grande Florianópolis é muito diferente. Se uma criança não tem roupas, por exemplo, pode ganhar de um vizinho, de um programa social. A roça é o vazio. Lembro que quando era pequena. O vizinho mais perto ficava a quilômetros de distância e era tão pobre quanto nós. Não tínhamos a quem recorrer”.

A visão de Liane é comprovada pelos números de frequentadores dessas mega bazares. No último evento foram 700 pessoas. “É uma gente muito simples, mas muito grata”.

Por mais humilde que seja a moradia, sempre oferecem a casa, um prato de comida, chimarrão. São pessoas que aprendem a sobreviver na divisão do que têm de mais precioso, a força do trabalho e o resultado do plantio.

Vizinhos se ajudam nas semeaduras e nas colheitas. Depois trocam alimentos. Suas vidas são regidas pela natureza. E no Estado não faltam geadas, vendavais e estiagens para aumentar a tristeza. Sem falar no frio, abaixo de zero, que rico gosta, mas faz pobre sentir dor nos ossos e dormir com todas as roupas que possui. 

Talvez essa penúria explique porque um menino, de aproximadamente 12 anos, comentou numa tarde de doações que aquele era o dia mais feliz da sua vida.

Ele foi para casa com um tênis e uma bola.

Publicidade

1 Comentário

Publicidade
Publicidade